Estreou no dia 1 de Abril, uma quarta-feira, perante uma recepção iconicamente negativa da crítica, mas isso não impediu o público de ter a opinião contrária e de estar a fazer de The Super Mario Galaxy Movie um dos filmes com melhor resultado de bilheteira do ano logo na sua primeira semana. Não é um caso isolado no que diz respeito à grande diferença de recepção crítica vs público, mas o que justifica esta diferença? E até que ponto é que as adaptações de videojogos ao cinema devem ser vistas à mesma lupa de um filme que não o seja? Talvez sejam de facto realidades diferentes principalmente quando o público alvo são crianças e millenials nostálgicos interessados noutra coisa.

Foi em 1993 que Super Mario teve a sua primeira adaptação ao cinema, na infame versão protagonizada por Bob Hoskins e John Leguizamo no papel de Mario e Luigi, sem esquecer Dennis Hopper no papel de Bowser (na altura ainda apelidado de King Koopa). Hoje em dia, virou filme de culto irónico ao estilo de The Room, o chamado “tão mau que é bom”. Foi preciso esperar 30 anos para que a Nintendo, empresa nipónica famosamente conservadora e protectora da sua propriedade intelectual, arriscasse nova adaptação para o cinema em 2023. Desta vez Shigeru Miyamoto, criador de Super Mario (e Zelda e Starfox e Donkey Kong e Pikmin, numa lista infindável de invenções de um dos maiores visionários, senão o maior, da história dos videojogos), decidiu seguir o projecto de perto para ter a certeza que o resultado final está o mais próximo possível do que os fãs esperam. Mas, claro, com algumas excepções (vem à cabeça Hideo Kojima), fica evidente que fazer um videojogo não é a mesma coisa que fazer um filme, e o primeiro erro de Miyamoto foi ter entregue aos americanos da Illumination de Gru – O Maldiposto e desses malditos Minions a responsabilidade de criar o filme. Já os realizadores são perfeitamente anónimos nesta empreitada. O estilo do cinema de animação da Illumination ficou bem impresso logo em The Super Mario Bros. Movie (2023), com um ritmo, estética e sentido de humor parvo que aparentam dirigir-se a crianças com hiperatividade. Há também aquela mania de inserir músicas não originais em alguns segmentos, mas pelo menos no filme de 2023 tratava-se dos AC/DC, Beastie Boys e a-ha, e não de uma qualquer canção pop do momento. Essa consciência da Illumination não será inocente perante um público necessariamente mais nostálgico que o das suas outras longas-metragens.

O filme de 2023 foi um absoluto sucesso de bilheteira, dando início à produção de Galaxy quase de imediato. Mais e maior, não necessariamente melhor, mas será que isso interessa? Pois bem, The Super Mario Galaxy Movie não é bem um filme, e é preciso encarar isso. O desenvolvimento de personagem é inexistente e os pontos narrativos resumem-se a um esqueleto básico e essencial, funcional quanto baste, que se desloca do ponto A ao ponto Z à velocidade da luz, passando por todos os outros pontos pelo caminho ou não fosse esta uma viagem galáctica da dupla de canalizadores. A dada altura Toad resume o argumento dizendo algo como “Ok apareceu dinossauro cool e agora já faz parte do grupo”. Objecto de uma campanha de marketing avassaladora, quase todas as aparições de personagens “surpresa”, cenários e “set-pieces” já tinham sido reveladas antes da estreia, e são tantas que para encaixar num filme de 90 minutos as sequências têm mesmo que ser apresentadas a um ritmo frenético. Desde os desertos de Tostarena ao Cascade Kingdom de Super Mario Odyssey da Switch – encaixado numa sequência que transforma os irmãos em bebés às costas de Yoshi como em Super Mario World na Super Nintendo -, às brincadeiras de Bowser Jr com Super Mario Maker e a utilização do pincel de Sunshine da Gamecube, o desfile de referências para as várias gerações de fãs dos videojogos funde-se com o próprio filme compondo a sua estrutura.

Já muito se falou do argumento praticamente inexistente de The Super Mario Galaxy Movie, cuja base é o do videojogo da Wii com o mesmo nome que introduz a princesa Rosalina (Brie Larson), mas este é um daqueles casos em que o produto e o espectador pouco se importam porque, como já referido acima, não se trata bem de um filme mas sim de uma atracção de um parque de diversões, mais precisamente uma montanha russa. O principal foco serão sempre as recriações das personagens clássicas para o grande ecrã e o principal destaque não tem como não ir para Fox, com voz de Glen Powell, que toma o público de assalto tornando-se no ponto mais forte do filme. A backstory de Fox no filme, e a sua natureza intergaláctica enquanto piloto de combate espacial dariam matéria mais do que suficiente para, aí sim, um filme (!) que certamente existirá no futuro. Há ainda espaço para Luis Guzmán na voz de Wart, líder de um submundo onde o jogo e os negócios obscuros imperam, e para Donald Glover a vociferar as onomatopeias de Yoshi.

The Super Mario Galaxy Movie nunca será um bom filme, mas isso não o invalida de ser um excelente presente para os fãs que querem ver as personagens com que cresceram no grande ecrã, e nesse sentido faz um trabalho melhor que o filme de 2023, que parecia mais preocupado em trazer Super Mario a um público mais transversal tropeçando por vezes em si próprio na expansão do universo dos videojogos (Super Mario cresceu em Brooklyn?!). Galaxy é mais fiel ao material de origem e tem o mérito de não ter qualquer vergonha de assumir ao que vai desde o primeiro minuto: uma verdadeira trip de açúcar com brilho e cor para ver em grupo com outros fãs. Este sucesso de bilheteira põe em perspectiva o valor e o propósito cinematográfico destas adaptações dos videojogos para o cinema, sempre negativas até ao ponto de viragem que foi o filme Sonic The Hedgehog em 2020. Talvez o seu propósito seja mesmo só o de agradar os fãs. Por outro lado, o que é que se espera exactamente de um filme de Super Mario? Uma obra-prima do cinema contemporâneo? Galaxy faz essa ponte, abrindo espaço, agora sim, a novos filmes com chancela da Nintendo com uma maior robustez e audácia narrativa, começando com The Legend of Zelda, já em produção. Por outro lado, numa era em que nos deparamos com a falta de público nos cinemas e com o encerramento de várias salas um pouco por todo o mundo, são também filmes como Super Mario Galaxy que lhes vão dando folga financeira, ao mesmo tempo que levam pais e filhos juntos ao cinema, quem sabe pela primeira vez. Cumpre-se assim a função da sétima arte.
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