Durante o mês de março, todas as terças-feiras, o Lucky Star – Cineclube de Braga traz até nós uma retrospetiva dedicada a Xavier Dolan, com a exibição de cinco filmes que têm vindo a definir o seu percurso. Aproveitando o mote, recordamos também a filmografia do realizador canadiano, marcada pela representação da intensidade da juventude, de confrontos interpessoais e de uma sexualidade que se quer expansiva e ardente.
A par da exploração de intricadas vidas amorosas em comunidade, Dolan discorre em torno da figura que pode constituir toda a base dessa sexualidade a desabrochar: a mãe, elemento fundacional, problemático, essencial. Na sua primeira longa-metragem, J´ai tué mà mere (2009), o conflito entre o adolescente e a mãe, partindo da experiência pessoal do realizador e, neste filme, ator principal, é estabelecido sobretudo como guerra emocional assente na expressão explosiva do indizível sufocado nas interações automáticas do dia a dia. Os planos artificiais – uma mãe vestida de noiva ou a chorar lágrimas de sangue à la Virgem Maria – são tão ou mais importantes do que as sequências de fricção (e frágil reconciliação) entre mãe e filho, construindo um imaginário de libertação, de questionamento da autoridade maternal e das estereotipadas relações que exigem que amemos incondicionalmente essa mesma figura.
Para além disso, a afirmação do corpo queer enquanto destabilizador de modelos inflexíveis de crescimento e formação do eu faz-se acompanhar de imagens gritantes, remetendo tanto para a decadência da família patriarcal e burguesa como para a revolta da juventude contra a rigidez das estruturas dominantes.
Mais tarde, em Mommy (2014), a vivência errática de mãe e filho é de novo explorada, desta vez adensada pela maturidade do filme e pelo seu realismo, contrariando a perspetiva mais artificial e ligeira, adotada anteriormente. Retirando a disfunção familiar do seu pedestal romântico, transporta-a para um lugar trivial, para um primitivismo edipiano, principalmente através da construção das suas personagens e das situações de violência e de profundo amor às quais são, sucessivamente, expostas.
Diane (Anne Dorval) e Steve (Antoine Olivier Pilon) deambulam entre a felicidade e a miséria num lar demasiado pequeno para suportar a complexa rede de frustrações fruto de uma atribulada vida (passada) – Diane presa à negligência involuntária e à impotência perante um filho revoltado e Steve acorrentado a um comportamento que não compreende totalmente, mas onde triunfa a raiva contra a família e o mundo. É na descoberta de uma companhia inesperada – a vizinha da frente – que o filme marca a sua posição crítica no seio de uma sociedade que se tem como plena e imperturbável. Kyla (Suzanne Clément), de mistério sempre latente, encontra conforto na relação entre Diane e Steve – pela sua visceralidade, autenticidade? – ao ponto de descartar, temporariamente, a sua própria família aparentemente funcional, fazendo-nos interrogar se o que acontece atrás da fachada da família feliz fará jus àquilo que a mesma transparece ser.
A comunidade a três criada flui de forma bela e calma: o que advém da cumplicidade parece ter força suficiente para derrotar as consequências do individualismo, do fechamento em soluções urgentes, desesperadas e improvisadas. No entanto, a passagem do tempo – que se revela tanto uma aflição como miragem de sonho porvir – não dá tréguas e Dolan, como é seu costume, não deixa inconsequentes as sequências de felicidade intocável.
Resta-nos questionar uma sociedade – que se faz tanto de pessoas como de instituições – que não só propicia as situações-limite que vemos vivenciadas, como recusa a paciência e a solidariedade necessárias para ajudar quem sofre, em última instância, à sua custa, transformando a família num lugar alienante, obscuro e reflexo íntimo de todos os males lá fora.
O final parece mostrar-nos que não há espaço para a esperança. Na verdade, o que nos poderá dar a entender é que a vontade de libertação e rutura com as máscaras que somos incumbidos a empregar será sempre superior a um futuro esperançoso construído sobre uma enganadora linearidade.
A mãe permanecerá como figura etérea, parcialmente ausente e símbolo de adoração no cinema de Dolan, mesmo que com apenas alguns minutos de ecrã, que o são sempre de protagonismo.
