Um Adeus a Frederick Wiseman, Vol. I – Hospital (1970)

Pedro Bastos OliveiraMarço 30, 2026

A forma correta de homenagear um dos mais relevantes documentaristas – Frederick Wiseman, falecido aos 96 anos no mês passado – é ver, rever e falar sobre a sua obra. Assim sendo, dado que a Gulbenkian voltou a programar ciclos de cinema regularmente, chega-nos “O Poder e a Glória”, com curadoria de Pedro Mexia. O programa (começou no fim de 25’, prolongando-se até Junho de 26’) oferece uma perspetiva sobre documentário em três partes: Figuras (Rosselini), Experimental (Rohmer), e Instituições (Wiseman). Devido a um conjunto excepcional de circunstâncias, a última parte do ciclo dedicada a Wiseman é exibida escassos meses após a sua morte, demonstrando que a filmografia do cineasta, que sempre suscitou interesse ao longo de sete décadas, supera a mera homenagem e está presente nos diálogos contemporâneos. Wiseman foi presença assídua em festivais, universidades, cinematecas e cineclubes, pela pertinência, consistência e frequência da sua obra, vasta, – em média, desde o final dos anos 60 (não por acaso, a época de viragem política e social dos Estados Unidos), realizou quase um documentário por ano. Desta maneira, a Tribuna acompanhará estas sessões dedicadas ao realizador de Boston. Começamos por Hospital (1970).

 

 

No passado domingo 22 de Março, dia feliz e soalheiro, uma sala escura reuniu-se no Estúdio do CAM – Centro de Arte Moderna para ver um filme exigente. De facto, Wiseman é sinónimo de Modernidade, tanto pelos assuntos que trata – as instituições americanas, que a geração Woodstock tentou eliminar (até serem vencidos pela eleição Nixon) – como pela forma como os retrata (já lá vamos). Se não podemos mudar o estado das coisas, mais vale abordá-las, desconstruí-las. Essa é a proposta de Hospital: demonstrar aos espectadores, tão conhecedores deste conceito-lugar, aquilo que, como seus agentes e participantes, nunca foram capazes de ver. 

O público da sessão é composto por todas as faixas etárias. Talvez o recente ressurgimento da série televisiva neo-tradicional de médico, The Pitt, tenha feito renascer o interesse pelo funcionamento hospitalar. Ou talvez, não. A morte de Wiseman pode ter gerado curiosidade pelo mito em que se tornou o realizador americano. Antes desse status alcançado, Hospital faz parte da fase inicial da carreira do documentarista, que se prolongou, sensivelmente, até 1975, caracterizando por instituições evidentes,  bem conhecidas, espaços contidos e delimitados filmados a 16mm preto-em-branco (iguais às “atualidades da 2ª Guerra”, como diz o realizador) – Titicut Follies (1967, a Prisão), High School (1968, a Escola), Law and Order (1969, a Polícia), Basic Training (1971, o Exército), Essene (1972, a Igreja),  Juvenile Court (1973, o Tribunal) e Welfare (1975, Assistência Social).

Embora exista um estilo consistente na obra de Wiseman – ausência de voz-off ou de entrevistas, uma câmara observacional, sem intervenção, e uma montagem analítica e harmoniosa – Hospital é definitivamente um filme jovem numa filmografia que amadureceu com a experiência. O objetivo é explorar o hospital como um organismo vivo, mas mecanizado, que ignora o aspecto inescapável da instituição: a constituição de um espaço pré-mortuário, que substituiu os lares e as igrejas. O filme demonstra que o Hospital, enquanto conceito, não foi pensado para lidar com a morte, ignorando as suas implicações sociais e espirituais na comunidade e no indivíduo. Na verdade, os médicos são incentivados pelo sistema (percebemos tal aspecto pela repetição de cenas) não a cuidar, mas a “resolver” – sem a humanidade necessária que trate a situação extrema de alguns pacientes, num hospital público para classes mais desfavorecidas. Neste habitat, exceptuando os casos de vida ou morte, o objetivo é o regresso às ruas, ao trabalho, e o reencaminhamento para os serviços sociais. O Medicare, um subsistema de saúde recém-criado por Lyndon Johnson, manifesta uma Grande Sociedade que coloca pensos rápidos nos seus cidadãos, para que estes possam emancipar-se – trabalhando

