Um Filme Falado (2003) de Manoel de Oliveira – Portugal depois do Ideal e da Paixão

Eduardo MagalhãesJunho 11, 2026

Por uns instantes, mãe e filha saem do carro para ver o Castelo do Ovo em Nápoles. Do lado oposto à sua saída estão espelhados pelos vidros do táxi as imagens das casas da rua, apenas deixando por completar o quadrado da janela do lado de lá por onde vemos mãe e filha. Para acompanharmos a conversa, o corte é ditado pelo momento da palavra. É descrito o mito que dá nome ao castelo, interceptado posteriormente pelas naturais questões infantis. A mãe é o primeiro intérprete, traduz as charadas com que o mundo se pinta, torna macias as dissonâncias que pautam o relevo. Reserva-se o lugar de navegador à criança, ciente dos pontos cardeais, básico da linguagem, mas que pela ignorância da subsequente complexidade a torna munida de outro fôlego para a viagem.

São sistemáticas as suas interrogações sobre quem é o quê, uma sua desconstrução das lendas e história da Antiguidade Clássica ganha lugar, fazendo da cronologia o contrário de uma lengalenga de fácil memorização. Não interessa saber se começaram os cristãos ou os muçulmanos, a tudo o tempo trata de engolir. Logo, manifesta-se um sorriso redentor com a confusão dos fios emaranhados do tempo seja na catedral de Istambul, seja no anfiteatro ateniense.

Tornando à imagem que abre a cena, descansa nela o recorte da desconstrução. Primeiro o edifício, depois o veículo, e ao longe o mar onde se dá o diálogo sobre o mito. Ilusória, a imagem espelhada das casas justapõe-se pela janela com o aproximar de mãe e filha do mar. A viagem que permeia a primeira metade do filme é constituída por visitas às edificações das civilizações da bacia do Mediterrâneo. A cada entrada corresponde uma descrição, uma discussão que vai beber à História e mitologia. As ruínas de Roma, Egito ou Atenas permanecem, já os rituais lá praticados eclipsaram-se. Sobraram os mitos, precisamente o que sobrevive pela palavra. Por isso, a cortina que mãe e filha seguram dá verdadeiramente acesso a uma imagem que só no espelho ficou.

 

 

Esta visita terá então como “ovo” basilar a tradição oral, pedra da imortalidade que dá título ao filme. “Um Filme Falado” assenta no discurso. A viagem de paquete de Rosa Maria e sua filha Maria Joana até Bombaim para ir ao encontro do marido e pai é alicerçado num jogo de perguntas e visitas ao passado milenar. Mais, tem até um paralelo interessante com “Os Lusíadas” e não apenas por nova viagem à Índia. Há necessidade de invocar a História no contexto da viagem gerando assim dois planos: a evocação por um lado, e o périplo propriamente dito do outro. Ressalvando, claro (pensamos nós), que Rosa e Joana não incorrem nos mesmos perigos que a tripulação do Gama.

Tal como Camões, Oliveira vai buscar uma bateria de referências culturais. Também tem a necessidade da estrutura em episódio, nomeadamente para apresentar e contestar a matriz do tema em questão. Veja-se o encontro com o sacerdote ortodoxo na Grécia, em que ganham destaque as diferentes representações da Trindade e o themeli, altar do sacrifício pagão, no anfiteatro ateniense. Os pequenos detalhes e os símbolos não nos distraem do plano geral, complementam e revigoram esse embate entre identidades e representações culturais. Tudo sob a máscara de um simples didatismo. Tal como a longa narração da História de Portugal por Vasco da Gama ao Rei de Melinde que nos acicata pela forma, seja através de os mitos da fundação, do estilo nas fantasias que introduzem fantasmas românticos (Egas Moniz, Inês de Castro), ou as canções sofridas do Velho do Restelo e do Adamastor. Logo, se Camões fala por via do Gama não é para “ensinar” ao Rei do Melinde as Sesmarias ou Alcáçovas, antes um exercício consciente de uma representação da História pela técnica da poesia.

Nos diálogos de Rosa e Joana a natural tendência infantil para o entendimento universalista das coisas não ganha acolhimento tácito pela mãe:

– Que é uma mesquita?
– É como uma igreja, mas onde os muçulmanos fazem as suas orações. Ao alto do minarete sobe o muezim.
– Muezim é uma espécie de chamador, alguém que sobe ao alto do minarete para chamar os fiéis para as orações.
– Para rezar como nós?
– Sim, mas eles rezam à sua maneira.

Diálogo interrompido, ouve-se um guia. O nome de St. Sofia (catedral de Istambul) não tem nada que ver com Santa. A palavra vem do grego sophos que quer dizer sabedoria. St. Sofia significa sabedoria divina, a sabedoria de Deus.

 

 

A transparência nos detalhes da linguagem rejeitando o patamar dessa universalidade. A personagem da mãe tem sempre um pé atrás nas comparações feitas pela filha. Paralelamente, os contornos, as semelhanças, os padrões, a arquitetura, os títulos, tudo aponta para uma continuidade do mundo pagão nas esferas cristã e muçulmana. Da sabedoria à sabedoria divina há um jogo perigoso na atribuição de códigos. Já as ruínas convivem harmoniosamente com o sepulcro dos novos templos. Só no silêncio resta a chave que a linguagem não alcança.