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Dolan experimentou também aventurar-se nas fantasias da juventude – aquelas onde nos entregamos aos amores não correspondidos, incapazes de os largar, mantendo-os sempre apetecíveis e fascinantes. Les amours imaginaires (2010) desvela o que subjaz aos desamores e às ilusões que nos acometem e desvariam: os loucos ideais pelos quais somos tentados, o conceito do ser(-se) amado que ultrapassa a pessoa que pode ser amada – como o dizem no próprio filme –, colocando a falha como elemento imprescindível nas relações que mantemos com os outros, na maneira como crescemos.
Um filme que explora a complexidade do fenómeno da atração, o seu funcionamento enquanto ponto de partida para uma série de desavenças que colocam frente a frente (res)sentimento, paixão e desilusão, trabalhando o amor romântico ora como uma quimera íntima, ora como um duelo de onde sairá um vencedor e um vencido, até mesmo como um acontecimento tanto impossível como inimaginável. Repleto de metáforas e devaneios visuais – as escondidas na montanha, o saborear dos marshmallows – evidencia a beleza inerente aos jogos entre Marie (Monia Chokri), Francis (Dolan) e Nicolas (Niels Schneider): os dois primeiros, impotentes face aos encantos do último, um Adónis de carne e osso, recusam manifestar os desejos que ocupam o seu quotidiano, preferindo uma luta lenta e inquietante, mas cativante, necessária à conquista daquele coração.
As tensões entre hetero e homossexualidade, entre amores frustrados e bem-sucedidos, surgem-nos clarificadas e racionalizadas nas sequências intervalares e confessionais, enquanto se materializam de forma brutal e carnal nas dinâmicas do triângulo amoroso, criando um díptico que confronta não só reflexão e ação, mas também realidade e ilusão.
A narrativa, de simplicidade primitiva, ganha contornos mais interessantes com os pormenores que evocam o onírico e o utópico, a transcendência – pensemos nas sequências onde a câmara lenta nos guia em fabulosas danças de cores, ídolos do cinema, paixões irrevogáveis –, unindo-se, num abraço delicioso, à forma que adota através da via do olhar encantado, rendido.
Queremos que a fantasia se perpetue. É, no entanto, com a destruição do lugar idílico onde o amor poderia florescer sem impedimentos que o filme penetra nas dificuldades do sonho. Rivalidade e desejo, fantasmas de amores passados e futuros compõem uma viagem de frustração que demonstra a força do amor e da sexualidade, mas também o seu lado mais negro e profundo, adensado pela revelação das dores dos corpos queer, dos ciclos de rejeição, da revolta contra uma solidão aparentemente inescapável.
Com a criatividade e a sensualidade de sempre, Dolan reinventa o derrotismo, transformando-o numa reivindicação de amizade, num propulsor de excitação, de novos começos, de vida a acontecer.
Dando continuidade ao repto aqui lançado – ainda que tomando outros contornos –, Dolan adentra-se, novamente, nas tensões entre o real e o imaginado, a obrigação e o sonho. Num registo monumental – e bem mais sério –, Laurence Anyways (2012) desenrola-se no tempo de uma conversa, estendido para o tempo em que se escuta e se vê acontecer a história de uma (meia) vida, em tom confessional, sempre emancipatório.
Laurence (Melvil Poupaud) e Fred (Suzanne Clément) vivem à margem, inconformados com as exigências do mundo, mas ainda assim alinhando-se com a heteronormatividade que os mantém em consonância com a “normalidade” esperada. É a revelação de Laurence como mulher trans que incita a uma verdadeira disrupção, espoletando o questionamento acerca do que é que realmente sustenta uma vivência (conjunta) numa sociedade opressiva. A imaginação já não consegue, com os seus artifícios, sobrepor-se ao real, tornando-o suportável. A imaginação sucumbe, já não nos surge como libertação, mas como doloroso confronto com o desabar da linearidade e simplicidade aparentes.
Laurence Anyways não é, como já o disse o próprio Dolan, um drama em torno da transexualidade, do duro e vulnerável processo de reestruturação da identidade de género, mas sim sobre duas pessoas presas uma à outra – atentando nas maldições dessa prisão –, que se pertencem mutuamente porque se sentem e percebem, sobre os desafios sociais que têm de ultrapassar, os obstáculos moralistas, os binómios demarcados.
