O segundo filme da terceira parte do ciclo “O Poder e a Glória” salta para o século XXI. Passaram quase 40 anos desde Hospital (1970), e com eles, vários filmes de Frederick Wiseman. Chegado aqui, o cineasta expandiu o seu estilo, filmou instituições menos evidentes (a posteriori, tornam-se claras), descobriu a fotografia a cor e estendeu a duração das suas obras – algumas extremas, com seis horas. Daí em diante, o ciclo apenas exibirá filmes de Wiseman deste século, uma fase diferente do documentarista-montador. Estamos na ressaca do 11 de Setembro, e uma crise financeira abalará o mundo ocidental. Filmado (ainda) em 16mm, e não em digital, State Legislature poderia indiciar algumas destas tensões – a primeira obra de Wiseman que aborda, diretamente, o “cérebro” das instituições previamente documentadas: o poder político, ou, na verdade, os políticos (embora numa escala menor, um estado americano pequeno, o Idaho). Porém, Wiseman, como sempre, escolhe um caminho difuso. Depois de 160 horas de brutos (um recorde, certamente), sobraram 3h40m de um filme que voa, uma das obras mais bem “humoradas” de Wiseman – não sendo certamente uma comédia, faz rir.
“A América é um lugar estranho” é uma reação comum de qualquer europeu depois de longas horas numa assembleia estadual norte-americana. Provavelmente, essa é uma das razões porque Wiseman é mais apreciado na Europa do que no seu próprio país: o distanciamento alcançado na proximidade do quotidiano americano, causando espanto a quem não o habita, mas julga conhecer.

A abordagem é inteligente: em vez de filmar grandes discussões ideológicas, romantizadas – ou as imensas possibilidades dos valores e ideais expressos pela palavra -, um político, para Wiseman, é outra coisa: alguém que lida com os problemas práticos do dia-a-dia. Por isso, as (longas) cenas, captadas em planos igualmente duradouros e fechados, passam-se sobretudo nas comissões legislativas, em salas brancas, púlpitos improvisados, ecos de visitantes ou jornalistas, secretárias rodeadas de papelada, fatos, óculos e barbas, com rostos-vozes que discutem assuntos excessivamente concretos: como lidar com a doença das vacas loucas? Como enquadrar legalmente a pena de filmagem indevida sem consentimento? Deve um empreiteiro ser uma profissão licenciada? Na nova estátua dos pais fundadores, que versão dos Dez Mandamentos (judaica ou cristã) deve ser representada? E se não fossem os dez mandamentos, que livros poderiam ocupar a estátua? Poderá um imigrante ilegal ter uma carta de condução? (mostrando que já no início do século a imigração era uma questão central na América, nomeadamente do interior), entre muitas outras, igualmente específicas. Alguém – o Político – terá de confrontar questões através de ritos de natureza kafkiana.
Há uma estranheza absoluta no tempo e na exatidão dedicadas a cada uma das políticas, seja em sessões de esclarecimento, comissões, sessões plenárias, reuniões internas, ou sessões de lobby assumidas (sobre um robot autonomizado, um senador pergunta “Já mostraram ao exército?”). Por vezes, o próprio assunto da discussão demora a perceber-se: numa sequência, os senadores discutem sobre se devem levar ao eleitorado uma determinada questão a referendo, ou deixá-la à consideração de um tribunal. Após vinte minutos de intervenções sobre o procedimento legislativo acertado, o motor da sessão revela-se: a legalização do casamento homosexual. Os senadores intervêm emocionalmente – nomeadamente a presidente da comissão, claramente contra – sem nunca justificarem a sua posição concreta sobre o casamento, mas sim como deve a legislatura discuti-la. Ironicamente, a política torna-se um lugar onde ideias estão em segundo plano. Num projeto – A América – profundamente idealista, o processo mesquinho ultrapassou a substância convicta.

Os senadores estão conscientes da sua missão. Numa visita de estudo, orgulham-se de serem políticos em part-time, ao contrário dos congéneres da Califórnia “com salários de duzentos mil dólares e uma equipa de assessores”. O trabalho dos senadores surge da mecanização da gestão das disputas dos idahoanos, um serviço público à custa da discussão de matérias profundamente maçadoras que os eleitores rejeitam fazer. A principal ironia é o contraste entre diálogos e o espaço onde ocorrem – um Senado americano, edifício neoclássico que evoca uma moral idealista do mundo. O génio de Wiseman é não ser condescendente ou crítico das ações dos senadores, nunca deixando de seleccionar algumas ações bizarras de determinadas situações, como orações em pleno plenário, coros de crianças ou sessões abertas ao som de gaitas de foles. Se esta é a Política que queremos é uma dúvida deixada ao espectador, mas é sem dúvida a política possível dentro das instituições criadas e preservadas ao longo de 60 anos de documentários de Wiseman, que sempre soube mais que nós.



