Já perto do final da chamada telefónica, Kirsten Johnson questiona o autor desta entrevista se já pensou na forma como quer morrer. “Faço esta pergunta a todos os jornalistas que me entrevistam”, explica a cineasta, autora de um dos mais sui generis documentários de anos recentes – Dick Johnson is Dead, descrito pela própria como “um filme existencialista, é um filme sobre a vida e a morte”, um pitch pesado que esconde uma obra profundamente mordaz, carregada de humor e humanismo raros no cinema contemporâneo.
O filme, uma crónica sobre o pai da realizadora, Richard Johnson, reflete sobre questões de legado e memória enquanto explora a lenta progressão da sua demência ao longo de um período de vários anos. Pelo meio, a ação é pontuada por momentos extremos e inesperados nos quais a realizadora encena vários “acidentes” que poderiam em tese pôr fim à vida do pai. Um humor que só não é negro porque os Johnson, Kirsten e Richard, fazem questão de encarar a nuvem negra da doença com um sorriso e poder de encaixe notáveis, em si mesmos uma atitude de resistência e de inspiração.

A conversa com a Tribuna do Cinema surge por ocasião do Indielisboa, festival onde Kirsten Johnson marcou presença como convidada de honra da retrospectiva que o festival dedicou ao mockumentary, e onde o seu filme foi inserido. Curiosamente, a etimologia da palavra “mock” (inglês para gozar, fazer pouco) é algo que a realizadora rejeita para a sua obra. “Nunca diria que estamos a gozar com o meu pai. Só tenho amor e respeito por ele e por toda a gente que passa por situações de demência”, diz.
É sobretudo um desempoeirado exercício de reflexão sobre a grande certeza da existência – o seu inevitável fim –, o assunto vital que nos consome em silêncio e que Dick Johnson is Dead encara de frente. Um fascínio que, mesmo após o fim do projeto e a sua aclamação em anos subsequentes (o site Indiewire incluiu-o recentemente numa lista dos melhores filmes da década), continua a alimentar Kirsten Johnson, que admite inclusive poder levar uma câmara para captar o fim da vida do pai (“ainda não sei se filmaria o momento”, diz). E quanto à pergunta de abertura, sobre se este autor já imaginou a própria morte? Confesso que sim, mas sem grandes certezas quanto ao seu aspeto; talvez filmes como Dick Johnson is Dead possam ajudar-nos a imaginá-la.
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Passaram seis anos desde a estreia de Dick Johnson is Dead. A esta distância, como é que olha para a experiência do filme e para a receção que tem tido ao longo dos anos?
Sempre que o vejo, não acredito na sorte que tive em poder fazê-lo. O meu pai ainda está vivo mas já não fala, a doença progrediu e limitou-o. Por isso, sempre que revejo o filme é como voltar atrás no tempo, consigo vê-lo num sítio diferente daquele onde está e lembrar-me dele de outra maneira.
Ele chegou a conseguir ver o filme? O que é que achou?
Ele viu-o muitas vezes, ajudou-me a acabá-lo na montagem e foi a muitas estreias. A certa altura, já não tinha bem a noção das coisas, então quando as pessoas nos eventos vinham abraçá-lo depois de verem o filme, ele virava-se para mim e dizia “não sei o que é que se está a passar, mas gosto!” (risos).
Como é que teve a ideia de explorar a demência do seu pai desta forma, com as várias mortes “idealizadas”?
Tive um sonho onde estava num funeral e vi um homem – não era o meu pai – num caixão aberto, e a certa altura ele dizia “Sou o Dick Johnson e não estou morto!”. Isso deu-me de imediato a ideia de filmar o funeral do meu pai enquanto ele ainda estava vivo. Depois quis também que fosse uma homenagem, o meu pai era uma pessoa muito engraçada, adorava rir-se, e inspirei-me muito em coisas como Harold e Maude, Jackass, Monty Python…