Oliveira percebe que a linguagem pode desaguar na frágil e muito sensível paixão humana. Um passo em falso e lá surge a guerra, o bloqueio, a matança. Este esticar arriscado da linguagem é mais bem ilustrado pela imagem do cão num cais em Marselha a segurar o bote. Em progressivos vaivéns, o cão aproxima-se da beira. Faz finca-pé receoso de cair na água. O balanço da água torna o jogo periclitante, a próxima leva pode muito bem fazê-lo cair e, com isso, morosamente, levar o barco consigo.

Passemos para outro exemplo do ardil construído pela linguagem, com a conversa na mesa do capitão da embarcação onde as duas protagonistas viajam, que poderíamos corresponder ao Consílio dos Deuses camoniano. O capitão é norte-americano e como convidados tem uma grega, uma italiana e uma francesa. Cada um fala o seu idioma e todos se entendem. Olímpico, não? Os galanteios do capitão granjeiam um plano aproximado da francesa. Vestida de negro, a grega bem lamenta o reduto da sua língua que não gorou sair da Grécia e que, no entanto, se move nas raízes e construções de outras de implantação global. Já a italiana receia ser refém de uma paixão de outrora apenas na sua memória.

 

 

Intercalando discussões sobre impérios defuntos com confidências sentimentais assiste-se a variações no campo contracampo: as 3 de frente e o capitão de costas e vice-versa, os planos aproximados de cada conviva. Onde jaz o domínio do privado e da paixão neste novo embate? Nesta metamorfose da identidade em representação. Será a França traduzível na pátria tricolor da Revolução, pertencerá exclusivamente à Grécia esse património da Democracia? Até que ponto reduzimos estas matérias a um picotar de equivalências, de contornar a cores fluorescentes as simplificações ultrapassando por baixo as criações da mitologia. Atente-se como vemos o Partenon rodeada por pequenos pontos luz, aconchegada na diáspora burguesa, por edifícios igualmente grandes e funcionais, em que a metafísica perdeu o lugar à mesa para a sociologia.

 

 

Não serão as recriações dos impérios grego, romano, otomano e cristão dispostas sobre a mesa também pertences de uma nova mitologia, na qual os homens perderam o lastro divino uma vez que os seus deuses já não são tão humanos? Apenas para destrunfar quando a mão de cartas é fraca. Então e o azul? O azul que continua a ser a cor da verdade, tal como o foi para os antigos egípcios segundo nos conta o actor (mais uma vez a figura do intérprete na viagem) que acompanha Rosa e Joana nesta etapa. “Como o azul do céu” respondem, novamente para uma imagem que já só vemos pelo espelho.

 

 

Cada um dos que está à mesa destaca-se na sua área. Cada qual confortável gizado neste entretenimento de uma elite bem-pensante, num falatório nimbado de desdém pelo contemporâneo – as tacadas à União Europeia, ao que julgam ser o lado imperial nouveau riche dos Estados Unidos, ao deserto cultural que cerceia as vontades – bem como ciente da furiosa chama acendida por uma traição ou amor tremendo. Toda esta eloquência é artifício, deslumbrante e simultaneamente autocomiserativa, a grega pitonisa que todas as civilizações acabam por ter o seu fim, só o tempo, pela memória, confirma o real valor das mesmas. Logo, se cada um é esteio ou pelo menos sobrevivente ilustre de uma casa decadente, de que vale a celebração do passado? Argumentar-se-á que com a humildade do derrotado, mas nem isso conseguem fingir.

 

O Lugar do Português

 

Convidadas para se juntar à mesa do capitão, Rosa e Joana terão de falar em inglês uma vez que o português não é um dos idiomas que a ilustre mesa fala. Se até aqui o filme versava sobre os grandes impérios da Antiguidade, esta particularidade traz à tona o tema do império português até então diluído nos primeiros minutos do filme nos quais as protagonistas se despediam de uma Lisboa nublada, do Padrão dos Descobrimentos e da Torre de Belém. A grega destaca a presença intercontinental da língua portuguesa até que a italiana gaba a maternidade de Rosa, interrompendo nova diatribe sobre o status imperial. Com este elogio cessam as recordações.

O final tremendo e violento do filme é a queda para a Idade Contemporânea. Subitamente, já não há espaço para nenhum passado nem futuro, Rosa e Joana desaparecem. Os restantes prosseguem a viagem possível, já as portuguesas ficaram esquecidas. Com elas partem todas as palavras que seguimos, das interrogações sobre as pirâmides à mãe conceder à filha que todas as civilizações são feitas de contradições – Moisés o príncipe hebreu no jardim do Faraó.

E talvez o português por ter chegado tão tarde à História, e por se ter atrevido a ser e ir a tudo tenha agora de sair. Enquanto Egito, Roma, Atenas ou Constantinopla caíram e regressaram com outras denominações, um título e uma língua Nova face aos respetivos Antigos, aos portugueses permitiu-se uma estranha encenação de morte em 1580 continuando a ser, porém, Portugal. Esta saída não implica um fim, antes, quem sabe, um patamar para Avalon, o abraço final ao mito uma vez que dele se gerou. Não mais as duas cabeças da identidade e da representação, Rosa e Joana desaparecem sem palavras, sem gestos, sem nada, daí a potência do filme. Ultrapassámos a Linguagem.

É curioso como “Um Filme Falado” veste a capa de um poema de Antero. O lugar da contemplação transcendido por uma outra luz.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depois do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

 

Eduardo Magalhães