No início do mês de outubro estreou Tron: Ares e entre novos e velhos espectadores, abordaram-se novas e velhas temáticas. Será o mundo digital o futuro da humanidade? Em 1982, Tron, realizado por Steven Lisberger, procurava explorar essa questão contemporânea.
– After all, computers are just machines. They can’t think.
– Some programs will be thinking soon.
– Won’t that be grand. Computers and the programs will start thinking and the people will stop.
Tron 1982

Pioneira no uso de CGI, a película, minimalista, analógica, visualmente deslumbrante, conjugava elementos dos videojogos e da embrionária estética synthwave, dando forma a uma rede virtual (the grid) onde programas de computador eram personificados, questionando a moralidade e a política dos seus criadores. O protagonista era Flynn (Jeff Bridges), um user que “entrava” nesse espaço e, com a ajuda de Tron – o programa de segurança desenvolvido pelo amigo real Allan (Bruce Boxleitner) – travava um combate com o MCP (Master Control Program) para extrair informação secreta e comprometedora de Dillinger (David Warner), o vilão. O original reflete sobre o propósito e os perigos da inteligência artificial, então emergente. Teria um sucesso comercial modesto (dado o custo elevado) e tornar-se-ia, pouco a pouco, filme de culto no género. Tron daria, anos mais tarde, origem a uma sequela, Tron: Legacy (Kosinski, 2010), e, eventualmente, a uma trilogia com o mais recente Tron: Ares.
Tron: Legacy, realizado por Joseph Kosinski, parecia esquecer boa parte da história original. O filme abre com o desaparecimento de Flynn e introduz-nos ao seu filho Sam (Garrett Hedlund), lançando-nos numa trama que discute a criação de um mundo digital perfeito. O ambiente sci-fi modernizado e futurista dá-nos a conhecer uma “nova” grid que evoca o espaço sideral, mas cedo regressamos ao liminal space e à arena dos jogos do primeiro filme. Aqui, os sintetizadores são explorados pela dupla Daft Punk, que eleva o filme com uma banda sonora eletrónica sensorial e fascinante. Contudo, apesar do pioneirismo técnico e do deslumbre visual e sonoro, Tron: Legacy, como Tron que o precedera, é um filme algo superficial do ponto de vista narrativo, cujos elementos notáveis não compensam o simplismo das suas ideias. Surge a questão: seria com Tron: Ares que a trilogia encontraria finalmente a redenção? Parece que não será ainda o caso.
Em Tron: Ares (2025), de Joachim Rønning, avançamos novamente no tempo. Algumas personagens ficam para trás e o filme retoma ideias dos capítulos anteriores, entregando-se à nostalgia. Ares acompanha duas empresas concorrentes – a ENCOM e a Dillinger – em luta pelo pódio tecnológico. De um lado, Julian Dillinger (Evan Peters), neto do vilão do primeiro filme; do outro, Eve Kim (Greta Lee), que, após a morte da irmã, herdou a ENCOM do entretanto desaparecido Sam Flynn. Dillinger cria Ares (Jared Leto), um programa altamente sofisticado de defesa que a empresa consegue materializar no mundo real, um “motard aprimorado”, portador da promessa de uma visão do futuro. Mas essa visão tem tempo limitado no nosso mundo, o que desencadeia uma corrida entre a ENCOM e a Dillinger pelo chamado “Código de Permanência”, concebido e ocultado por Flynn. Entre entradas e saídas da rede e do mundo real, teremos muita ação, combate e luz. As corridas de lightcycles (indispensáveis) estendem-se agora às ruas de Nova Iorque, criando bons momentos de ritmo e espetáculo, ecos do que outrora fascinara a audiência.
A narrativa, porém, segue uma fórmula repetitiva e cansada, perdendo-se alguma autenticidade. Alguns dos temas abordados, nomeadamente a expiração do tempo de vida dos programas e, sobretudo, o seu propósito no mundo real, são cativantes, mas pouco desenvolvidos. É no confronto pessoal entre a personagem de Leto e outros programas artificiais, como Athena (Jodie Turner-Smith), que o filme resgata parte da sua “humanidade”, evocando analogias que vão de Frankenstein “For I am fearless, and therefore powerful”, ao hit dos Depeche Mode “Just Can’t Get Enough”.

Quanto às performances, há competência no elenco: Evan Peters está consistente, Greta Lee encantadora, e Jared Leto funciona com o seu olhar distante e robótico, que se torna progressivamente mais curioso, chegando a tocar num certo humor. Mas Tron: Ares, tal como os filmes anteriores, continua a explorar de forma demasiado superficial a relação entre as personagens e a sua identidade, preferindo concentrar-se na dimensão do videojogo e na tradução do universo conceptual do computador para o ecrã, entregando-se a uma estrutura e a um padrão esgotado, entre desaparecimentos e corridas dentro e fora da rede. É de facto com Nine Inch Nails (Trent Reznor e Atticus Ross) que se honra o legado das bandas sonoras anteriores e se constrói, com sons eletrónicos, industriais e atmosféricos, uma banda sonora perfeita que acaba por ser o principal volante do filme.
Para os fãs do Tron original, de Kevin Flynn e do seu bit, esta será uma boa sequela, repleta de bons momentos de ação e com um forte futurismo visual. Para os outros, talvez aquilo que nos espantou no primeiro já não deslumbre no terceiro. O tempo passou e Tron: Ares já não representa qualquer vanguarda. Se o legado não se sente, resta apenas a promessa e a nostalgia.
![]()
Beatriz Lopes




