The Scarlet Drop (1918) de John Ford : Os Primeiros Passos do Velho Oeste

Bruno VictorinoOutubro 27, 2025

Naquele que é, muito provavelmente, o evento cinematográfico do ano em Portugal, a Cinemateca Portuguesa exibirá The Scarlet Drop, um filme até há pouco tempo considerado perdido — como tantos outros da fase muda de John Ford. Descoberto em 2024 num armazém em Santiago do Chile, foi possível restaurar quatro das cinco bobines que compunham a obra. A ausência de alguns intertítulos e da segunda bobine dificulta o acompanhamento integral da trama, funcionando, contudo, como uma elipse involuntária que convida o espectador a recompor o puzzle narrativo. John Ford — possivelmente o mais importante realizador da história do cinema — nasceu em 1894. Portanto, estamos perante um filme realizado quando tinha apenas 24 anos. Um feito notável, tendo em conta o que se testemunha no ecrã, onde é possível verificar já muito do génio que marcaria a sua carreira: os primeiros sinais do universo fordiano e dos alicerces do próprio western.

O filme abre com a imagem de uma figura incontornável da história dos Estados Unidos e do imaginário cinematográfico de Ford: Abraham Lincoln, presença recorrente na sua filmografia, mais notoriamente em Young Mr. Lincoln. Após o breve prólogo, The Scarlet Drop começa por contrapor duas famílias de origens sociais distintas — os Calvert e os Ridge. Conhecemos a mansão da abastada e numerosa família Calvert, que contrasta vincadamente com a modesta casa dos Ridge, onde “Kaintuck” (Harry Carey, com quem Ford realizou mais de uma vintena de filmes, claro precursor de John Wayne) vive apenas com a mãe. Logo de seguida, a notícia do início da Guerra Civil irrompe literalmente pela igreja onde ambas as famílias se encontram. Kaintuck é impedido de integrar a milícia que se forma de imediato entre os habitantes locais, não sendo considerado digno de combater lado a lado com os seus conterrâneos. Este retrato das dinâmicas sociais e da evolução civilizacional norte-americana, são indissociáveis da mitologia que reconhecemos ao western e, mais concretamente, ao cinema de John Ford.

De súbito, estamos já na terceira bobina, em pleno território do velho oeste. É com perplexidade que se observa a desenvoltura formal de Ford: planos e sequências deslumbrantes, onde os personagens são engolidos na imensidão da paisagem, numa adaptação constante das escalas nas composições. A encenação é imaculada, como se constata, por exemplo, no assalto perpetrado por Kaintuck à diligência onde viaja Molly, uma das jovens Calvert. Mais tarde, é tanto ou mais notável, a cena onde Molly, sequestrada por Kaintuck, apaga a fogueira que os aquece e ilumina ao se aperceber da aproximação dos perseguidores. O gesto comove Kaintuck, e Ford filma o momento apenas com a luz trémula da fogueira — mergulhando o plano na escuridão total.

Ainda que seja talvez utópico sonhar com a restauração integral de The Scarlet Drop, os cerca de 50 minutos recuperados constituem uma relíquia inestimável. Não só enriquecem a já colossal filmografia de John Ford, como revelam, de forma inequívoca, os traços do seu génio precoce e o vigor de um cineasta que, aos 24 anos, já lograva delinear o velho oeste americano como poucos veteranos foram capazes.

The Scarlet Drop será exibido segunda-feira dia 27 de Outubro, às 19h30, e quarta-feira dia 29, às 15h30, na Cinemateca Portuguesa, no âmbito do Dia Mundial do Património Audiovisual

Bruno Victorino