The Killer: Girlfriend in a Coma

Na passada noite de 12 de novembro, revi o The Killer :

1. queria mostrar à Inês o plano de um segundo da Rue de Lanneau, onde vivemos durante os meses de Erasmus, há quase vinte anos;

2. como sempre quando vejo um filme em casa, fico com a impressão de que não o vi devidamente, e que tenho assim de o rever.

A conclusão foi afinal que o filme era “exactamente” o que tinha visto dois dias antes, aquando da sua estreia na Netflix, e que me lembrava bem de quase tudo, excepto da conversa com a Tilda Swinton no restaurante. Da primeira vez esta conversa demorara quase 1h30 com as inúmeras interrupções caseiras, e tinha-me escapado, por exemplo, a curiosa história do urso que se diverte a sodomizar o caçador. Nada disto me parece, afinal, verdadeiramente essencial, mas fica a ideia de que, mesmo em casa, é mesmo bom, por uma vez, ver um filme sem qualquer tipo de interrupção. A dada altura, já não sei a que propósito, a Inês lembrou-se até de John Wick – o que tem bastante graça, tendo em conta as rimas, que me parecem involuntárias, deste The Killer com John Wick 4, que a Inês, na verdade, não viu. Mas efectivamente, o novo filme de Fincher pode servir um pouco como um John Wick, mas para adultos.

bigmouth strikes again

The Killer é um regresso de David Fincher a lugares mais habituais na sua obra, depois de nos aborrecer mortalmente com Mank (2020). Ao faux-antigo de gosto duvidoso e à verborreia confusa do filme precedente (também lançado pela Netflix, na altura com a desculpa de se tratar de um “projecto pessoal”, bastante atípico para o realizador), The Killer responde com o estilo clínico e cínico, esquemático, que Fincher praticou nos seus filmes mais representativos. Trata-se, no entanto, de um filme bem menos metódico do que aparenta ser, ou mesmo do que aparenta querer ser. Dividido em seis capítulos, uma diferença drástica do pulsar ao centro da trama para com o compasso rigoroso da parte introdutória do seu primeiro capítulo – a “aborrecida” espera, em Paris – serve até como surpresa. No entanto, tudo o que se segue à abertura torna-se inevitavelmente algo previsível – homem procura vingar-se pelo que fizeram à sua latina. Ainda assim, um filme cativante, num “tempo” justo, que, quase sem perder o fôlego, se desdobra no que nos parece ser um instante.

 

how soon is now ?

Como a narrativa se parece resolver quase compulsivamente, pela sua anunciada trivialidade, os dois capítulos finais são menos intensos, sobretudo o quinto, ou penúltimo, com a visita a Tilda Swinton. Para tal, não ajuda o longo discurso de Swinton que preenche grande parte da sequência com o repetitivo debate moral sobre as acções e motivos do protagonista (Fassbender). Trata-se de um longo e único ponto morto de um filme que funciona sempre melhor enquanto “avança”. The Killer é, afinal, a exposição de um processo, em curso. E como uma qualquer ferramenta, um objecto que, quando parado, perde grande parte da sua identidade. De referir, no entanto, que a ideia subtil do “no bullets” no último capítulo (o sexto), é um inteligente e salutar traço de originalidade de um desenlace que se previa quase banal.

Diversamente, no quarto capítulo – o mais musculoso do filme – Fincher encena um violento mano a mano entre Fassbender e um “ogre” sanguinário. O resultado é uma admirável coreografia de portentosa brutalidade. Ritmo e precisão, a expressividade do peso próprio de cada corpo e objecto, e, para nossa grande surpresa, talvez a sequência mais impressionante do filme e a que mais bem responde ao que fora proposto por Fincher em “Paris”. 

hand in glove

Enfim, o talento maior de Fincher será mesmo o seu mergulhar no mundo asséptico dos tablets, aeroportos internacionais, indumentárias de turismo, e companhias de aluguer de carros. É talvez o cineasta que funde de forma mais interessante um stand da Europcar numa narrativa clássica. E a “vida” que envolve a acção, como naquelas janelas indiscretas de Paris, Fincher sabe mostrá-la sempre intrigante por tanto que intrinsecamente anónima e silenciosa. Já alguns gestos importantes (a forma como Fassbender aborda Swinton no restaurante, ou a morte do taxista) são pouco precisos, menos musicais, tendo por isso um menor impacto do que deveriam num filme que, ainda assim, faz bom uso da sua fotografia digital.

Quanto ao gag com os The Smiths, que foi já amplamente discutido no Twitter, talvez tivesse funcionado melhor no filme que se prometia de começo. Em complemento do percurso que vemos de Fassbender, existe um contraste menor entre este assassino, que afinal “se interessa” (um pouco), e as letras de coração na mão de Morrisey. O resultado é, finalmente, algo caricatural, e algo que efectivamente se presta, sobretudo, a ser amplamente discutido em relação ao filme, mas que, por si, não desvenda um traço particularmente relevante da obra e sua narrativa.

 

heaven knows i’m miserable now

En tant que cinéphile, je suis un fanatique de la vidéo“, dizia-nos Truffaut. Ora, a “experiência” Netflix, apesar de se ter amplamente normalizado na era da cinefilia twitter, promove, é evidente, um parente pobre da tradicional ida ao cinema. Embora não seja surpreendente que Fincher escolha esta distribuição* para o seu filme (ter generoso financiamento para se fazer o que quer é uma proposta de trabalho ideal**), esta não deixa de ser uma escolha infeliz para um filme que ambiciona e representa algo maior do que a simples “criação de conteúdo” que enche as plataformas de streaming. Diversos detalhes, nomeadamente na sonoplastia do filme (como, por exemplo, a sequência no átrio do escritório, em New Orleans, ou o whisky de Fassbender com Swinton), são muito difíceis de apreciar devidamente nos nossos finos televisores. Mas será este o estado da Arte em 2023.

 

 

 

 

* em França, onde este texto foi redigido, um prazo de 15 meses é exigido entre a exibição do filme nas salas de cinema e a sua distribuição na Netflix. The Killer foi, por isso, lançado directamente em streaming.

** a não perder o divertido sketch de Nanni Moretti sobre este mesmo tema no recente e imperdível Il Sol Dell’Avvenire.

Miguel Allen