Um Adeus a Frederick Wiseman, Vol. III – High School (1968)

Hugo DinisAbril 13, 2026

Falar de Frederick Wiseman é falar inevitavelmente de montagem. Do ponto de vista artístico, o trabalho do documentarista parte de uma construção de uma nova realidade, análoga à nossa, mas inseparável dela. O próprio Wiseman é, de resto, o primeiro a reconhecê-lo. O seu cinema é, nas suas palavras, “o inverso de um filme de ficção”. A criação de um novo mundo com base num argumento concorre com a ideia de Wiseman de que o documentarista deverá ser, em primeiro lugar, alguém que compila, assimila e organiza a narrativa que a realidade lhe oferece. Dito de outra forma pelo crítico Raymond Carney, em relação ao documentário em formato verité de Wiseman e seus antecessores, “its verité is necessarily and inevitably arranged by its cinema”.

O que é o objecto do cinema de Wiseman, então, nesta organização da realidade? “My work as editor, like that of the writer of a fiction film, is to try to figure out what is going on in the sequence I am watching on the editing machine”, diz. A rodagem dos seus documentários variava, à data de High School (1968), o seu segundo registo após a supressão de Titicut Follies (1967), entre cerca de quatro a oito semanas, mas a sua edição decorreria num período de tempo que invariavelmente atingia os doze meses. High School foi filmado em cinco semanas, entre Março e Abril de 1968 na escola secundária Northeast na Pensilvânia, nos subúrbios de Filadélfia. À data, a sua reputação enquanto instituição de ensino básico público era geralmente tida como positiva. A escola era sobretudo frequentada por alunos de classe média, com a maioria dos pais a provir de contextos relacionados com profissões liberais e de cultura protestante de trabalho.

 

 

High School é também, o último filme de Wiseman rodado antes do início da sua longa parceria de nove registos com William Brayne. No caso, o escolhido foi o director de fotografia canadiano Richard Leiterman. A partir daí, a comunicação entre Wiseman e o seu operador de câmara, seja Brayne ou John Davey, com quem filmou os seus restantes filmes após 1979, tem sempre um travo de coreográfico. Uma dança que Wiseman faz desenvolver entre si, o olhar da câmara, e a mão da sua edição “narrativa”. Aquilo que High School evoca do ponto de vista dessa visão interposta é a noção de uma galeria de imagens. Os planos e as sequências vão-se desenrolando ao ritmo de uma passagem por um museu, o posicionamento uniforme da câmara permite ao espectador colocar-se à margem das ocorrências, mas no interior da sua envolvência, e a montagem completa o recurso a uma linguagem quasi-literária dentro do contexto cinematográfico.

A operação de filmagem de Wiseman em High School, que implicava o uso de câmaras de 16mm, que em 1968 dificilmente passariam despercebidas, e de um técnico de som (sempre o próprio Wiseman), convida, na verdade, a designação de tudo menos o que associamos a Wiseman como “fly on the wall”. É certo que estas pessoas estavam ao corrente de serem filmadas, mas é impossível não ver High School com os olhos de agora e não pensar que tudo decorre na cara do espectador. Não somos convidados a habitar um mundo secreto ou entrar na privacidade destas pessoas, mas Wiseman empurra-nos para dentro dos processos internos e das peculiaridades de um corpo institucional.

 

 

À partida, High School tem o condão de ser o filme de Wiseman cujo objecto se assume como mais universal. Ainda que à data tal não se verificasse por completo, a experiência da escola secundária é algo que os espectadores terão em comum, por oposto ao funcionamento interno de uma prisão, de uma esquadra, ou de um hospital. Os professores discutem tópicos sociais du jour, os alunos discutem punições e castigos com os directores, e assistem a palestras desconfortáveis sobre abstinência sexual e integridade do hímen vaginal. Há, claro, uma componente humorística nesta procissão de juventude em ebulição. A adolescente que traz o pai, exasperado, a uma reunião com o “counsellor” vocacional para lhe dizer que quer ir à faculdade para estudar cosmética. “You know, it’s strange. I’ve always found that a man who uses the word sympathy is never sympathetic. Have you ever found that, Dr. Boodish?”, diz o pai ao docente perante os risos da mãe. Ou o estudante negro que avalia a escola como um “moral, social garbage can”, depois de elogiar a vanguarda científica do currículo (“A compliment! I’m going to faint”, responde a professora).

 

 

O encadeamento de estruturas em High School é aquilo que mais facilmente podemos convencionar como estando firmemente posicionado neste período inicial de Wiseman. A edição junta as aulas de espanhol e francês, ou as palestras de educação sexual, acompanhadas primeiro com vídeo e depois com a expressividade humorística de um ginecologista. De forma mais vincada, contudo, somos convidados a explorar o papel da educação no esforço de guerra no Vietname quando Wiseman nos confronta com uma discussão informal entre um professor e um aluno sobre os ex-pupilos que regressaram a casa com ferimentos graves, seguido da leitura de uma carta auto-depreciativa de um antigo aluno destacado para a guerra. Após a leitura, o comentário da directora: “Now when you get a letter like this, to me it means that we are very successful at Northeast High School. I think you will agree with me.

A conclusão fecha o filme de forma demasiado directa para o que viríamos a assistir mais tarde da parte de Wiseman, mas captura bem o registo irónico do exercício de High School. É essa mesma ironia que revemos na cena em que um professor aparenta patrulhar os corredores em busca de adolescentes tresmalhados, repetidamente perguntando por autorizações de saída a todos os que encontra. Não por acaso, viríamos esta cena re-encenada em Rushmore (1998), de Wes Anderson. “Most sequences in High School”, refere o crítico Barry Keith Grant, “emphasize depersonalization and ideological indoctrination.” É o que ouvimos na leitura radiante da carta do aluno que partiu rumo ao Vietname. É o que vemos na sequência inicial, acompanhada subtilmente por “(Sittin’ On) The Dock Of The Bay” de Otis Redding, em que as filas e filas de habitações nos levam ao edifício da escola. “It’s nice to be individualistic, but there are certain places to be individualistic”, diz um professor a uma aluna que pretende levar um vestido curto para o baile de formatura. A escola, a fábrica.

 

Hugo Dinis