The Ring (1927), de Alfred Hitchcock: A luta pelo final feliz

Laura MendesDezembro 12, 2025

Estaremos acostumados às clássicas tensões (sexuais) que Alfred Hitchcock nos desvela, por meio dos símbolos, dos motifs, da minuciosa cinematografia, aliados à técnica hipnotizante. O binómio homem-mulher tende a estar envolto em misticismo, a relação condicionada pelo mistério, o terror ou o inimaginável. Em The Ring, pelo contrário, o cenário no qual o triângulo amoroso se desenvolve dificilmente seria mais mundano – iniciamos no parque de diversões, com as suas atrações angularmente expostas, as massas de corpos procurando o entretenimento na paródia e no jogo, apinhando-se. Um plano inerentemente popular, porém deixando-nos, graças ao trabalho de câmara, com uma sensação inexplicável face à neblina que rodeia o ambiente de diversão – porventura um prenúncio para as atribulações amorosas dos protagonistas, mais do que um pano de fundo para um conto aterrador, como acontece não raras vezes no cinema.

No entanto, não poderá ser aqui que o filme atinge o seu expoente no que toca à materialidade, ao caráter corpóreo. É, sim, no primeiro olhar distante, mas intenso, trocado entre Mabel (Lillian Hall-Davis) e Bob (Ian Hunter). E é-o ainda mais no momento em que se declara o duelo físico – a luta no ringue – como um duelo de conquista.

 

 

A masculinidade é exibicionista, competitiva e subjugada aos (des)amores de Mabel que, passivamente, entrega bilhetes aos que querem espectar a luta à qual também assiste, com maior proximidade e interesse. Noiva do até então imbatível “One Round” Jack (Carl Brisson), mas com um olho posto em Bob, é a surpreendente derrota do primeiro contra o segundo que desencadeia o crescente confronto entre o noivo e o amante. Inicialmente dissimulada, já que a desconfiança de Jack não nasce imediatamente, a indevida relação vai-se tornando cada mais evidente após a consumação do casamento que está tentada a abalar, adensando a competição entre o homem “de direito” e o homem discreto que desabrocha num espaço íntimo, reservado, ao qual não pertence.

A paranoia da traição é bem expressa num dos mais interessantes momentos do filme, onde a envolvência da boémia e o exagero da festa culminam num polémico beijo situado entre o real e o alucinado. O álcool é, aliás, um elemento transversal aos vários momentos de convívio ou celebração, situando a narrativa no seio de uma classe propensa ao lazer, à devassidão e ao sensível. Observamos os seus efeitos na tentativa falhada, por parte de um membro do público, de participar numa luta, à la Arthur Cravan; nas turvas visões embriagadas, materializadas através de uma exploração das potencialidades do cinema; ou mesmo na frustração dos copos cheios, manifestação da ausência de Mable, provocando, consequentemente, ausência de alegria em Jack.

 

 

Esta personagem feminina, subversiva na medida em que recusa (ainda que não por completo, mas já lá iremos) cumprir o contrato matrimonial, sentindo-se o seu progressivo afastamento físico e emocional, regozija-se com a demonstração de forças por parte dos pretendentes, deambulando entre os dois em busca daquele que exibe melhor desempenho. Surpreende, inclusive, pela reivindicação fervorosa de um parceiro que a trate bem, tal como merece, conforme escreve numa nota deixada a Jack, após uma discussão – fortes palavras que não ouvimos, mas sentimos –, provocando um constrangimento que poderá ser fruto das criticáveis, porque rígidas e impostas, estruturas sociais e de género.

Sugeriu-se anteriormente que The Ring estará afastado da restante filmografia de Hitchcock. Isto não se verifica totalmente, a começar pelo título. Será uma impossível tarefa traduzir este título, por exemplo, para português, sem abdicar da sua riqueza simbólica. O ring de que se fala remete, simultaneamente, para o ringue de boxe e para o anel (ring, em inglês) de casamento, sublinhando a estreita relação entre os dois. Atentemos para além deste primeiro símbolo: o surgimento da idosa mística, de esgar perscrutador e evocando conhecimentos superiores, a chaleira em ebulição, os reflexos dos esposos na água em ocasiões opostas, mas complementares, e, acima de tudo, a pulseira em forma de cobra, oferecida por Bob a Mable. Todos estes elementos perfazem um conjunto minuciosamente colocado à nossa disposição, de forma a sublimar o panorama com que se nos apresenta um relativamente banal melodrama. E a teoria psicanalítica terá, certamente, algo a dizer – como o tem em todos os outros trabalhos hitchcockianos – acerca não só da corporização de uma imensa luta interna, mas também da resignação ao desejo proibido, em nome do amor ou da honra.

 

 

A estrutura dos (meta-)papéis representados é intransigente. Jack sempre personificou o ideal de mártir, incorporando a fidelidade, a felicidade e a resiliência. Bob, por sua vez, nunca abandonou o papel do intruso, do transitório, daquele que devaneia, daí que associado à pulseira de tão maus presságios.

Roland Barthes – em Mitologias – escreveu acerca da teatralidade do wrestling, do modo como a sua narrativa é construída com recurso a representações corporais explícitas de valores universais identificáveis, traçando a linha exata que separa o bem do mal.  The Ring não deixa de comprovar ou, pelo menos, de encontrar sentido, nas teses de Barthes. Principalmente na cena final, espera-se que a cada momento da luta fiquemos imersos nos corpos dos lutadores, nos seus movimentos antagonistas; espera-se que sejamos crentes na expressividade das suas ações , mesmo que já saibamos o desfecho da narrativa. O par primordial é reconstituído, mas a potencial dualidade da estabilização final força-nos a questionar o retorno ao paradigma, ao correto e ao suposto.

As frequentes distorções da imagem e dos acontecimentos permitem-nos confrontar o prazer da “perfeita inteligibilidade do real” com o seu oposto: a frustração que advém da disrupção da harmonia absoluta,  fazendo uso do cinema para demonstrar a (sub)liminaridade da vida.

 

 

 

The Ring é apresentado esta sexta-feira, dia 12 de Dezembro, na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” – acompanhamento ao piano por Daniel Schvetz 

 

Laura Mendes