Não é fácil a vida de um lenhador no início do século XX. Exposto aos elementos, sem uma equipa de Higiene e Segurança no Trabalho para garantir que um pau não lhe cai em cima da cabeça e sem sequer poder regressar a casa no fim do dia, condenado a partilhar a fogueira com um grupo de homens que palram sobre o tudo e nada de um dia-a-dia sem novidade. Para alguém introvertido, isso talvez seja mais desafiante do que o próprio trabalho. E isto é só o início dos problemas do nosso lenhador. Train Dreams acompanha Robert Grainier (Joel Edgerton), um homem simples, calado, ao longo de várias décadas. O filme observa a sua existência hermética e (pelo menos aos olhos do narrador, Will Patton) profundamente nobre: uma vida que passa pelo mundo sem grande alarido e sem deixar registo de que alguma vez existiu. Há uma ideia muito presente de que talvez essa seja a forma mais pura de viver, e Grainier acaba por funcionar como uma representação da árvore que cai na floresta sem ninguém para a ouvir. Ele fala pouco, contudo escuta com atenção, e a natureza torna-se o lugar onde pertence. O filme tem uma visão muito próxima do romantismo americano, em que o significado da vida é procurado através da contemplação da natureza e do afastamento de um mundo industrializado (uma ideia bonita em teoria, sobretudo quando não somos nós a ter de passar o inverno numa cabana de madeira). E é dessa visão da vida que nasce o tom taciturno e agridoce do filme.

A melancolia domina quase todas as cenas, mesmo aquelas em que nada de trágico acontece. Quando a tristeza é assim usada como uma muleta, perde força. Sem contraste, sem momentos de leveza (existem, mas são raros) a dor deixa de ter impacto, torna-se previsível e aborrecida. O filme nunca encontra uma forma de fazer o espectador sentir esse sofrimento. Acompanhamos uma vida inteira sem termos acesso a uma pessoa inteira, e o resultado (a distância emocional) manifesta-se também na cadência do filme.
O ritmo é lento, o que por si só não é um defeito, mas o uso desse ritmo é canalizado para passar e repassar traumas, para repetir a mesma nota emocional até se tornar oca. Para um filme pouco mais longo do que noventa minutos, é chocante o quanto se arrasta. Mais do que lento, pode-se dizer que o filme é estático. Grainier não parece caminhar para nada em particular. Acontecem coisas, só que não há um arco. Existe uma tentativa de ligar a vida de Grainier à própria transformação da América, todavia essa ideia pouco mais é do que um pano de fundo de sucesso discutível.

Visualmente, a realização prefere mostrar-nos as horas mais bonitas do dia, amanheceres e entardeceres dourados, sequências noturnas iluminadas por fogueiras e velas. No início, o efeito é apelativo, porém a repetição desgasta o encanto. A cinematografia é muito levada ao colo pela beleza da paisagem, mas não consegue compensar a sensação de distanciamento. Tudo é muito solene, muito contemplativo. Fica-se com a sensação de estar perante um Terrence Malick versão dieta.
E, talvez consciente desse afastamento emocional, o filme decide explicar em vez de mostrar: Train Dreams é narrado. Não é que a narração em si seja mal feita, o problema é que dá a sensação de funcionar como um martelo que nos explica aquilo que acabámos de ver ou aquilo que já era possível perceber, retirando poder às imagens em vez de o reforçar. Num filme que pretende viver do silêncio e da interioridade, essa explicação é irritante, e das duas uma: ou duvida da capacidade do espectador de ler o filme com autonomia, ou duvida da própria capacidade do filme de ser bem-sucedido em apresentar os momentos com clareza suficiente.
Ao ver Train Dreams, lembrei-me de First Cow, de Kelly Reichardt (uma comparação injusta, diga-se, em que Train Dreams sai derrotado por KO no primeiro round). First Cow também acompanha homens discretos, trabalho duro, vidas injustas e sobrevivência num Oeste americano ainda em formação. No entanto, onde esse filme encontra intimidade e ternura num contexto inóspito, Train Dreams permanece na contemplação. Quer falar da solidão e da dureza da vida, sem conseguir fazer-nos senti-las. Faz-nos vê-las, é certo, mas tal como alguém que segura um globo de neve não consegue sentir a textura dos flocos a cair, também nós ficamos impedidos de sentir as dores de Robert Grainier.

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