The Last Command (1928), de Josef von Sternberg – Crepúsculo

Miguel AllenMarço 5, 2026

1928! Ponto de exclamação, nessa “meca do mundo”, nesse “majestoso império do século XX.” Enquadrado pela sua trupe de assistentes, Lev Andreyev (William Powell) dedica-se a uma exaustiva escolha de actores para o seu próximo filme. Pelas mãos passam-lhe “todos os russos” de Hollywood, mas ninguém parece servir. Um enfado… até que se depara, enfim, com um rosto que lhe chama a atenção. Do outro lado da fotografia, o corpo volumoso de uma figura fechada e massiva, Emil Jannings, ou um simples aspirante a actor, observa-o. Diz-se “aparentado do Czar” e aceita trabalhar por 7,5 dólares por dia; tem pouca experiência. De olhos esbugalhados, Jannings espreita pela porta do quarto, e entra em cena como que apavorado pelo autoritário telefonema do assistente de Powell. Segue-se a “fila do pão de Hollywood”, e o corpo do actor, como que fragilizado, é arrastado pela multidão para receber o seu “uniforme”. General, cabo, actor,.. pouco importa, todos se empurram enquanto recebem nas mãos o molho de roupas de cada personagem. Jannings parece-nos fora de lugar, sempre fora de lugar, uma massa contida completamente contrária ao movimento irregular que se exponencia em seu torno. De uma aparente vulnerabilidade inicial, ingenuidade, talvez, passamos ao desalento perante a incompreensão que o rodeia. E abrindo uma caixa sobre o reflexo do seu Passado, será do outro lado de um espelho que o filme (re)encontrará enfim a memória de Jannings, e um outro contar de uma história imortal pela grande “máquina de Hollywood”.

I wrote the manuscript, basing it on a meager but very good idea casually mentioned by Ernst Lubitsch, who thought that it was not good enough for a film. However it interested me very much, as I saw an opportunity to deal with the machinery of Hollywood and its callous treatment of the film extra.

Um filme dentro de um filme. Ao seu centro, The Last Command é a revolução russa reinventada enquanto fábula sentimental americana. Um conto onde a pobreza de um povo se vê esmagada pela opulência de uma classe militar e pelo czar; um conto de uma guerra longínqua e “antiga” (Fevereiro de 1917, pouco mais de dez anos antes), feita do movimento frenético de grandes multidões, de histórias de amor improváveis, de odiosas figuras autoritárias e de estóicos revolucionários. Ou vice-versa, porque pelo seu jogo de reflexos, e como sempre com Josef von Sternberg, não estamos ao abrigo de uma certa dualidade, desses abismos improváveis da alma humana. Revolução reimaginada numa caixa de pó de arroz, o grande general (Jannings, não tenhamos dúvidas), primo do czar e figura augusta, cai de amores pela actriz Natacha (Evelyn Brent). Livrando-se do companheiro e acompanhante – um certo Lev Andreyev (já vimos aquela cara algures…), que parte para a prisão -, a mais bela das revolucionárias é prontamente levada para o quarto do general. Ela, do desprezo, vê nascer o afecto e, pouco a pouco, arriscamos, acomoda-se à vida luxuosa do seu pretenso cárcere. Afinal, o general também jurara morrer pela Rússia, e as semanas que, de começo, lhe pareciam tão longas até à revolução em preparos, vemo-las passar num namorico. Há tentativas de homicídio por entre trocas de cigarros, um colar de pérolas em prelúdio do fim. E Natacha resiste, é certo. Afinal, sempre assumira servir o seu país enquanto actriz.

 

 

Sternberg nunca terá sido o mais rigoroso dos historiadores, tanto pelos seus filmes, como nas suas memórias. The Last Command, mais do que qualquer intento realista (ou historicista), preocupa-se em mostrar “the essentials of a revolution.” E essa será aqui, necessariamente, a simples cenografia, historicamente referenciada, de uma ideia moral e de um jogo formal que se procura pelo cinema. De um recordar pela encenação do cinematógrafo, um filme “de caixas”, de camadas narrativas tecidas pela vontade de escapar a um quadro opressivo. Seja Hollywood ou a Russia Czarista, parece subsistir em Sternberg uma transversal desconfiança face a qualquer força dominante. E mesmo os revolucionários populares russos, de oprimidos e subjugados, se transfiguram, aquando da sua tomada de poder, numa multidão anónima, sedenta de vingança, e em busca de frenesim no deboche. O filme organiza-se a partir desse paralelismo curioso entre o funcionamento interno de um estúdio de cinema americano a uma outra qualquer demonstração de poder político, propondo uma analogia directa entre domínio e opressão.

 

 

Jannings, que cairia, alguns anos mais tarde, na mais vergonhosa das desgraças enquanto colaborador nazi (Kultursenator do Reich, segundo Sternberg), era, em 1928, ainda o mais proeminente actor do mundo. Chegara a Hollywood em 1927, a convite da Paramount, e acabaria por ganhar o Óscar de Melhor Actor, logo em 1929, pelos seus papéis em The Way of All Flesh, de Victor Fleming, e neste The Last Command. Aqui, de anónimo (ou quase) figurante assustado a intrémulo general, e caído enfim nesse seu infortúnio definitivo, o actor, seria, pela sua versatilidade pathétique, a figura essencial ao jogo do filme a dois tons que Sternberg experimenta.

A veritable mountain of a man. (…) He was a master of make-up, not only of the outside of his head, but also of its inside. The mirror was his alter ego. Had he been slender he would have replaced Narcissus as a symbol of legendary vanity.

Na sua autobiografia que citamos (Fun in a Chinese Laundry, 1965), o realizador diverte-se a fazer pouco de Jannings, ridicularizando-o ao ponto de apelidar de “scheisse” a sua prestação em The Patriot (Lubitsch, 1928). Ainda assim, mesmo Sternberg reconhece a insistente dedicação e capacidade de metamorfose de um actor perfeitamente imerso nas suas figuras. E também Sternberg, personagem das suas próprias contradições – tanto quanto vaidade -, regressaria à Alemanha para realizar Der blaue Engel, a convite surpreendente de Jannings, afirmando-se “touched by the request from a proud and capable actor whom I had told in no uncertain terms that I considered him a horrible affliction and a hazard to any aesthetic purpose.”

Jannings terá, efectivamente, tido um dos seus maiores papéis neste filme, a par talvez de Der letzte Mann. E só ele, arriscamos, poderia ter concretizado, pela categórica entrega à sua vertigem emocional, as duas cenas essenciais de um filme que tanto vive nesses entre-acontecimentos, nesse entreacto entre glória e humilhação. Aquele final do “sonho”, com Jannings deitado na neve russa, e o final pelo sonho, com Jannings retransfigurado – figurante, de novo a general – na neve inventada de Hollywood, antes de sucumbir aos braços de Powell, sentimentalmente subjugado pelo seu antigo opressor. The Last Command não será tanto um filme essencial de Sternberg quanto um filme essencial sobre Hollywood e sobre o cinematógrafo, num sentido mais amplo. Afinal, esta nova Meca era uma caixa de ilusões, um palco de projecções para almas que se querem reencontrar.

 

 

The Last Command é apresentado este sábado, dia 07 de Março, na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” – acompanhamento ao piano por Daniel Schvetz

 

Miguel Allen