Um filme comissionado pelo estado soviético, que acabou por lhe fugir, Zemlya parte da situação coletivista na Ucrânia dos anos 20 e 30: um quase-retrato dos momentos de implementação forçada do primeiro plano quinquenal da União Soviética, que resultou numa grande fome no país. Repudiado e banido por não ser suficientemente militante, compreendemo-lo como afastado de uma mensagem linear, de uma marcha perfeitamente estruturada, onde o requisitado apelo ao social se dilui aqui nos mistérios da terra e da interioridade, abrindo um espaço imaginativo que parte de um real em construção, não nele encerrado.
Natureza e humano são imediatamente colocados lado a lado, o que os une não é apenas o labor e a necessidade, as ligações que mantêm não se esgotam no aproveitamento e no progresso: a força e beleza da primeira acompanham as adversidades do segundo, numa concatenação que se revela a chave para a abordagem totalizante deste filme, para a poesia que nestes contornos é fundada.
Família, sociedade, território: quais os limites que os separam e para onde caminham os que aqui se movem? O conflito geracional deixa antever uma mudança em grande escala, e é esta porventura a grande temática que percorre Zemlya, situando-o num lugar que explora horizontalmente as relações entre as três esferas. A morte é, desde logo, a grande estrutura que suporta os interstícios da mudança: Semyon (Mykola Nademskyi), um velho avô que parte envolto em árvores de fruto e dúvida, tem a seu lado Vasyl (Semyon Svashenko), neto mobilizador que encontra na novidade da máquina uma esperança de revolta contra forças opressoras.

Abstemo-nos de uma análise exaustiva em torno do conflito entre camponeses e kulaks, visto que encontramos em Zemlya não só muito pouco de narrativo, como ainda menos de documento – não por se tratar de um filme onde a propaganda dissimula os factos, já que Dovzhenko pouco uso faz desse viés, mas sim porque a proposta do mesmo não está limitada pelo momento histórico em causa, tampouco subjugada a um realismo inquestionável ou às estruturas que o regem.
O modo de atuar do partido de Vasyl – onde se destaca a imponência da juventude enquanto contraponto do conservadorismo dos seus antepassados, nomeadamente Opanas (Stepan Shkurat), seu pai – é difuso, e somos poupados aos pormenores desta organização. É, ainda assim, nestes momentos que o cunho político é mais notável: na conceção de um mundo de cisões, desigual mas não derrotista, tampouco unívoco na culpa e nas soluções que vão sendo propostas. O que sobressai é a união de um povo múltiplo, sem que esteja claro se a apologia – se é que alguma – é feita a essa nova ordem anunciada ou apenas à vontade generalizada de libertação.

Somos levados até aos primórdios da emoção humana: alegria, tristeza, raiva, vingança; as relações são, apesar de tudo, marcadas pela amargura. Porque a comunhão deste mundo não é pacífica. O trabalho não dá tréguas, o lado selvagem que cada um encerra em si cresce, a loucura impregna as vivências de muitos. A religião também enfrenta resistência, sendo o apelo feito, principalmente através da figura de Opanas, ao abraço de um novo tempo: um tempo não obstante afastado de ideologia, concentrado na capacidade de regeneração do mundo e dos seus intervenientes.

O real aqui apresentado é transformado, empurrando-nos para a periferia do objet(iv)o político: para o cerne de uma terra plena que acompanha a possível mudança, conciliando a intimidade da família, as grandes preocupações da comunidade e a imperturbabilidade da natureza, sem que uma obscureça a outra. O movimento da terra faz-se de avanços-recuos e a vida – que é, acima de tudo, uma semente – encontra prosperidade ao lado da promessa de um mundo melhor.
O experimentalismo, sentido na montagem e na composição das imagens, evidencia as relações entre fertilidade, utopia e as peripécias humanas que se vão sucedendo, mantendo-os sempre próximos, senão mesmo coincidentes e indissociáveis.
Ambíguo, tal como o consideraram os críticos da época, não é propriamente na luta revolucionária do bem contra o mal – e na edificação e cristalização de quem pertence a que lado – que o filme se eleva, mas na construção de um ecossistema em perpétua metamorfose, onde a coletivização surge como pano de fundo, mais um meio para a exploração de uma linguagem (visual) conciliadora do que um fim em si própria.
Morte e vida, estagnação e revolução, debatem-se entre si, sempre de forma natural e em busca do que pode estar para além. Um exemplo da imprevisibilidade e beleza das teias que o cinema tece no seio de regimes onde as imposições parecem falar mais alto.

Zemlya é apresentado esta quinta-feira, dia 9 de Julho, na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” – acompanhamento ao piano por Paulo Esteves da Silva.



