The Life of Chuck é um filme sobre os mistérios da vida. Mas o verdadeiro mistério é como é possível suportar as suas duas horas de duração. Baseado num conto de Stephen King – o autor mais adaptado na história do cinema? –, o filme segue uma estrutura narrativa atípica. De forma não-linear, Mike Flanagan apresenta-nos a história em três atos, começando pelo terceiro e terminando com o primeiro.
No Ato III, assistimos a Chiwetel Ejiofor num cenário apocalíptico. O mundo parece estar a acabar: a internet deixou de funcionar, há catástrofes naturais sucessivas, um aumento drástico do número de suicídios… É um capítulo verdadeiramente deprimente, que só piora com o monólogo piegas e interminável que Ejiofor debita sobre Carl Sagan e o universo.

Tom Hiddleston, o presumido protagonista do filme, surge finalmente no Ato II. Sol de pouca dura. Flanagan pouco lhe dá para fazer, para além de uma sequência de dança terrível que é a personificação de “vergonha alheia”. É uma pena que Hiddleston tenha sido limitado a apenas um terço do filme, pois The Life of Chuck bem precisava de um ator capaz ao leme. Sem herói, não há ninguém a quem o espectador se possa agarrar.
O Ato I está povoado de atores infantis tão fracos que nos lembramos de Steven Spielberg e percebemos a arte que é escolher a criança certa para o papel. Ao longo do filme mas principalmente neste último capítulo, Flanagan teima em realçar a forma (supostamente inteligente) com que relaciona os três atos que compõem a história. As rimas insistentes, as personagens que reaparecem, os diálogos ditos e reditos, o poema de Walt Whitman, especialmente a frase “I contain multitudes”. Este filme, porém, não contém nenhuma.

A tese geral de The Life of Chuck – que há beleza no dia-a-dia, que o ordinário pode ser extraordinário – é algo com que facilmente concordamos, mas nada do que Flanagan nos mostra sustenta essa tese. Em vez disso, somos bombardeados com um sentimentalismo fácil, um filme que quer tanto ser inspirador que cai numa foleirice sem fundo. Parece que nos estão a lecionar o ABC da Psicologia. O equivalente cinemático à TED Talk mais lamechas imaginável.
Termino com uma recomendação. Para quem estiver interessado numa viagem cósmica que não vire cliché máximo, a curta World of Tomorrow, de Don Hertzfeldt, é a melhor escolha. Bem mais concisa, interessante e comovente.
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