Trinta e seis anos separam Yoru no henrin (The Shape of Night, 1964) de Noboru Nakamura, à data um dos realizadores de referência do popularíssimo estúdio japonês Shochiku, de Fa yeung nin wah (In The Mood For Love, 2000) de Wong Kar-Wai. Quando este último foi apresentado em Cannes, as tentativas de ilustração de paralelos no cinema foram várias, em particular no que diz respeito à preocupação de Wong pela criação de clima e de tom em detrimento de uma mise en scène de influência classica. Um desses paralelos, precisamente o registo de Nakamura. Mas The Shape of Night encerra muito mais do que o hiper-foco do realizador de In The Mood For Love em imagens saturadas e ambientes carregados.
Nakamura, muito na tradição dos cineastas de casa na Shochiku e em linha com a “Old Hollywood”, era um cineasta empenhado em trabalhar narrativas e encomendas do próprio estúdio, mas The Shape of Night é hoje visto como um registo relativamente fundacional da Nova Vaga do cinema japonês, que a própria Shochiku viria a abraçar e mais tarde a renegar. A visão particular de Nakamura para a narrativa em The Shape of Night cria uma implacável contradição entre o material de origem, em si um romance, e as imagens que o ilustram. À imagem de In The Mood For Love, The Shape of Night conta a história de uma mulher condenada desde o início, mas ao passo que Wong liga Maggie Cheung à prisão da infidelidade do seu marido, Nakamura ilustra uma relação consideravelmente mais complexa.


Yoshie (Miyuki Kuwano), uma jovem estudante, aceita um emprego em part-time como empregada num bar de classe média-alta em Tóquio. Aqui irá conhecer e apaixonar-se por Eiji (Mikijiro Hira), um homem misterioso, de poucas palavras e charmes consideráveis. A sua busca de independência face ao núcleo familiar de classe trabalhadora leva-a a investir-se de forma despudorada na sua nova relação. Eiji, contudo, é um dos membros da yakuza locais e cedo utiliza a credulidade da Yoshie como pretexto para a convocar para uma vida de prostituição em Shinjuku. A base deste relacionamento é a força motriz das repetidas colisões entre imagem e texto em The Shape of Night. Até porque o filme não tem início com a inocência de Yoshie, o que lhe poderia investir de uma qualidade de exploitation que Nakamura abertamente rejeita.
Na verdade, The Shape of Night mostra-nos uma sequência inicial marcada pela sedução visual e pela invocação de uma qualidade etérea dos caminhos da noite de Tóquio que efectivamente aparenta dialogar de uma certa forma com os tons saturados de In The Mood For Love. Yoshie é simultaneamente confiante e resignada à medida que percorre as ruas em busca de clientela. Inevitavelmente, o homem que encontra acaba por se apaixonar por ela e sobretudo pela ideia de a guiar para fora do mundo da prostituição. O fado de ambos é o mesmo que gera o desencontro entre Maggie Cheung e Tony Leung em In The Mood For Love, mas ao passo que a prisão nesse filme é criada pela moralidade de ambos, a Yoshie de Nakamura está ligada à natureza da relação entre si e o seu proxeneta. Mais do que a invocação visual, o destino dos amantes é aquilo que une os dois filmes.
A noção de futilidade no amor é uma recorrência que surge de muleta para histórias de desespero relacional intoxicante. Em muitos aspectos, The Shape of Night e In The Mood For Love invocam a mesma condenação de L’Année dernière à Marienbad (Resnais, 1961). “O que sou eu para ti? O que és tu para mim?”, diz Yoshie na cena derradeira e climática de The Shape of Night para o homem com quem vive. A pergunta é a mesma de todos estes filmes: até que ponto nos reconhecemos dentro de uma relação e até que ponto deixamos para trás a nossa individualidade e aquilo que nos faz humanos? Resnais criava uma paranóia global que encerrava a sua protagonista (Delphine Seyrig) nos confins de um imenso e vazio espaço nuclear de dependência. Nakamura utiliza um episódio que acaba por incapacitar o amante de Yoshie para a colocar na mesma prisão. À medida que Eiji se transforma numa carcaça da sua antiga persona, Yoshie recolhe-se na divisão entre a ânsia pela fuga e o misto de compaixão e pena que sente pelo homem que agora apelida de marido.

O amor tem captores e cativos. Seyrig na imensidão da sua memória (um cativeiro similar que viria a representar em India Song, de Maguerite Duras em 1975), Kuwano na ambivalência da complexidade da sua ligação a Hira, e Cheung e Leung no seu compasso moral – todos são prisioneiros de variedades diferentes de amor, ou pelo menos de obsessão, de tão ténue que a linha entre ambos se faz. Nestas prisões, a dependência surge como factor comum entre diferentes histórias. Kuwano sente uma ligação indelével e inultrapassável entre si e Hira. A perspectiva de fuga resume-se a uma evocação onírica, tão habilmente representada nas imagens sensuais e intoxicantes com que Nakamura envolve a sua própria existência. Ao olhar de hoje, a personagem de Kuwano em The Shape of Night invocará noções figuras femininas em posições de impotência e desamparo, desprovidas de agência. E, de facto, será impossível contrariar essa noção. As provações que enfrenta são do maior dos desesperos. Que não fiquem ilusões: The Shape of Night não é um filme romântico. E os outros, serão? Talvez não, talvez falem de amor, talvez falem de dependência, talvez seja tudo o mesmo.