Tendo visto o filme na preparação para esta entrevista, devo dizer que realmente o humor, seu e do seu pai, é muito marcante, mesmo sendo uma situação trágica e que nos põe a chorar por vezes, a forma como ambos se riem para fazer face a esta tragédia, que não tem obviamente nada de engraçado, é memorável.
Fico feliz por saber que teve essa resposta emocional. O meu pai costumava dizer que “quando os olhos estão secos, os órgãos choram”. Por isso chorar é bom.
Tenho curiosidade em perceber como é que navega a questão ética ao fazer um filme destes? A proximidade ao sujeito torna as coisas mais fáceis ou mais difíceis, onde é que fica a linha?
Estas linhas são reais para todos nós e estão sempre a mudar. Mesmo quando são as pessoas que conhecemos melhor, temos de as repensar a cada momento. A minha sensação era a de que tinha uma relação muito profunda e de muito amor com o meu pai. Ao mesmo tempo, a fasquia estava muito elevada para ambos, era de algum modo o legado da vida dele que estava em jogo, e também a sua segurança e conforto. Tive sempre de ter cuidado, mas sabia que o meu pai ia adorar se fizesse um filme engraçado, e foi isso que tentei fazer.
O filme insere-se na programação deste Indielisboa na retrospectiva dedicada ao mockumentary – não deixa de ser curioso, porque apesar de ter algumas sequências encenadas, não seria assim que pessoalmente descreveria o seu filme. A Kirsten entende-o como um mockumentary? Onde está a fronteira que separa os géneros?
Adoro que tenha usado a palavra “fronteira”. Se olharmos para a definição da palavra, mesmo em termos históricos, “fronteira” denomina a separação entre dois territórios, é uma coisa muito fluida e que está sempre a mudar. Gosto sempre de pensar no significado das palavras que usamos para descrever as coisas. De certo modo estamos a fazer pouco da morte, sim, mas nunca diria que estamos a gozar com o meu pai. Só tenho amor e respeito por ele e por toda a gente que passa por situações de demência, pelo que gozar com isso nunca foi o objetivo.
Acho que a palavra “gozar” está ligada a fazer pouco de quem se leva demasiado a sério, ou a estruturas de poder que não se interrogam ou refletem sobre si mesmas. No caso do meu pai ele era uma pessoa muito autodepreciativa e que tinha muita consciência dele próprio. De volta à palavra “fronteira”, qual é a fronteira entre a vida e a morte, entre aquilo que vemos e aquilo que imaginamos… tudo isso interessa-me. Não faço ideia de quando é que a morte do meu pai vai acontecer, ou de como é que me vou sentir na altura. Poderei estar lá quando ele morrer; poderei até ter uma câmara comigo, ainda não sei se filmaria o momento. Por isso essas fronteiras estão em todo o lado.
É também uma questão da perspetiva e expectativas do público? Penso por exemplo na sequência final, no funeral, a manipulação do que vemos e não vemos…
Na altura em que a filmámos tivemos a sensação de enganar a morte (risos). Não tenho de todo interesse em manipular as pessoas. A ideia tinha a ver com pensarmos sobre como traduzir o quão confuso e complexo é ser-se humano. O público é brilhante, são outros seres humanos como eu, que vivenciaram todo o tipo de dificuldades e alegrias da vida…
O processo do filme foi sobretudo o de criar um espaço onde podemos brincar. Voltando à questão sobre as mortes encenadas, ao início até queria que fosse uma parte mais importante do filme. O stunt com o ar condicionado foi dos primeiros em que pensámos, e achávamos que era o nosso grande momento, nos primeiros cortes do filme era até assim que acabava. Mas assim que começámos a fazer os stunts de treino, percebemos que o meu pai era demasiado frágil, não ia conseguir fazer muitas daquelas coisas. E às tantas tive a ideia de pôr o ar condicionado logo no início, para sinalizar logo ao espectador que “uau, ok, este filme vai fazer coisas um bocadinho inesperadas”, e assim nem sequer tivemos de fazer muitos mais stunts. É esse o processo, no fundo, de fazer o filme mas também de ser-se humano.

Enquanto preparava esta entrevista, dei por mim a pensar sobre o cinema contemporâneo, e sobre aquilo que me parece uma tendência cada vez maior de esbater as tais linhas que separam a realidade da ficção: basta pensar em filmes recentes, como Peter Hujar’s Day ou o próprio filme de abertura deste festival, The Loneliest Man in Town… estas práticas (incorporar não-atores, partir da realidade na criação de ficção), não são necessariamente novas, mas acha que o cinema atual tem mais abertura para aceitar essa fluidez?
Sim, fluidez é mais uma vez uma ótima descrição. Todos sentimos que há qualquer coisa de diferente que se está a passar no cinema. Não é a vida real, sabemos que aquele que estamos a ver no ecrã não é o Peter Hujar, mas aquelas são as suas palavras. Tornamo-nos cientes da complexidade da vida e da complexidade das suas representações. Ao mesmo tempo também é verdade que nada disto é novo. Lembro-me por exemplo do filme do Chaplin, na sequência na corrida, onde ele quebra a quarta parede e olha diretamente para a câmara, eles estão num evento real… tudo isto sempre foi parte do cinema. Essas linhas de separação foram criadas depois, por sistemas de poder que querem compartimentar e separar as coisas, negar as ligações entre elas. Por isso sim, o cinema está sempre em evolução, e acho natural que se reconheça cada vez mais que está tudo ligado.
Ainda não falámos sobre a outra face desta reflexão, que são as redes sociais, e a cultura visual e de produção em massa de imagens na qual vivemos atualmente. Como é que a Kirsten encara esta questão, e o papel do documentário na era das redes sociais?
Diria que estamos num momento sem precedentes na história humana. É um momento que começou em 2007 com o lançamento do iPhone, tem 20 anos. Se olharmos para a história da experiência humana, a fotografia e o cinema têm no máximo 200 anos, mas a capacidade de cada pessoa produzir e partilhar imagens de si mesma criou uma situação que a humanidade nunca viveu. Estamos a falar da representação do corpo, sim, mas quando essa reprodução é feita torna-se imediatamente numa coisa separada do corpo real.
Agora, com a inteligência artificial, é possível criar imagens de pessoas a fazer qualquer coisa que nunca fizeram na realidade. Esta mudança é muito complexa, porque a partir do momento em que a imagem se separa do corpo real, podemos deixar de nos preocupar com esse corpo. E tudo isto está sob o controlo de sistemas de poder cujo objetivo é vigiar as pessoas. Tudo isto são coisas novas, e nós enquanto cineastas temos de nos confrontar com elas. As fronteiras estão a alterar-se: a nossa consciência, o que pensamos nas nossas próprias cabeças, tudo isto sempre foi privado, mas estamos a caminhar para um futuro em que bilionários se estão a esforçar por ligar computadores ao nosso cérebro, que será um futuro onde os seres humanos não vão ter privacidade nem sequer dentro das suas próprias cabeças.
Posto tudo isto, e uma vez que estamos a falar por ocasião do Indielisboa, como encara o papel do cinema e dos cineastas independentes neste contexto?
Para mim, Dick Johnson is Dead é um filme existencialista, é um filme sobre a vida e a morte. O verdadeiro cinema independente e os festivais são incrivelmente importantes hoje, porque enquanto humanos devemos pensar sobre como navegar este momento na história, devemos estar juntos para discutir estas questões, para ver filmes que nos inspirem e nos assustem, e fazê-lo em conjunto. E lugares como este são essenciais para garantir que isso acontece.



