O silêncio, a solidão, e a luz azul de um ecrã às três da manhã. Quem nunca?
We’re All Going to the World’s Fair é a primeira longa-metragem de Jane Schoenbrun, um nome que viria a tornar-se central na nova vaga de cinema queer e experimental. Lançado em Sundance em 2021, o filme (a personificação do low budget indie) vive algures entre o horror psicológico, o drama adolescente e o retrato digital de uma geração que cresceu online, sozinha.
A história gira em torno de Casey (Anna Cobb), uma adolescente que decide participar no misterioso “World’s Fair Challenge”, um desafio viral levemente inspirado no universo das creepypastas (contos de terror criados e partilhados na internet, que se assumem como fragmentos apócrifos da cultura digital). Mais do que jumpscares ou revelações, o filme interessa-se pelo espaço liminal onde a ansiedade e a identidade se dissolvem na linguagem da internet.
We’re All Going to the World’s Fair é ultra-minimalista. Quase tudo acontece no silêncio do quarto, no reflexo dos ecrãs, nas pausas estranhas de chamadas de vídeo com desconhecidos. Aqui, rejeita-se o convencional em favor da sugestão, do vazio, da experiência sensorial do medo. A acção é quase inexistente, e a narrativa recusa-se a guiar o espectador. O desconforto vem menos do que acontece e mais da sensação persistente de que algo poderia acontecer a qualquer momento. Vem também das interações de Casey com um homem misterioso cuja presença e motivações, apesar de pouco desenleadas, deixam arrepios na nuca. O resultado é uma tensão glacial, que nem sempre recompensa, todavia quase nunca desaparece.
Anna Cobb carrega o filme, não só porque é uma das únicas personagens com quem convivemos, mas também porque a habita com uma presença sem artifícios. A sua performance tem a crueza de alguém que não está a “interpretar” no sentido convencional. Limita-se a estar ali, a viver algo que não conseguimos nomear, e que, no entanto, reconhecemos.
Porém, nem tudo corre a favor da experiência. Para lá da sua originalidade e da força do gesto artístico, há a sensação recorrente de que o filme mantém o espectador à distância, não tanto por ser enigmático, mas por se refugiar, por vezes, numa abstração que não chega a germinar. A progressão narrativa dá lugar a um estado quase hipnagógico, onde o tempo se dilata, suspenso por uma tensão sem descarga. A opacidade emocional e narrativa (numa abordagem que é, diga-se, claramente intencional) pode gerar desilusão, um esgotamento da expectactiva.
Nesse sentido, tem afinidades com Skinamarink, outro projecto indie recente que polarizou espectadores ao explorar a linguagem do vazio como matéria de horror. Mas se Skinamarink evoca um pesadelo infantil sem rosto nem forma, Schoenbrun mostra, aqui, mais interesse em explorar o estado de dissociação adolescente. Uma identidade em processo, fluida, testada dentro dos limites porosos do ecrã.
Não é um filme que agradará a todos. É um tipo de experiência mais próxima da performance artística do que do cinema de género tradicional. Para alguns, será frustrante. Para outros, um peculiar pesadelo digital.
Independentemente da sua eficácia, o filme assinala o início de uma carreira que promete ser singular. Jane Schoenbrun, que recentemente realizou I Saw the TV Glow, mostra aqui uma sensibilidade rara para os cantos invisíveis da identidade, da internet e da angústia adolescente. Pode não ser um filme que prende no imediato, mas fica na cabeça. Como um vídeo estranho em que se tropeça no YouTube às duas da manhã e nunca mais se esquece, sem saber bem porquê.
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Filme disponível em filmtwist.pt – o primeiro serviço de streaming em Portugal dedicado ao cinema fantástico e de culto.





