Trois Amies, de Emmanuel Mouret: As Intermitências do Amor

Bruno VictorinoAgosto 15, 2025

Recorrentemente, em tom mais ou menos depreciativo, ouvimos descrever as filmografias de certos realizadores com a expressão: “faz sempre o mesmo filme”. Se nos cingirmos ao cinema contemporâneo, há um nome incontornável nesse sentido: Hong Sang-soo. Para além da inegável relevância dos filmes de ambos no panorama cinematográfico atual, Hong e Emmanuel Mouret partilham também essas ditas parecenças entre os filmes que vão sucessivamente lançando, onde apenas se verificam subtis variações e recorrências sobre os mesmos temas e preocupações. 

E, de facto, em Trois Amies (Três Amigas), deparamo-nos com a habitual gravitação de Mouret em torno das relações amorosas e das potencialidades que as mesmas encerram em termos de encenação e construção de pequenas ficções, potenciadas pelos papéis que cada personagem  interpreta, com maior ou menor afastamento e/ou sincronização entre as suas ações e o que realmente sentem. É uma abordagem onde a infidelidade reina e que tem dado pano para mangas ao realizador francês. Aqui, temos um entrelaçado narrativo entre três amigas, com diferentes mas igualmente sinuosos percursos românticos durante o filme. 

Para além das semelhanças temáticas, a elegância da mise-en-scène de Mouret prossegue imaculada, com a usual oscilação entre apartamentos e espaços exteriores imensamente verdes. Se os últimos nos garantem algumas das composições mais belas e pictoriais (a reverência à pintura é inegável), é nos espaços mais fechados que a encenação de Mouret sobressai, com a câmara a flutuar em planos sequência pelos compartimentos e portas, onde os personagens se vão escondendo e aparecendo, num fenomenal jogo entre o dentro e o fora de campo. Em baixo, dois pequenos excertos ilustrativos da plena harmonia entre os subtis movimentos de câmara e a coreografia musical dos atores, concedendo-lhes a imperativa liberdade de espaço e tempo para manifestarem toda a sua arte.

Mas se falamos de semelhanças e recorrências, não podemos deixar de sublinhar as diferenças de Trois Amies em relação à restante obra de Emmanuel Mouret. Se, por um lado, voltamos a contar com o habitué Vincent Macaigne como um dos protagonistas, o seu tom humorístico, e, consequentemente, o do próprio filme, estão bastante mais contidos. Macaigne representa claramente o mesmo personagem que tão bem conhecemos de outras núpcias, mas surge em Trois Amies em versão bem mais grave e melancólica que em filmes anteriores. Inversamente proporcional à diminuição da comicidade verificamos um aumento significativo do teor melodramático, alcançando, inclusivamente, patamares de tragédia díspares da leveza existencialista de, por exemplo, Les Choses Qu’on Dit, Les Choses Qu’on Fait (2020) ou Chronique d’une Liaison Passagère (2022). É Joan, interpretada por uma sublime India Hair, que personifica esta alteração de tom, absorvendo, através da simplicidade comedida do seu rosto, a montanha-russa de desenlaces narrativos que Mouret lhe reserva.

Outra diferença prende-se com a inclusão de uma nuance sobrenatural inesperada. Victor (Macaigne), que premonitoriamente surge como narrador voz off do filme, vê-se envolvido num fatal acidente de viação, depois de afogar as mágoas em bebida, na sequência do término da sua relação com Joan. Considerando a preponderância do ator na obra mais recente de Mouret, que acabou por substituí-lo enquanto protagonista dos seus próprios filmes, é com alguma surpresa que o vemos partir tão cedo. Mas desenganemo-nos, Macaigne prontamente regressa, agora na forma de fantasma apaixonado, que procura permanecer ao lado de Joan, reconfortando-a pontualmente. É nos reencontros entre Joan e o fantasma de Victor que o filme atinge os seus momentos mais comoventes, com Mouret a socorrer-se de técnicas de sobreposição de imagem que vão fazendo Victor progressivamente desaparecer.

A tragédia de Trois Amies não está na morte, ainda que ela assombre, literalmente, o filme. A tragédia está na fragilidade da vida, na fatalidade das relações amorosas, no ciclo vicioso do amor (in)correspondido. O que perdemos em humor ganhamos em melancolia, a leveza substituida pela gravidade. Seguindo a tradição do melodrama clássico americano, Mouret é capaz de desvendar, na vivência de personagens comuns, mundanos e, porque não, vulgares, todo o espectro de complexidade da experiência humana.

 

Bruno Victorino