The Curse of the Cat People (1944) – As crianças da RKO II

Eduardo MagalhãesJulho 16, 2025

Sequela em espírito, sequela em nome. Nas poucas vezes em que “The Curse of the Cat People” (1944) é discutido, perde-se tempo na ligação com “Cat People” (1942), o filme de Jacques Tourneur que o precede. Acresce a dúvida sobre a quem recai o mérito da construção cénica. Se a Gunther von Fritsch, realizador que terá filmado cerca de metade do argumento na totalidade do tempo de filmagem previsto, se a Robert Wise, o montador tornado realizador assim que Fritsch foi despedido, se a Nicholas Musuraca, o director de fotografia do original, bem como de outros títulos emblemáticos da RKO e que, mais tarde, tornaria a filmar com Tourneur o clássico “Out of the Past”, ou, e a crítica e historiografia apontam nesse sentido, se a Val Lewton, produtor criador desta saga felina e de outros títulos (“I Walked with a Zombie”, “The Leopard Man”, “The Seventh Victim”) tidos nos anais do cinema como partes de um mesmo mosaico.

The Curse of the Cat People” tem permanecido sobre a bruma destas associações e de alguns elogios à qualidade da sua atmosfera. Porém, a intertextualidade não parte pela recriação da tensão ou dos silêncios do filme de Tourneur. Ao colocar Amy (Ann Carter), a jovem protagonista da sequela, em diálogo secreto, pois nenhuma outra personagem tem acesso a este, com Irena (Simone Simon), a falecida protagonista do primeiro, o filme prescinde do déjà vu – tantas vezes marca de sequelas.

Amy deseja um amigo. No primeiro acto, vemo-la sistematicamente isolada e perdida aquando em grupo ou em família, e preenchida no recato do jardim iluminado pela sua imaginação. Assim que surge Irena, fruto de sonhos ou alucinações, o filme pára. Do casulo emaranhado pela estranheza de Amy para os braços de uma “frendship only we shall have”. Asas de dragão e brincos de princesa, na leveza da fantasia que salta das páginas dos livros, como que um jardim transformado em gineceu fértil, em palavras mágicas e partidas.

Extremamente importante, o filme insiste em planos gerais do espaço de lazer de Amy (e Irena). O trabalho de luz, que não age necessariamente como forma de súbita reinvenção do espaço, acaba por pontuar a fragilidade do mesmo. Irena fala da chegada do Inverno, de um quente virar de página. Logo, pelo chão literal da mise-en-scène, as folhas caídas dão lugar ao manto da neve. À árvore despida do jardim contrapõe-se a árvore natalícia muito bem ornamentada, às vozes canoras dos carolers que batem à porta responde Irena, lá longe, no firmamento de uma balada antiga.

Uma proximidade distante, simultaneamente real e fictícia, na qual ecoa uma verdade que escapa à genética. Irena foi a primeira mulher do pai de Amy, padecia de uma malaise não muito diferente de a que aflige a menina, os mesmos ocasos, as mesmas ausências, sabemos isto mesmo sem ver o filme de Tourneur. Daí a insolvabilidade do caso, Irena não é nada a Amy e no entanto… Embora rotulado como um filme de horror, parece que o drama do passado dos pais com Irena (ação em “Cat People”) voltou como feitiço e contemplação em Amy (espaço em “The Curse of the Cat People”).

A urgência de Amy em estar com Irena parte da sua curiosidade e desejo de uma comunicação por uma linguagem distinta da habitual. Não há uma, mas quatro figuras paternais no filme. Se todas elas, o pai, a mãe, o mordomo Edward e a professora, primam por um cuidado e atenção na abordagem aos intentos da rapariga, todos falham em cativá-la. Só Edward (Sir Lancelot) escapa à vulgaridade de uma leitura estritamente pedagógica ou psicológica da diferença de Amy. O mordomo compreende o fascínio pelo esotérico, permitindo, pese embora a transgressão que naturalmente leva a advertência, que a pequena assista à encenação improvisada da história de Sleepy Hollow por uma velha actriz, dona de uma casa pela qual Amy se aventurou num dos seus muitos desvios.

Podemos ver o aparecimento de Irena e a consequente interação com Amy como o elemento imprevisível do filme. Em parte, quebra até alguma linearidade narrativa. Note-se que a tentativa de explanar o problema de Amy nas conversas entre os adultos é sempre muito curta. Os passos dados para uma suposta resolução desinteressam-nos. Mais forte e no campo da abstração, a tal conversa entre as duas protagonistas ultrapassa as fronteiras do domínio científico.

A atribuição de perversão é ambígua. Irascível, o pai de Amy rejeita qualquer pensamento ou ação fora do eixo da normalidade, leia-se da forma como entende a realidade. Amenizando uma ou outra tirada, a mãe acaba por secundá-lo. Ambos parecem assustados com as visões da filha e, num dos trunfos do filme, com um ligeiro ciúme das mesmas. Pense-se na cena em que o pai está decidido em corrigir a filha, forçando-a a negar a existência da amiga. Recorde-se o impulso para destruir qualquer vestígio da presença de Irena na vida dos pais.

Para Val Lewton, a infância não renuncia o desconhecido, a idade adulta nega-o peremptoriamente, daí o horror da sua hipótese. Adultos como grandes inquisidores, crianças como hereges. Importa manter o oculto para lá das trevas, mas Irena irrompe em celebração numa pequena fogueira pagã.

Outra obsessão de Lewton era o rosto de Elizabeth Russell. No papel de filha da velha actriz, Russell tem uma pequena e decisiva participação. Tal como noutros filmes de Lewton, o seu rosto felino desperta a rejeição de outras personagens. À deriva, a sua figura franzina e os seus olhos desdenhosos não constituem uma personagem ou uma performance. Não será desavisado considerar que o contributo de Russell, sobretudo no confronto mudo com Amy pela atenção da velha, é de uma presença totémica como o pulsar de um espírito triste ou uma pincelada europeia numa tela do novo mundo. Este e outros pequenos sinais, do esmagar de uma borboleta à troca de anéis como amuletos, compõem a perturbação do filme.

Como em “Cat People”, em “The Leopard Man” ou em “The Seventh Victim”, Curse tem na morte um corolário. Não como sinal de pontuação, não como desfecho do enredo, não. A morte ganha aqui outra chama. Neste filme-poema, que se desenlaça numa toada natalícia, há um abraço súbito entre o esgar de Russell e o receio de Amy. Ainda mais incrível, face à inesperada hora final presenciada por ambas, a criança desafia a adulta e desata: “My friend? My friend? My friend…My friend.” Corta para o plano lá fora, onde luzes procuram o rasto, quase como se ouvíssemos vozes (Onde pára agora Irena?).

No fundo, cada qual escolhe a janela por onde espreitar. Amy, fruto da performance genuína de Ann Carter, que já tínhamos visto em Child of Divorce lamentar por uma janela: “I’ll guess we’ll just have to wait“, vê pelo patamar da infância. A diferença está no absoluto. O filme só poderia resultar assim, no superlativo, sem temer ou antever consequências. Vendo pela janela, como o poeta que via pela clavícula de uma lebre, visão achada à tona da água:

Come away, O human child!
To the waters and the wild
With a faery, hand in hand,
For the world’s more full of weeping than you can understand.

 

 

Eduardo Magalhães