Quase quarenta anos após o original de Michael Herz e Lloyd Kaufman, o tóxico super-herói de Tromaville sofre uma remodelação a todos os níveis. Agora representado por Peter Dinklage, The Toxic Avenger combate novos bullies e novos vilões deste novo mundo, sempre com a mesma viscosidade poluente que é sua imagem de marca. Armado com a sua característica esfregona radioactiva, o vingador de 1984 foi uma verdadeira pedrada no charco da monocultura conservadora americana da sua era e um triunfo do cinema independente de sátira rocambolesca. The Toxic Avenger Unrated reimagina o nosso contínuo heroico como um homem de família, um pai solteiro a braços com um filho num mundo de injustos e injustiças. Com a realização de Macon Blair (I Don’t Feel at Home in This World Anymore), esta reencarnação do justiceiro mucoso conta com um elenco recheado de nomes de referência, de Elijah Wood a Kevin Bacon, passando por Jacob Tremblay ou Taylour Paige. Mas enquanto que o filme de 1984 despejava a sua bílis sobre a ‘jock culture’ da América de Reagan, The Toxic Avenger Unrated lança a sua mira à grande rede de corrupção plutocrática das terras do tio Sam. Será que a ressuscitação de Macon Blair replica a energia maníaca do filme original?
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The Toxic Avenger Unrated de Macon Blair
Não deixa de ser algo representativo do cinema de super heróis moderno que uma das peças culturais mais subversivas do género na década de 80 tenha sido transformada num registo convencional inteiramente assexual mas decididamente bastante mais violento que o seu original. Este The Toxic Avenger Unrated gaba-se de um elenco de reconhecimento elevado, desde Peter Dinklage enquanto Toxie até Kevin Bacon no papel de magnata vilão, e de valores de produção infinitamente superiores ao original independente. Com Macon Blair na realização, colaborador habitual de Jeremy Saulnier, o Avenger está agora adaptado aos tempos: a combater o desleixo moral das mega empresas americanas, a colocar um drama familiar no centro da trama, e a lançar um olhar a um sistema de cuidados de saúde disfuncional. As mudanças de perspectiva e as actualizações que o tempo trouxe servem, contudo, para retirar muita da magia e do espírito original do Avenger. Desde logo, a sensibilidade dramática de Peter Dinklage parece estar pouco relacionada com a ideia de um Avenger que tem tanto de repugnante como de magnético. Na verdade, este The Toxic Avenger Unrated não se fica por aí, na medida em que a tentação de trazer o super herói idiossincrático para o século XXI resulta numa complicação geral do enredo que se aproxima muito mais a um qualquer produto aleatório da Marvel do que do espírito iconoclasta e independente que associamos ao Avenger (com direito a cena pós-créditos e tudo!). O Avenger de Dinklage está agora a braços com a tarefa de manter de pé uma relação ambivalente com o seu filho adoptivo (Jacob Tremblay), fazendo uso dos habituais mecanismos de “armadura de enredo” que normalmente associamos a subprodutos Marvel. Toda esta construção extra-Avenger da personagem de Dinklage acaba por retirar o imediatismo frenético a que procura apontar, e conceder-lhe uma convencionalidade que não lhe serve. Ou a banalização do mito, uma especialidade da Hollywood actual.
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The Toxic Avenger (1984) de Michael Herz & Lloyd Kaufman
A América de Reagan teve o condão de criar uma cultura própria do seu tempo. Uma cultura homogeneizante e normativa, mas que se impôs com uma simplicidade tão brutal quanto aparentemente natural. The Toxic Avenger era, em pleno reaganismo de 1984, um super herói (ou qualquer coisa que o valha) da sua comunidade fictícia de Tromaville em New Jersey. Mas ao invés de um super herói que se debate com um vilão de carne e osso, o antagonista de The Toxic Avenger é essa cultura normativa da América dos eighties. Na verdade, é o mesmo vilão de um They Live de Carpenter ou um Breakfast Club de Hughes. The Toxic Avenger coloca os termos do debate cultural num maximalismo atroz, contudo. Os jocks de Hughes são aqui manadas assassinas em puro delírio macabro, enquanto que as estruturas de autoridade de Carpenter são corporizadas por uma força policial neonazi e uma classe política abertamente corrupta. Esse maximalismo torna-se um activo de The Toxic Avenger na forma como é empregue a violência ao longo das peripécias. A força da crueldade das hordas de bullies que ajudam a defenestrar o pobre Melvin rumo ao seu destino tóxico são confrontadas com a mesma brutalidade violenta em troca das suas acções pelo próprio Toxic Avenger. O mesmo “monster hero” que arranca braços de membros de gangs, contudo, dedica-se igualmente a ajudar velhinhas a atravessar a rua. É nesta duplicidade humorística e satírica que reside a maior subversividade de The Toxic Avenger. Os realizadores Lloyd Kaufman e Michael Herz colocam o tom dos acontecimentos numa raiz absurdista desde o início a partir da ampliação das tendências violências latentes na sociedade americana, fazendo do elemento da poluição resultante do “progresso tecnológico” alegado na sua voz off inicial o veneno que se entranha nas relações sociais. Será o Toxic Avenger o super herói que a América merecia em 1984? Não sei, mas é possível que tenha sido aquele que precisasse.
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