Uma família, de pai e filho, tenta sobreviver ao abandono da mulher e mãe, enquanto uma aldeia inteira tenta ultrapassar a dor de uma tragédia coletiva que provocou várias vítimas. Terra Vil é a estreia de Luís Campos em longa-metragem e é um olhar sobre a sobrevivência das gentes e dos lugares esquecidos de Portugal, com a tragédia de Entre-os-Rios em pano de fundo.

João (William Cesnek) é um miúdo que vive com o pai António (Rúben Gomes) numa rotina sombria depois da mãe os ter abandonado. A pesca da lampreia, cada vez mais ameaçada, é o modo de subsistência dos dois, mas é também uma forma de o pai se manter alheado e afastado do mundo que o rodeia. António é um homem zangado que se refugia no álcool e só mesmo a vizinha Teresa (Lúcia Moniz), com quem partilha o negócio da lampreia, parece trazer alguma luz à vida de pai e filho.
A partir deste gancho dramático e ficcional, Luís Campos constrói uma história que se desenrola numa aldeia marcada por um evento trágico, esse sim real: a queda da ponte Hintze Ribeiro que ligava Entre-os-Rios a Castelo de Paiva, que ocorreu há 25 anos e causou 59 mortos. No filme, a aldeia ainda chora as vítimas, entre as quais o marido de Teresa. Terra Vil desenvolve-se a partir das feridas abertas por uma tragédia coletiva, do que resta quando se perde alguém, seja por um acidente como a queda da ponte, seja por um divórcio, como acontece na vida de João e do pai António. O filme tem as cores do luto, envolto num permanente nevoeiro natural (que a fotografia de Pedro Patrocínio faz sobressair), soturno e quase fantasmagórico. É o peso da tragédia que se abate sobre uma região que, passados tantos anos, continua a tentar sarar a dor depois de ter caído no esquecimento do resto do país e de ter deixado de ser tema nos blocos de informação das televisões. Luís Campos sabe gerir a dimensão dessa dor que atravessa a dinâmica daquele lugar, onde se cumprem rituais religiosos para evocar os mortos e a passagem do tempo sobre a tragédia da queda da ponte. O filme não sucumbe ao evento real, da mesma forma que a vida em Entre-os-Rios não sucumbiu à tragédia.
Na história deste pai e filho há, apesar de tudo, espaço para a luz da reconstrução. Lúcia Moniz, com a sua personagem Teresa, é a prova de que é possível recuperar e a evidência de que a vida não pode ficar refém do sofrimento. Teresa ficou sozinha com duas filhas, mas não perdeu a capacidade de seguir em frente. É também ela que acompanha, protege e cuida do pai e do filho deixados sozinhos. Num dos raros momentos de luminosidade no filme, num piquenique à beira-rio, António transforma-se num homem capaz de descontrair e divertir-se, e o filho, João, pode finalmente ser um rapaz amparado por uma família que Teresa se esforça por manter intacta, apesar de ter perdido o marido.

Há lugar para a esperança no filme de Luís Campos, que consegue dosear o otimismo de um futuro mais radioso com a carga dramática do passado atravessado pela tragédia local. Terra Vil é também o retrato de um Portugal que resiste, ou às vezes nem tanto, ao desinteresse e ao esquecimento a que está destinada a paisagem rural do país.
Talvez a única falha possível de apontar a Luís Campos nesta primeira longa-metragem, depois de três curtas, seja a vontade de tratar demasiados temas e ideias num único filme. O luto, a família, a sobrevivência, mas também a sustentabilidade do planeta, cada vez mais ameaçada e aqui aflorada na profissão do pescador de lampreias, ou uma masculinidade perpetuada em determinados meios que impede os homens de assumirem as suas fragilidades, como é o caso de António, abandonado pela mulher. Luís Campos não perde o foco, mas desvia-se da possibilidade de trabalhar mais profundamente uma narrativa ficcional a partir de um elemento real e de um território natural, à semelhança do que fez Teresa Villaverde no filme Justa, a partir das histórias dos que sobreviveram à tragédia dos incêndios de Pedrógão Grande. Ainda assim, Terra Vil é um filme envolvente e que abre caminho para descobrir um novo olhar no cinema português.
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