O ponto de Wiseman não é culpar os médicos e enfermeiros, mas sim mostrar a verdade de um sistema invisível. O médico é representado como um fixer, ou um talhante (como diz um médico ao seu paciente, “ninguém quer estar num hospital”). Há cenas gráficas no filme, algo que, devido ao lugar, compreende-se – desde cirurgias ao coração, a um jovem hippie que vomita numa sala durante largos minutos. Porém, o gore em si, absolutamente realista – alguns espectadores fecharam ou taparam os olhos, guinchando – não corresponde aos momentos de maior violência do filme. Essa distinção vai para os inescapáveis zooms na cara dos pacientes, algo que Wiseman aprendeu a controlar em projetos futuros – correspondem a uma agressividade desnecessária da câmara face aos seus sujeitos, demasiado vulneráveis a tal artificialismo fotográfico.

 

 

Quem melhor conhece a filmografia de Wiseman sabe como esta rima, propondo o regresso a assuntos-lugares como, por exemplo, a relação entre o homem e os animais em Primate (1974) ou Meat (1976) e Zoo (1993) – tema que volta, mas sempre de forma diferente. E, depois de Hospital, tivemos Near Death (1989), um documentário sobre uma unidade de cuidados intensivos hospitalar. Nesse filme, percebemos que a duração (cerca de seis horas), ou seja, o lento acompanhamento dos pacientes terminais (tornando-os autênticas personas-humanos) desenvolve uma maturidade diferente, com o mesmo sentido de Hospital. O tempo dos filmes (vão aumentando na obra) favorece os propósitos de Wiseman, através de uma montagem sóbria e experiente que nunca apresenta os assuntos prematuramente – neste caso, como lida a democracia americana com a tensão espírito-corpo dentro de quatro paredes brancas?

Um exemplo recorrente desta etapa inicial da carreira de Wiseman são as analogias, expressadas em montagens paralelas que contradizem o lado mais observacional dos filmes, ou a pontuação excessiva no final da fita – só saímos do Hospital ouvindo fusão das preces religiosas com o som dos carros, num zoom-out  que expande as janelas num edifício funcional, até à autoestrada. O plano carrega o espanto do realizador em relação ao caráter burocrático que a morte adquiriu, e a convivência banal que ocupa nos espaços públicos (aqui simbolizados nos carros). Wiseman é mais “limpo” quando a montagem transita da montanha russa, cujo desfecho contém todo o seu propósito, para o longo percurso de carro, sem travagens e acelerações, onde o olhar da paisagem gera um novo sentimento da realidade e do tempo. Os filmes de Wiseman conseguem transformar a realidade em ecossistemas autónomos, tão orgânicos que nos fazem sonhar sem o saber, devido à consistência da observação. O ponto de vista permanece na montagem, constantemente sugerido por uma observação antropológica, devido à “proximidade da distância da experiência” – ou um “sonho vivido”.

Todavia, Near Death seria possível sem Hospital? Não. Wiseman tornou-se famoso por entrar horizontalmente nas instituições, mostrando massas e não indivíduos famosos, algo nunca alcançado sem algum grau de manipulação. A progressiva experiência do realizador nasce numa partida que, sendo inovadora, é sobretudo denunciante, mas permitirá que o género observacional com ponto de vista floresça – uma contradição que só grandes realizadores conseguem explorar. Em suma, Hospital, só pelo lugar que ocupa na sua obra, e por aquilo que permitiu a Wiseman conquistar, merece ser visto e analisado.