The Sweet East, de Sean Price Williams : Uma Trip Americana

Bruno VictorinoJunho 27, 2024

The Sweet East marca a estreia de Sean Price Williams na realização de longas metragens. Mas desenganem-se aqueles que julguem que nos encontramos perante um novato nas lides cinematográficas. Na verdade, Williams é neste momento uma das figuras proeminentes do cinema independente norte-americano, assinando, como diretor de fotografia, filmes dos irmãos Safdie (Good Time), Alex Ross Perry (Her Smell), Michael Almereyda (Marjorie Prime) e até Abel Ferrara (Zeros and Ones). Atrevemo-nos a dizer que se trata, eventualmente, do diretor de fotografia mais entusiasmante do cinema americano contemporâneo. E tal deve-se à riqueza e textura das suas imagens – captadas em película 16mm ou 35mm – e à estética muito própria evidente na forma como filma a noite e as luzes neons, aproximando-se frequentemente da abstração típica do cinema experimental. Um fluxo, imediatismo e fluidez constantes que rimam com a deambulação claustrofóbica das personagens pelos espaços dos filmes.

Good Time (2017), Josh Safdie, Benny Safdie
Her Smell (2018), Alex Ross Perry
Zeros and Ones (2021), Abel Ferrara

E é precisamente essa abordagem formal que testemunhamos também em The Sweet East, que se encaixa perfeitamente na viagem psicadélica materializada pelo argumento de Nick Pinkerton. Lillian (uma excelente Talia Ryder) é uma adolescente finalista do secundário, que se encontra em visita de estudo à cidade de Washington DC. Profundamente alienada dos restantes colegas, Lillian embarca numa trip por vários locais da região Este dos Estados Unidos, à medida que vai travando conhecimento com as pessoas que se vão cruzando aleatoriamente no seu caminho. 

The Sweet East

A narrativa tem uma estrutura episódica, uma série de níveis que a personagem principal vai ultrapassando, construindo e ajustando a sua identidade por forma a melhor se adaptar às circunstâncias de cada micro ficção. Um grupo de ativistas punk, um supremacista branco, a rodagem de um filme de época, etc. Enquanto Lillian percorre cada um destes cenários, em evidente processo emancipatório, o cineasta vai tecendo um retrato da América contemporânea, sem qualquer sublinhado didático e não se levando demasiado a sério. Aliás, o tom levemente burlesco de The Sweet East é acompanhado por breves rasgos de realismo mágico que contrastam com o cariz eminentemente naturalista da trama. Estes momentos acabam por se estabelecer como contraponto de uma visão mais pessimista da realidade norte-americana, vislumbres fabulares de idealização do tal “american dream”.

The Sweet East

Talvez o capítulo mais inspirado do filme seja aquele entre Lillian e Lawrence, o supremacista branco interpretado magistralmente por Simon Rex (Red Rocket). O conservadorismo de Lawrence, que alberga Lillian em sua casa,  convida à reflexão sobre a história dos EUA, por mais enviesada e problemática que seja a sua visão. As próprias vestes antiquadas que empresta a Lillian, reforçam este jogo entre o passado e o contemporâneo, alargando o retrato que Williams procura captar a toda a memória de uma nação. A posterior rodagem do filme de época, que decorre nos anos posteriores à construção do Canal Erie (circa 1825), só vem sublinhar esta tensão. 

The Sweet East

Apesar da oscilação entre episódios prejudicar, por vezes, a coesão do filme, considerando que nem todas as personagens têm o mesmo carisma, The Sweet East é uma auspiciosa estreia de Sean Price Williams. O realizador conseguiu conjugar a sua sensibilidade formal e uma abordagem quase experimental com o rocambolesco argumento de Nick Pinkerton, entregando uma obra alucinogénica e idiossincrática, centrada na presença e no rosto de Talia Ryder.

Bruno Victorino