Wuthering Heights, de Emerald Fennell – Um Monte Sem Vendavais

Raquel SampaioFevereiro 17, 2026

Emerald Fennell regressa às salas de cinema com a sua terceira longa metragem, (mais) uma adaptação de Wuthering Heights (“O Monte dos Vendavais”), de Emily Brontë. O filme, protagonizado por Margot Robbie e Jacob Elordi, não tem tido boa recepção apesar de toda a antecipação que tinha vindo a gerar, tendo sido apelidado de gratuito e oco de conteúdo, ainda que visualmente audaz, com uma leitura do clássico que para muitos “assassina” a obra literária. Raquel Sampaio submeteu-se a este guilty pleasure, mas a reacção infelizmente não deu a volta, deixando-nos a sua crítica.

Durante uma visita a Liverpool, um agricultor abastado conhece Heathcliff, um rapaz órfão abandonado à sua sorte, e decide levá-lo para junto da sua família. Nos campos isolados de Yorkshire, em Inglaterra, o rapaz acaba por criar um elo especial com Cathy, a filha mais nova do agricultor. Com o passar dos anos, a relação inocente entre as duas crianças transforma-se num amor obsessivo que acabará por conduzir a família à perdição.

 

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Há filmes que nascem de um equívoco fundamental: confundir ousadia estética com profundidade emocional. Wuthering Heights, de Emerald Fennell, é um deles. A realizadora, que nos deu Promising Young Woman e Saltburn, decide revisitar Emily Brontë e fá-lo com a subtileza de quem entra de patins numa loja de cristais. O resultado é visualmente excessivo, emocionalmente oco e, pior ainda, aborrecido. Mas seria desonesto não reconhecer que, ocasionalmente, há aqui um guilty pleasure. É uma trapalhada, sim, mas uma trapalhada irresistível às vezes. O filme abre com um truque barato: sons de prazer sobre um ecrã negro que afinal correspondem a um enforcamento público. Percebe-se a intenção – eros e thanatos, desejo e morte –, mas a provocação cai no vazio. É o equivalente cinematográfico de alguém que grita “olhem para mim!” sem ter nada particularmente interessante para mostrar. E o resto do filme confirma essa impressão: muito barulho, pouca fúria. Ainda assim, há momentos em que essa despudorada falta de vergonha funciona a seu favor.

 

 

Fennell atira-se de cabeça para o melodrama mais carnal e estúpido, e quando o faz sem hesitações, o filme ganha uma energia inesperada. O problema é que esses momentos são raros. Sirk não é. Emily Brontë, infelizmente, também não. Margot Robbie e Jacob Elordi são Catherine e Heathcliff, amantes malditos da charneca de Yorkshire. Ambos são atores mais do que capazes, mas aqui parecem aprisionados por uma realização que não sabe o que quer deles. A química funciona apenas quando estão afastados, quando o desejo não se consuma. Mal se tocam, a coisa desmorona-se. As cenas de intimidade são frias, quase embaraçosas, filmadas como se Fennell tivesse medo do próprio material. Para um filme que promete escândalo e transgressão, há aqui uma timidez desconcertante. É frustrante porque, nos breves instantes em que o filme se entrega por completo ao ridículo operático, há ali qualquer coisa de divertido – um camp involuntário que, se fosse explorado com mais consciência, poderia ter salvado o conjunto.

O problema não está na ideia de modernizar Brontë. A obra aguenta múltiplas leituras, já foi adaptada dezenas de vezes e cada cineasta tem o direito de encontrar o seu ângulo. Mas Fennell quer fazer uma declaração radical sem se comprometer verdadeiramente com ela. Quer chocar, mas não incomoda. Quer subverter, mas mantém-se presa a convenções narrativas que não ousa desmantelar. O filme oscila entre a vontade de ser um melodrama febril e o medo de se entregar a ele por completo. Fica preso no meio termo – o pior dos mundos. E quando finalmente se permite ser absurdo, já é tarde demais para recuperar o fôlego.

Jacqueline Durran, responsável pelo guarda-roupa, cria alguns momentos visuais marcantes – o vestido de noiva de Catherine é genuinamente belo –, mas o conjunto soa artificial, demasiado arranjado. Os figurinos não habitam o mundo do filme, parecem aplicados sobre ele como decalques. E o desenho de produção de Suzie Davies não ajuda: o quarto cor-de-rosa de Catherine em Thrushcross Grange parece saído de um catálogo de decoração contemporânea, não de um universo gótico e opressivo. A fotografia de Linus Sandgren aposta no contraste, nos vermelhos saturados, no nevoeiro omnipresente, mas tudo isso se torna rapidamente repetitivo. Parece um anúncio de perfume alongado até às duas horas. Há, contudo, uma ou outra composição visual que funciona, precisamente porque é tão descaradamente exagerada que se torna hipnótica. Hong Chau, no papel de Nelly, a governanta silenciosa que observa tudo, é das poucas presenças que funcionam. Há uma contenção na sua interpretação que contrasta bem com o excesso que a rodeia. Mas Fennell não lhe dá espaço suficiente, preferindo concentrar-se numa relação central que nunca ganha verdadeira temperatura. Alison Oliver, como Isabella, também se destaca – há ali uma personagem interessante a pedir para ser explorada, mas o argumento não lhe dá o tempo necessário. E depois há as escolhas musicais. Charli XCX compõe uma banda sonora que, isoladamente, funciona. Mas no contexto do filme, constitui mais uma camada de distanciamento. Não há integração orgânica entre som e imagem; há justaposição. E isso reforça a sensação de estar a ver um exercício de estilo, não uma história que respira.

Fennell é uma cineasta que não tem medo de arriscar, e isso merece respeito. Mas risco sem clareza é apenas ruído. Wuthering Heights quer ser muitas coisas ao mesmo tempo – uma revisão feminista, um espetáculo sensorial, uma tragédia romântica –, e acaba por não ser verdadeiramente nenhuma delas. Há uma versão deste filme, mais assumidamente trash, mais conscientemente ridícula, que poderia ter funcionado. Mas Fennell não se decide: quer seriedade e quer palhaçada, quer prestígio e quer provocação barata. É um filme que se admira à distância, que se pode até discutir, mas que não se sente. E tratando-se de uma história que vive da paixão destrutiva, essa é, talvez, a falha mais grave de todas.