Muito mais do que em Titicut Follies (1967), com Law and Order, Wiseman parece conseguir anular a presença da sua câmara, não no espaço, mas no próprio campo narrativo do filme. Um registo das rotinas diárias do Kansas City Police Department – terceira instituição abordada, após um centro de detenção psiquiátrico e a escola -, existe aqui um registo directo muito mais autónomo em relação à montagem final das imagens, e nisso um exercício mais alinhado com a obra posterior do realizador. Wiseman partira, aparentemente, com a intenção de filmar um retrato muito crítico das forças de ordem do país, e um grande plano de Nixon, que subsiste perto do final, parece ainda ecoar esse primeiro impulso. No entanto, acabaria por ser confrontado com uma realidade mais complexa do que aquela que esperara encontrar. Law and Order trata-se, de facto, de um filme que evita servir um discurso do seu autor, abordando o seu objecto com a profundidade e atenção e, sobretudo, a distância que este exige (e que o cinema possibilita).
Numa masterclass de há largos anos, para o Doclisboa de 2008, que lhe dedicou uma retrospectiva integral, Wiseman mostraria aquela que é, em grande evidência, a sequência mais polémica do filme. Num quarto de hotel, ou flophouse, uma prostituta recebe, durante a noite, a visita da polícia por causa de uma circunstância que não nos é totalmente clara. A mulher esconde-se num arrumo e, enquanto resiste à sua detenção, é violentamente estrangulada por um inspector vestido à civil. Imagem brutal de uma violência extrema e explícita, num filme onde a violência parece, afinal, existir por todo o lado. Momentos depois, num quadro mais calmo, um outro agente explica à mulher que, para exercer “aquela profissão”, terá de se habituar à presença recorrente da polícia. O mesmo inspector vasculha-lhe o quarto e, apesar de tudo parecer em ordem, a mulher acaba por ser levada para a esquadra, onde a veremos, mais tarde, à espera, numa outra cena que já não protagoniza.

Wiseman defenderia, algo caricatamente (para aquele seu público), com este excerto, a “grandeza” dos Estados Unidos. Um país que lhe permitira, afinal (e “apesar de tudo”, apetece acrescentar), filmar e mostrar, expor, um evento daquela violência e, afinal, tão problemático. Na assistência, um espectador indignado levantar-se-ia rapidamente, respondendo que os Estados Unidos não eram um grande país pela existência deste filme, mas antes um país criminoso por permitir que um tal abuso ocorresse. É uma posição justa, é certo, mas torna-se talvez necessário abordar as palavras de Wiseman de outro ponto de vista, um que nos permita uma consciência mais abrangente do seu próprio trabalho.
De facto, em Law and Order, o corpo policial do Kansas é seguido nas mais variadas actividades. Do mais prosaico ao mais violento (sendo a violência doméstica um tema recorrente no filme), subsiste uma forte tensão racial e uma evidente disparidade social em praticamente todas as intervenções que nos são mostradas. Neste que é um dos filmes mais curtos de Wiseman, destaca-se a capacidade precisa do realizador em nos fazer seguir um atenuado fio condutor pelo interior de uma entidade plural, de múltiplas faces e complexa, através de um registo puramente documental. Uma narrativa que se constrói como um mosaico, por rimas e repetições entre sequências (temporal e espacialmente) distintas. Entre conversas sobre os salários de uma profissão que parece mais rentável “noutras cidades”, a rádio do carro relata-nos eventos de uma violência maior, que não veremos. O implícito assume uma importância central no cinema de Wiseman, em filmes que parecem recusar a simplificação narrativa que o cinema, tradicionalmente (ou inevitavelmente), exerce sobre as suas histórias. A fechar, um agente conduz, atenciosamente, uma criança negra perdida à esquadra, oferecendo-lhe um chocolate para a acalmar. Lembramo-nos então de como é multifacetado e intricado o espectro humano, e de como o são também, afinal, estas suas instituições sociais. O valor maior do cinema de Wiseman, é o de deixar respirar, pelas suas imagens, as diferentes camadas que compõem então um momento específico. Um cinema cuja dimensão política se revela na ausência de um discurso didático do autor sobre o seu objecto.




