Um sorriso e, talvez, uma lágrima… Como em tanto do cinema de Chaplin, é de um mundo muito triste que nos fala o seu The Kid (1921). A pobreza é extrema, pelas ruas sujas mal se avista o céu. Nas casas, em escombros, vive-se com fome. Não há dinheiro nem trabalho, a violência e a brutalidade policial são moeda corrente.
Em 1921, esta seria a primeira longa-metragem de Charlie Chaplin – o primeiro de onze grandes filmes, hoje inevitáveis –, então, como que o paroxismo essencial do gesto chapliniano que se estabelecera ao longo de mais ou menos sete anos de two-reelers. Um filme de afirmação para o seu autor. Se The Kid conserva ainda a ideia de uma construção por “peças” (ou trechos) de cinema, que estrutura grande parte da produção anterior de Chaplin (e que nunca deixaria, na verdade, de se notar na sua obra futura), este é também, pela mais ambiciosa duração de uma hora, o salto, em termos narrativos, que Chaplin vinha ensaiando (veja-se algo como A Dog’s Life, de 1918). Afinal, aquele tramp também podia existir em tramas mais extensas, mais complexas, e dialogar, pela sua comédia, com aspectos mais cruéis da vida corrente.
The Kid existe, então, enquanto “grande melodrama” sobre uma genuína felicidade na – ou apesar da – pobreza material. Aqui, balançamos sempre entre o que de mais belo pode existir na vida (ou no cinema…) e esse feio factual com que a experienciamos diariamente. Chaplin, refira-se, perdera um filho poucos dias antes de começar a trabalhar no filme. Do realismo e de uma fantasia poética que se revela nesse real: uma mãe (Edna Purviance) abandona, por desespero – como por amor – o seu filho recém-nascido aos cuidados “de outros” mais afortunados. Uma fuga e rápido arrependimento, será através da mais improvável sucessão de infelizes acasos que aquele kid, ainda bébé, será levado dos braços da sua mãe ao, até ali, despreocupado tramp. Saído para uma volta pelo bairro, Chaplin parece nem acreditar naquela aparição, certamente imaginando que o bébé teria caído directamente do céu – se não atirado pela janela de uma mãe desesperada, seguramente por descuido de uma cegonha distraída. O tramp, claro – uma figura bem menos “simples”, menos simpática, do que gostamos de imaginar –, não se mostrará nada aberto a receber a criança, tentando rapidamente abandoná-la (de novo) a uma vizinha que passa então com outro bébé, isto se não fôr para a esconder despoduradamente na sarjeta do passeio. Mas tudo acabará, necessariamente, pela conscienciosa insistência policial que levará tudo a devido lugar. E aquele kid vem então completar o lar de um solitário tramp.

Serão cinco anos que passam num vislumbre de céu doce. Um tempo de felicidade (arriscamos) a partir do qual Chaplin dá forma ao duo mais equilibrado da sua filmografia. Longe do desnível – e, porventura, conflito – necessário às relações que estabelecera com Ben Turpin (da agressão) ou Edna Purviance (do romance), ou que formaria, por exemplo, com Harry Myers em City Lights (uma camaradagem na embriaguez), é em The Kid que o realizador parece encontrar o par ideal à sua personagem na figura de um Jackie Coogan de seis anos. Se o tramp sempre fora figura de um radicalismo algo infantilizado, um elemento socialmente desenquadrado, desadequado e, finalmente, contestatário na sua mais profunda inconsciência social, é na figura daquela criança que este se encontra, enfim, mais devidamente reflectido, sem a menor condescendência ou interesse. Depois da introdução mais triste que um filme poderia revelar, passam-se então esses “cinco anos” num simples intertítulo – anos que não vemos passar, e, diríamos, nem o próprio Chaplin –, e é num perfeito idílio caseiro que reencontramos o tramp e o seu kid. Ambos, em sintonia, habitam umas águas-furtadas decadentes e colaboram pela rua num engenhoso estratagema para arranjar uns trocos. Aquela criança – um pouco como Chaplin, mas de um modo menos subversivo – parece existir acima (ou para além) da pobreza factual em que vive. E se Chaplin sempre se distinguira pela sua “pantomima” em cena, de herança circense, Coogan responde ao actor num gesto que lhe é contrário. É um naturalismo terrivelmente comovente que enche o ecrã com o rosto daquela criança, que o teatral tramp tanto parece amar. E é no diálogo da extrema teatralidade de Chaplin com a inadvertência natural de Coogan que se constrói (ainda mais do que na figura de Purviance) o pathos emocional deste filme. Quão belo, como cruel, será o desespero do tramp ao ver-se perder aquela criança; quão belos e quão comoventes serão os seus abraços de reencontro.
E se, muito abrangentemente – aproveitando a deixa de Chaplin que citamos a abrir este texto –, se fala do “riso” e do “choro” que o filme nos proporciona, The Kid é uma obra que funciona pela forma como trabalha frequentemente a partir de uma dicotomia de contrastes extremos (ou de supostos contrastes, quando confrontados directamente). Do lugar dos ricos e dos pobres, da felicidade de uns e da tristeza dos outros, e sempre aquela mãe que deixara uma criança por amor, tornada actriz célebre que ama outras crianças por arrependimento. Globalmente, e como quase todo o cinema de Chaplin, muito do filme revolve em torno de dois problemas fundamentais: o dinheiro (e, sobretudo, a falta dele) e a autoridade (que, no fundo, é um problema que decorre do primeiro, num mundo onde os ricos parecem poder sempre fazer o que querem e a polícia existe sempre enquanto ameaça real).

Mas, sobretudo, The Kid vive de uma crença sincera na possibilidade de inocência num mundo traído pela sua própria decadência social – tema transversal a praticamente toda a obra de Chaplin, apesar dos seus três filmes finais. E se a Ordem social existe aqui para “moldar” a felicidade dos mais desfavorecidos, enquanto Chaplin dorme junto à porta do edifício onde habita, é afinal o céu (esse!) que pode descer àqueles lugares de onde o sonhador raras vezes vislumbra o seu azul. E como já disse um outro, no Paraíso todos teremos enfim um lugar.
The Kid é apresentado esta terça-feira, dia 28 de Outubro, na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” – acompanhamento ao piano por Filipe Raposo



