Wings (1927), de William A. Wellman – Ases da Aviação

David BernardinoNovembro 25, 2025

Olhar para Wings hoje é como olhar para toda a história do cinema de guerra, e particularmente do cinema de aviação, na sua versão seminal, que nem seminal é. Com um orçamento elevado para a época de 2 milhões de dólares, hoje 37 milhões ajustados à inflação, Wings, se não fosse mudo e a preto e branco, não se ficaria atrás das produções de hoje, quer narrativamente, quer tecnicamente. Dois jovens rivais numa pequena vila americana, Jack (“Buddy” Rogers) e David (Richard Arlen), decidem alistar-se na força aérea norte-americana durante a primeira Guerra Mundial, tendo os céus como sonho, mas também o coração da mesma mulher, Sylvia (Jobina Ralston). Na cena inicial, que nos apresenta Jack deitado na relva a contemplar o céu, conhecemos também Mary, interpretada pela expressiva Clara Bow. Mary está evidentemente apaixonada por Jack, mas o jovem tem a sua mente nas nuvens, vendo Mary apenas como uma grande amiga. Com a sua ajuda modifica um carro para, conduzindo-o, se aproximar à sensação de voar. Ambos decidem chamar ao carro “shooting star” (estrela cadente), que quando avistada permite beijar a pessoa que se ama. Abandonando esta aconchegante cena apercebemo-nos que talvez seja David que está mais próximo de Sylvia, à medida que este se despede dos seus pais da alta classe, levando para a tropa como amuleto o ursinho com que brincava quando era criança.

 

 

Este cenário romântico e de esperança dá lugar ao dia a dia dos treinos militares, onde os rivais se tornam amigos, e vemos a génese de tantos e tantos filmes televisionáveis contemporâneos do género, mas não só. Desde o instrutor rígido e severo de Full Metal Jacket (Kubrick, 1987), a rivalidade entre camaradas e a tragédia de Top Gun (Tony Scott, 1986), o triângulo amoroso na aviação de Pearl Harbor (Michael Bay, 2001), entre outros, Wings parece ter em 1927 percorrido todos esses corolários não só narrativos como técnicos. As impressionantes batalhas aéreas, os treinos de grupo, o som das metralhadoras e dos motores, tudo é criado imersivamente na mente do espectador enquanto observa este filme de guerra mudo. A dada altura, e antes da sua primeira batalha aérea, ou escaramuça, Jack e David conhecem o seu colega de tenda, o cadete White, já com alguma experiência de combate. Trata-se nada mais nada menos que de Gary Cooper, num papel curto numa fase precoce da sua carreira, carismático o suficiente não só para por momentos o espectador pensar que a narrativa estava a introduzir um novo protagonista, como para lhe garantir ao actor um contrato de 7 anos com a Paramount. White tornou-se num céptico (quase niilista) devido à experiência de guerra. As mascotes como o ursinho de David são inúteis no que diz respeito ao destino dos pilotos: “When time comes, you’re going to get it”. Palavras derradeiras que traçariam o trágico destino de White numa missão no mesmo dia.

 

Richard Arlen, Buddy Rogers, e Gary Cooper

 

A segunda metade do filme apresenta-nos a dupla protagonista numa fase veterana da carreira na aviação, ambos tenentes, e a uma das mais icónicas cenas desta época do cinema americano: a festa em Paris onde Jack, embriagado na sua folga, procura divertir-se. Um poderoso travelling coloca a câmara suspensa no ar percorrendo interações em várias mesas da festa até terminar num grande plano do alcoolizado Jack que já nem consegue ver direito. Mary, entretanto motorista de ambulâncias na guerra, reconhece o seu amor de juventude na festa. O que se segue é um belíssimo exemplar do que se poderiam chamar efeitos especiais em pós-produção: a demanda de Jack pelas bolhinhas de champagne que saem um pouco de todo o lado, incluindo dos olhos da própria Mary, chorosa por o seu amado nem sequer a reconhecer.

O filme avançaria finalmente para uma das mais impressionantes cenas de Guerra já filmadas, aplicando os códigos da tragédia dramática em todo o seu esplendor. A acção frenética pelos ares onde Jack e David, em inferioridade numérica, enfrentam um esquadrão alemão, é alternada com a batalha em terra com um impressionante número de figurantes e direcção militar. Abatido pelos alemães, David sobrevive e consegue roubar um avião inimigo para tentar regressar ao lado dos aliados, mas a tragédia, com Jack ainda no ar, seria inevitável. A mensagem anti bélica passa com todo o seu peso. Vidas terminadas antes do tempo, ódios fomentados capazes de cegar nos momentos de maior decisão. Foi o que aconteceu com Jack ao encontrar no ar esse avião alemão indefeso, pilotado por David, que se recusava a disparar de volta. Já em terra, Jack pisa a cruz negra, símbolo alemão, para de seguida envolver David nos seus braços numa casa rural francesa à beira de milhares de sepulturas de combatentes com a cruz de cristo. A conclusão será retirada mais tarde pela mãe de David: a culpa não é tua. É da Guerra. Enquanto isso Mary espera por Jack, observando os dois uma estrela cadente cruzando os céus.

 

 

Wings viria a tornar-se um arrebatador sucesso de bilheteira, uma verdadeira epopeia de amizade, amor, acção, camaradagem, e, claro, guerra. Foi o primeiro grande sucesso de Wellman que viria a ter mais 3 décadas de carreira, finalizada com Lafayette Escadrille (1958), um dos primeiros papéis relevantes do jovem Clint Eastwood. Wings ficaria também imortalizado como o primeiro de sempre a receber a receber o prémio Óscar da Academia para melhor filme na primeira cerimónia da Academia das Artes e Ciências de Hollywood que teve lugar em 1929 no Hollywood Roosevelt Hotel, em Los Angeles. Pode ser agora visto na Cinemateca Portuguesa, na sua versão restaurada.

 

David Bernardino