The Iron Mask, de Allan Dwan (1929) – A Ascensão de Fairbanks

Bruno VictorinoSetembro 25, 2026

O imaginário de infância da minha geração foi marcado pela prevalência significativa do universo de Alexandre Dumas no ecrã. Para além da série de animação D’Artacan y los Tres Mosqueperros (1981) – D’Artacão e os Três Moscãoteiros, em Portugal -, recordo-me perfeitamente que uma das minhas primeiras incursões à sala de cinema, para assistir a um filme que não de animação, foi com The Man in the Iron Mask (1998), de Randall Wallace, no saudoso Olivais Shopping. O fascínio com os Romances de D’Artagnan era de tal ordem, que inspirou inclusive um disfarce carnavalesco algures na minha juventude. Mas, para além da inerente nostalgia, o que é que esta afinidade significa quando nos deparamos pela primeira vez com a versão centenária de Allan Dwan da última parte do terceiro tomo da trilogia sobre os Mosqueteiros? Valerá pouco na apreciação cinematográfica da obra, mas não deixa de trazer algum conforto e familiaridade por estarmos perante uma narrativa que nos é tão próxima, possibilitando que nos foquemos nas escolhas de encenação do cineasta. Por outro lado, permite-nos fixar novas imagens na memória, até então impregnada pelo retrospectivamente medíocre filme de Wallace.

 

The Man in the Iron Mask (1998), de Randall Wallace


Para lá das intrigas
palacianas que cedo se desvendam, a primeira parte do filme detém-se fundamentalmente na comédia física que Dwan consegue extrair das peripécias de D’Artagnan (Douglas Fairbanks) junto de Constance e dos seus camaradas de armas Athos, Porthos e Aramis. Fairbanks incorpora esta fisicalidade de forma sublime, seja na astúcia com que consegue roubar um beijo à sua amada ou com que maneja a sua espada. É particularmente admirável, por exemplo, o momento em que o protagonista trepa uma enorme árvore, procurando entrar num Mosteiro em socorro de Constance, façanhas que em nada ficam a dever às acrobacias burlescas de Buster Keaton. O tom leve e divertido do quotidiano de D’Artagnan, envolto em circunstâncias de romance profundo e sã camaradagem, contrasta com a austeridade presente nas cenas onde predominam as conspirações do Cardeal Richelieu.

 


A liberdade caótica inicial, que a mise-en-scène tão bem acompanha, é substituída paulatinamente pela gravidade que se vai abatendo na trama. A arquitetura dos espaços confinados que cercam os personagens, a utilização magistral da profundidade de campo e o jogo de luz e sombras são paradigmáticos da destreza do realizador em envolver o espectador no novelo narrativo, capaz de encontrar soluções visuais inusitadas que ilustram o desenrolar dos acontecimentos. O exemplo mais flagrante poderá ser testemunhado no momento da substituição do Rei em exercício pelo seu irmão gémeo. O plano geral (em baixo) tem o condão de conjugar a geografia do espaço (as escadas que ascendem ao trono vs a profundidade das catacumbas), com a utilização expressiva de sombras que pairam ameaçadoras sobre o futuro daquele país. Forma e conteúdo em pleno uníssono.

 


Chegados aos instante finais, cientes da tragédia que se abaterá sobre os nossos mosqueteiros, é com tremendo gáudio que contemplamos mais um instante de sublimação e transcendência, daqueles que apenas o cinema consegue proporcionar. Após uma vida dedicada ao Rei, D’Artagnan poderá enfim descansar junto dos seus companheiros. The Iron Mask constitui-se assim enquanto filme charneira nas carreiras de Allan Dwan e Douglas Fairbanks. O realizador norte-americano, que aqui experimenta pela primeira vez a utilização do som em duas breves sequências, iria continuar a demonstrar toda a sua arte nos talkies, ao contrário do consagrado ator que não resistiu à transição para esse novo mundo. 
O momento da morte e ascensão do protagonista é premonitório do destino de Fairbanks, mas a última imagem que nos deixa é o culminar do génio que tantas alegrias trouxe aos espectadores. Um por todos e todos por um.


The Iron Mask
é apresentado esta sexta-feira, dia 25 de Setembro, na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” – acompanhamento ao piano por David Schvetz.

 

Bruno Victorino