O imaginário de infância da minha geração foi marcado pela prevalência significativa do universo de Alexandre Dumas no ecrã. Para além da série de animação D’Artacan y los Tres Mosqueperros (1981) – D’Artacão e os Três Moscãoteiros, em Portugal -, recordo-me perfeitamente que uma das minhas primeiras incursões à sala de cinema, para assistir a um filme que não de animação, foi com The Man in the Iron Mask (1998), de Randall Wallace, no saudoso Olivais Shopping. O fascínio com os Romances de D’Artagnan era de tal ordem, que inspirou inclusive um disfarce carnavalesco algures na minha juventude. Mas, para além da inerente nostalgia, o que é que esta afinidade significa quando nos deparamos pela primeira vez com a versão centenária de Allan Dwan da última parte do terceiro tomo da trilogia sobre os Mosqueteiros? Valerá pouco na apreciação cinematográfica da obra, mas não deixa de trazer algum conforto e familiaridade por estarmos perante uma narrativa que nos é tão próxima, possibilitando que nos foquemos nas escolhas de encenação do cineasta. Por outro lado, permite-nos fixar novas imagens na memória, até então impregnada pelo retrospectivamente medíocre filme de Wallace.

Para lá das intrigas palacianas que cedo se desvendam, a primeira parte do filme detém-se fundamentalmente na comédia física que Dwan consegue extrair das peripécias de D’Artagnan (Douglas Fairbanks) junto de Constance e dos seus camaradas de armas Athos, Porthos e Aramis. Fairbanks incorpora esta fisicalidade de forma sublime, seja na astúcia com que consegue roubar um beijo à sua amada ou com que maneja a sua espada. É particularmente admirável, por exemplo, o momento em que o protagonista trepa uma enorme árvore, procurando entrar num Mosteiro em socorro de Constance, façanhas que em nada ficam a dever às acrobacias burlescas de Buster Keaton. O tom leve e divertido do quotidiano de D’Artagnan, envolto em circunstâncias de romance profundo e sã camaradagem, contrasta com a austeridade presente nas cenas onde predominam as conspirações do Cardeal Richelieu.

A liberdade caótica inicial, que a mise-en-scène tão bem acompanha, é substituída paulatinamente pela gravidade que se vai abatendo na trama. A arquitetura dos espaços confinados que cercam os personagens, a utilização magistral da profundidade de campo e o jogo de luz e sombras são paradigmáticos da destreza do realizador em envolver o espectador no novelo narrativo, capaz de encontrar soluções visuais inusitadas que ilustram o desenrolar dos acontecimentos. O exemplo mais flagrante poderá ser testemunhado no momento da substituição do Rei em exercício pelo seu irmão gémeo. O plano geral (em baixo) tem o condão de conjugar a geografia do espaço (as escadas que ascendem ao trono vs a profundidade das catacumbas), com a utilização expressiva de sombras que pairam ameaçadoras sobre o futuro daquele país. Forma e conteúdo em pleno uníssono.

Chegados aos instante finais, cientes da tragédia que se abaterá sobre os nossos mosqueteiros, é com tremendo gáudio que contemplamos mais um instante de sublimação e transcendência, daqueles que apenas o cinema consegue proporcionar. Após uma vida dedicada ao Rei, D’Artagnan poderá enfim descansar junto dos seus companheiros. The Iron Mask constitui-se assim enquanto filme charneira nas carreiras de Allan Dwan e Douglas Fairbanks. O realizador norte-americano, que aqui experimenta pela primeira vez a utilização do som em duas breves sequências, iria continuar a demonstrar toda a sua arte nos talkies, ao contrário do consagrado ator que não resistiu à transição para esse novo mundo. O momento da morte e ascensão do protagonista é premonitório do destino de Fairbanks, mas a última imagem que nos deixa é o culminar do génio que tantas alegrias trouxe aos espectadores. Um por todos e todos por um.

The Iron Mask é apresentado esta sexta-feira, dia 25 de Setembro, na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” – acompanhamento ao piano por David Schvetz.