Apesar da (declarada) superficialidade em torno da jornada trans, é notável o respeito por estas pessoas e, sobretudo, pelo ser-se mulher. A mulher parceira, a mulher porvir, as mulheres de feminilidade excêntrica, desafiadora: Laurence, Fred, Mamy (Catherine Bégin) e Baby Rose (Emmanuel Schwartz). Nelas, sempre presente a necessidade de libertação face a um mundo opressivo e injusto – nervos, sentimentos e aflições à flor da pele, transpostos para sequências abaladoras, quadros marginais maravilhosos, envoltos em boémia, languidez, sobretudo refúgios para ser-se triste, decadente, face à insaciabilidade de um mundo demasiado limpo e exigente. Utilizando o contexto histórico a seu favor – o filme passa-se no intervalo entre 1989 e 2000 –, Dolan representa a ainda frágil consciência queer, funcionando esta abordagem como um comentário para o espectador contemporâneo – será que mudou muita coisa desde então?
É a partir de oscilações que o filme é construído, localizando a reflexão na relação metamórfica de Laurence e Fred. Opondo-se uma à outra, se Laurence sonha com uma nova vida em conjunto, Fred encontra-se no limbo entre fazer ou não parte, confrontando-se tanto com a opressão da família comum, como com o mundo desonesto e corrompido das aparências, perdendo-se na violência que brota das palavras de revolta que não são ditas. Gritos de raiva que são dirigidos tanto aos receosos que olham furtivamente – aqueles que vemos na sequência inicial –, como à lembrança, à saudade, ao arrependimento e frustração que envolvem uma relação que se vê falhada mas eternamente querida. Esta não é uma jornada individual, mas relacional – falamos do amor estrutural mas irrealizável, aquele que, repudiado pelas regras sociais, é como quimera encantada que resistirá na capacidade de sonhá-lo e recordá-lo.
O falso final feliz, recuperando uma ciclicidade importante para esta história de amor, é tão angustiante como libertador, sabendo nós que a felicidade que se viveu no passado diverge daquela que se pode construir no futuro.
Dolan atravessa – e faz-nos atravessar – um mar de amarguras, fazendo-nos pensar acerca do poder da realidade, de como o vai exercendo sobre a maneira como nos conformamos (ou não) com quem somos, como nos construímos nas e das pessoas, acabando por nos ensinar que o destino não é uma entidade omnipotente, antes brutalmente contaminada pelos fatores sociais e políticos que acompanham os amores (im)possíveis.
Na mais recente longa, Matthias & Maxime, a assombração da família comum e desse destino malfadado está, mais uma vez, à espreita. Apesar da abordagem circunscrita a um pequeno grupo de amigos, este não deixa de ser um dos filmes mais sociais de Dolan, na medida em que demonstra de que forma sentimentos verdadeiros podem ser mascarados, até diluídos, no tumulto das amizades duradouras, nesse espaço onde a confiança e a verdade seriam privilegiadas, mas onde acabamos por nos inibir, talvez fruto da pessoa que criamos para os outros e da qual temos medo de divergir, sedimentando-a.
Num ataque claro à imbecilidade da geração internet, o cinema (representado pela curta-metragem de Erika, na forma de caricatura-homenagem) brota como oportunidade ideal para desvelar verdades escondidas: um beijo que desencadeia um profundo e doloroso conflito entre Matt (Gabriel D’Almeida Freitas) e Max (Dolan).
A crescente tensão homoerótica, a sensação de afunilamento para uma conclusão inevitável, já sabida mas reticente em fazer-se mostrar: um filme assente nas metáforas que vai propondo, adereçando a aparente simplicidade narrativa e formal através de uma jornada de silêncios a combater, de inquietações há muito reprimidas.
Entre cigarros que acompanham pensamentos e personagens que desafiam padrões, esta é uma filmografia que dá a ver paisagens e imaginários reveladores das (nossas) mais íntimas inseguranças, relacionando pessoal e coletivo – evidenciando o papel medular deste último – enquanto denuncia a asfixia e intolerância do normal, estabelecendo-se, assim, como criação de um dos mais destacáveis e impressionantes cineastas contemporâneos. Acrescentando a isso a originalidade da sua linguagem visual e a iconografia que, tendo algo de kitsch, ainda assim, ou até por assim ser, pelas mãos – e olhar – de Dolan, nos chega tão especial e tocante.




















