The Big Parade (1925), de King Vidor – Uma Pastilha e Um Cigarro

Bruno VictorinoJaneiro 29, 2026

King Vidor inscreve-se na extensa lista de realizadores norte-americanos inexplicavelmente relegados para segundo plano face aos nomes canonizados. Felizmente, a programação da Cinemateca Portuguesa tem tido o mérito de iluminar essas franjas mais obscuras da Hollywood clássica. Também o ciclo Viagem ao Fim do Mudo se tem distinguido pela sua abrangência: sem descurar os clássicos incontornáveis, vai além do óbvio e do previsível. O caso concreto de The Big Parade é particularmente caricato. O filme foi recebido de forma apoteótica à época, tendo sido durante muito tempo um dos maiores sucessos comerciais da MGM e o mais lucrativo de todo o período mudo. E, ainda assim, permanece hoje relativamente ausente do discurso canónico.

Há vários filmes na história do cinema que souberam navegar entre distintos géneros sem comprometer a coerência e o tom, e The Big Parade é um dos exemplos mais notáveis. A sua estrutura divide-se claramente em duas partes: a estadia das tropas em Champillon e a inevitável chamada para a linha da frente. É difícil determinar qual delas provoca maior impacto e a verdade é que uma não subsiste sem a outra.

O pequeno paraíso à beira-rio de Champillon oferece-nos uma sucessão de episódios memoráveis onde, aparentemente, quase nada acontece que faça mover a narrativa. Partie de Campagne (1946), de Jean Renoir, só surgiria duas décadas mais tarde, mas é difícil não estabelecer a associação. Assim que assentam praça na pequena localidade, começa a florescer uma amizade entre três camaradas: Jim (John Gilbert), Bull (Tom O’Brien) e Slim (Karl Dane), conterrâneos, mas oriundos de estratos sociais distintos. A cena em que partilham um bolo funciona como símbolo dessa crescente cumplicidade. Tanto esse momento como o extraordinário episódio do barril/chuveiro (antecedido por um hilariante intertítulo: “After an hour of his best sign language, convincing the wine-shop keeper that he wanted a barrel, and not a fat girl, Jim started on his way back.”), poderiam ter sido retirados de um filme de Charlie Chaplin ou Buster Keaton, tal é a mestria de Vidor no uso da comédia slapstick.

Sem nunca perder um leve pendor humorístico, desponta ainda em Champillon o romance entre Jim e Melisande (Renée Adorée), jovem francesa habitante local. A cena em que Jim lhe ensina o que é uma pastilha elástica, recorrendo quase exclusivamente à linguagem gestual e ao auxílio de um pequeno dicionário, representa o epítome da capacidade da linguagem cinematográfica em expressar uma emoção. Também a despedida, inevitável e devastadora, figura entre os momentos mais dilacerantes do filme: a procura desesperada de um pelo outro no meio da azáfama das tropas em mobilização culmina com Melisande agarrada ao veículo em movimento, sendo arrastada por ele, impotente perante o curso do destino.

É precisamente com a mudança de cenário que o tom do filme se transforma, subsistindo apenas alguns breves apontamentos cómicos, sobretudo graças à presença em cena de Slim. Os planos impressionantes da interminável coluna de veículos militares, irrompendo pelo centro do enquadramento, conduzem-nos até ao desembarque na linha da frente. Aí, acompanhamos os protagonistas a avançar entre as árvores sob fogo direto inimigo, impávidos perante o tombar sucessivo dos que, ao seu lado, marcham rumo a uma morte quase certa.

Mais tarde, já entrincheirados, ocorre a cena que estabelece o contraponto perfeito com a primeira parte do filme, espelhando o momento da partilha da pastilha elástica entre Jim e Melisande. Num dos gestos mais profundamente humanistas e abertamente antibelicistas do cinema mudo, Jim avança para uma trincheira ocupada por um soldado alemão, pronto a neutralizá-lo, mas detém-se ao perceber que este se encontra gravemente ferido. Em vez disso, oferece-lhe um cigarro, que fica por terminar: o inimigo sucumbe ao triste fado. Estabelece-se assim o contraste definitivo entre o florescimento da vida e do amor em Champillon com a vida que se esvai na frente de batalha, às mãos do maior desastre da humanidade: a guerra.

The Big Parade permanece, mais de um século depois, como um dos mais poderosos testemunhos da capacidade do cinema mudo para transmitir emoções sem recorrer à palavra. O que começa como um retrato idílico da camaradagem e do despertar amoroso transforma-se numa meditação sobre a fragilidade da vida perante a máquina impessoal da guerra. No final, fechado o ciclo, permanecem fundamentalmente estes pequenos gestos de partilha filmados magistralmente por King Vidor, e a capacidade para fazer rir, chorar e voltar a rir, com a naturalidade reservada aos grandes mestres.

The Big Parade é apresentado esta quinta-feira, dia 29 de Janeiro, na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” – acompanhamento ao piano por Daniel Schvetz

 

Bruno Victorino