A 83.ª edição da Mostra de Veneza abriu com Ink, de Danny Boyle, que apresenta pela primeira vez um filme no festival. Com a estética pop e electrizante que lhe é habitual, o realizador revisita a transformação do jornal The Sun pelas mãos de Rupert Murdoch e do editor Larry Lamb. A presença britânica nestes primeiros dias contou também com o regresso de Martin McDonagh, com Wild Horse Nine e um elenco de peso. Humor e História cruzam-se em duas propostas na corrida ao Leão de Ouro. As críticas são de Lara Marques Pereira.
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Wild Horse Nine de Martin McDonagh
Filme a filme, o cineasta britânico Martin McDonagh tem vindo a consolidar um lugar na (cada vez mais) restrita galeria de autores capazes de aliar uma história divertida a um texto inteligente e eficaz. Uma combinação que se torna muito apetecível para qualquer ator. Foi assim em Três Cartazes à Beira da Estrada e Os Espíritos de Inisherin, os dois filmes anteriores, que recolheram prémios em Veneza antes de chegarem aos Óscares. McDonagh não está sozinho nesta condição de realizador capaz de juntar nomes importantes em torno de um projeto. Woody Allen ou Wes Anderson fazem parte da mesma galeria, e em vários momentos têm reunido elencos de luxo e com eles têm tido a capacidade de manter vivo o género da comédia impregnado de outras referências e inspirações. Mas há muito menos neurose e terapia no cinema de Martin McDonagh e há muito mais mundo a passar pelas histórias que quer contar. Exemplo disso é Wild Horse Nine, que está na corrida ao Leão de Ouro e que se passa no Chile em 1973, em concreto na Ilha da Páscoa, onde o filme foi rodado e para onde vão dois agentes da CIA, que têm a missão de acabar de vez com a democracia do Chile. A frase é dita pela personagem de John Malkovich, um homem que destila sarcasmo e ironia, enquanto tenta lidar com um cancro em fase terminal. A acompanhá-lo está Sam Rockwell, o outro agente e que é também o único amigo de Malkovich. Martin McDonagh volta a colocar todas as fichas num argumento bem escrito, desenvolto e a apostar nos seus atores, e mais uma vez parece ter acertado em cheio. A dupla John Malkovich/Sam Rockwell funciona em pleno e pode ter aspirações a entrar na corrida aos prémios da temporada. Wild Horse Nine não se resume a cumprir as reviravoltas de argumento próprias das histórias de espiões, mas propõe ainda um olhar político, sempre humorístico, sobre a agenda norte-americana em várias partes do mundo, ao longo da história.
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Ink de Danny Boyle
Ink é o filme que marca a estreia de Danny Boyle no Festival de Veneza, com honras de abertura da competição oficial, e que parece uma escolha acertada, capaz de dividir opiniões, o que pode ser prolífico para um festival de cinema. Ink consegue ser vibrante e provocador, mas não escapa às críticas de ser moralmente pouco comprometido com a história que pretende abordar. Trata-se de uma adaptação de uma peça de James Graham sobre o momento em que o milionário australiano Rupert Murdoch decide comprar o jornal britânico The Sun, transformando-o de jornal à beira da falência em publicação mais vendida em todo o mundo. O filme, com Jack O’Connell, Guy Pearce e Claire Foy, conta a história do empresário, do jornal, do editor chamado para o dirigir e de como o jornalismo se tornou sensacionalista e altamente rentável. É uma história que começou em 1969, mas que perdura até aos nossos dias, com a proliferação de meios de comunicação que privilegiam as notícias de choque, crime e sangue e com a informação a ser facilmente confundida com conteúdos partilhados nas redes sociais, fabricados para os cliques em detrimento do rigor, esclarecimento e debate. Danny Boyle retoma a estética que o identifica em filmes como Trainspotting ou Quem Quer Ser Milionário e que o torna num cronista do seu tempo, capaz de conjugar o lado mais pop do cinema com um pensamento crítico sobre o estado do mundo. Ink conta uma história verídica que já conhecemos, com acrescentos, ajustes e liberdades criativas, mas que no essencial nos oferece de mão beijada a possibilidade de sermos nós a tirar algumas conclusões sobre a forma como uma certa comunicação social pode ou não contribuir para a radicalização de um determinado tipo de discurso. O filme ainda vai seguramente fazer correr muita tinta, entre os que veem com alguma satisfação o regresso do tom cáustico do cinema de Boyle e os que lamentam que não tenha ido mais longe.
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