Veneza 2026, um Leão de Ouro surpreendente e os filmes que mereciam mais

Lara Marques PereiraSetembro 16, 2026

O palmarés que saiu de Veneza 2026 parece estar em plena sintonia com as urgências e tensões do nosso tempo. É legitimo que assim seja, tornando cada vez mais evidente que o lugar do cinema é o de projetar e pensar o mundo. Ainda assim, a escolha do filme vencedor do Leão de Ouro (o único realizado por uma mulher), não deixa de causar alguma surpresa e levar-nos a questionar o que pesou mais na decisão, o mérito artístico ou a relevância da causa feminista?

 

O Leão de Ouro foi para a única realizadora a concurso — coincidência ou não, num ano em que o júri foi presidido por uma mulher. The Woman Unknown, filme da dinamarquesa May el-Toukhy, foi a grande surpresa da competição oficial em Veneza ao conquistar o Leão de Ouro e a Taça Volpi de melhor atriz, entregue a Mathilde Arcel. O filme ficará para a história pela rara acumulação de prémios, mas também pela suspeita de ter sido escolhido para cumprir objetivos de uma agenda feminista. The Woman Unknown faz uma reflexão sobre a apropriação do corpo feminino em tempo de guerra (no caso, na ressaca da Segunda Guerra Mundial) e a construção de uma moral duvidosa que parece funcionar de forma diferente para homens e mulheres. Maggie Gyllenhaal, realizadora e atriz que presidiu ao júri, pode ficar associada a uma certa vontade de premiar uma mulher e um filme que aborda a condição feminina. Mas convém sublinhar: a obra merece exposição e tem argumentos fortes para entrar no palmarés do festival, sobretudo pelo desempenho soberbo de Mathilde Arcel. Ainda assim, fica a pairar a dúvida se o Leão de Ouro é inteiramente merecido.

 

Gaza voltou a ficar na sombra do Leão de Ouro

Num ano em que os prémios parecem alinhados com o mundo e o tempo em que vivemos, faltou mais uma vez colocar os holofotes em Gaza. No ano passado, o filme A Voz de Hind Rajab, de Kaouther Ben Hania, abalou Veneza com estrondo suficiente para ser o vencedor do festival, mas acabaria por receber apenas o Grande Prémio do Júri, sendo ultrapassado por Pai Mãe Irmã Irmão, de Jim Jarmusch, que levou o Leão de Ouro. Este ano, uma situação semelhante voltou a acontecer com o documentário Naza, de Yuval Abraham e Rachel Szor, anunciado à última hora para integrar a competição oficial e que trouxe uma nova denúncia sobre as atrocidades cometidas em Gaza pelas autoridades israelitas. Naza junta relatos de 24 militares israelitas, não identificados, que denunciam a operação conduzida por Israel contra civis — chamados de “Naza”, acrónimo usado para designar danos colaterais. Filmado à noite, nos telhados da cidade de Telavive, o documentário é um trabalho jornalístico transformado em cinema. O mesmo já sucedera com Sem Chão, também sobre a destruição orquestrada por Israel na Cisjordânia, que juntou quatro autores (entre os quais a dupla Abraham/Szor) e que venceu o Óscar de melhor documentário em 2025. Naza parecia ter força para chegar ao prémio máximo do festival, mas não foi além do Prémio Especial do Júri.

 

Dau, propaganda? Não, dissidência.

Dau é talvez o objeto mais estranho e belo de Veneza, arriscaria dizer de toda a produção cinematográfica do ano. É um filme feito de movimento, inquietude e desassossego. O projeto de Ilya Krzhanovsky começou há 20 anos, reuniu números de produção monumentais e foi sendo parcialmente revelado até chegar ao festival e deixar um rasto de espanto. No ecrã, vemos o resultado de mais de três anos de rodagem e de 700 horas filmadas, condensadas numa versão final com mais de três horas de duração. Centenas de figurantes, detalhes rigorosos de época, o contexto social, a dimensão política e os contornos em que se desenvolveu um regime de matriz totalitária são alguns dos trunfos do realizador para transformar Dau num belo acontecimento. O filme conta a história do físico Lev Landau (Nobel da Física em 1962), chamado pelos mais próximos de “Dau”, num arco temporal que começa em 1928 e se estende até aos anos 60. Ao longo desse período, Landau recusou sucessivamente participar nos esforços de desenvolvimento da bomba atómica da antiga União Soviética, sendo por isso vigiado, torturado e forçado a colaborar. Ainda antes de o filme ser exibido, a curiosidade já estava instalada devido à dimensão do projeto e ao protesto formal do governo ucraniano, que considerou a obra como propaganda russa. O equívoco de Kiev desfez-se: Dau é, na sua génese, uma obra que expõe a violência de um regime de mão pesada contra os que o desafiam. O filme venceu o Leão de Prata de melhor realização e Ilya Krzhanovsky — que renunciou à cidadania russa em protesto contra a guerra — dedicou o prémio ao povo ucraniano. No rescaldo do festival, fica a sensação de que o prémio de realização sabe a pouco para a grandeza do filme.