Tartüff (1925) de F. W. Murnau – Os Filmes Dentro dos Filmes

Rafael FonsecaJaneiro 8, 2026

Segundo a Fundação F. W.  Murnau, Tartüff teve a sua estreia mundial no dia 20 de Novembro de 1925, em Viena, sendo a estreia alemã dia 25 de Janeiro de 1926. Isto coloca-nos precisamente, à data de escrita e publicação deste texto, à distância de um século: o cinema tem cem anos.

O cinema não tem cem anos: quem o diz é Jonas Mekas, num videopoema, manifesto de alguns minutos que encerra a sessão de Tartüff na Cinemateca Portuguesa esta sexta-feira. A intersecção é especial: Tartüff é o mais recente capítulo desta nossa Viagem ao Fim do Mudo ao leme da Cinemateca; integra igualmente o Ciclo Uma Cinemateca em Chamas – Histórias de Projeção e Projecionistas, composto por filmes que «ora refletem sobre a sua própria materialidade, ora refletem sobre os seus modos de exibição, ora ainda saúdam, recordam ou mitificam o espaço da sala de cinema como espetáculo popular – “o” espetáculo popular – que definiu a cultura do século XX.» Pois Tartüff, como veremos, é um filme dentro de um filme, desencadeado por um protagonista que se disfarça de projeccionista para ensinar uma lição que vê impossível por outros meios… 

“O cinema tem cem anos”, pensei, na sala grande da Cinemateca, consciente da fisicalidade de ver Tartüff em silêncio, numa projecção de teste de uma cópia em 16mm em estado menos que ideal, com um ocasional traço negro na parte superior do frame e uma estranha textura negra na margem direita que pareceu surgir e crescer ao longo do filme. (Não faria sentido num Ciclo dedicado aos projeccionistas exibir o filme em DCP). Nestes testes de visionamento, não existe o acompanhamento ao piano das sessões com público; fora os sons das obras que decorriam fora da sala, só se ouvia mesmo o barulho agora tão alto da cabine de projecção. 

“O cinema não tem cem anos”, pensei, duas noites depois, a entrar no metro na Baixa-Chiado, a rever Tartüff num upload de Youtube no meu telemóvel. Era talvez a única pessoa a rever um Murnau naquele comboio, e já em casa, mais tarde, pensei, onde é que se sente a idade, realmente? Dez minutos passados desde o início do filme, vemos o nosso protagonista a virar-se para “nós”, e a dirigir-se à câmara para nos falar, não sem antes espreitar pela rua a ver se alguém estará a “ver”. O jovem, que tem a profissão de actor, acabou de ser expulso da casa do seu avô, fruto das acções de uma governanta que, compreende, “ensaboou” bem o velho homem. A mulher, visando obter as posses do velho, bajula-o diariamente, conseguindo com que este acredite na sua boa-fé. A artimanha está por esta altura completa: o idoso acaba de preparar uma carta ao seu notário, informando-o que soube que o neto se encontra a viver uma vida “indigna e dissipada”, tendo pois decidido deixar tudo o que tem à boa senhora que lhe cuida da casa.

“Vocês que testemunharam esta cena”, diz-nos o actor, em intertítulo, “não achem que vou agora sair de fininho. Voltarei para livrar o meu avô desta hipócrita.” E sai de cena.

O actor (André Mattoni) repara em nós;
Ninguém à vista: é seguro falar connosco;
“Não achem que vou agora sair de fininho..!”

O velho, a governanta, e o início da carta ao notário, em versão original e em inglês;

O neto, disfarçado (vemo-lo colocar cabelo e barba falsos), voltará à casa enquanto dono de um “Wanderkino”, um cinema ambulante, a vender os seus serviços de entretenimento à velha que, percebeu facilmente, é susceptível à mais barata das graxas: “mas, minha bela senhora…” — diz-lhe, quando esta responde da janela “não queremos nenhum cinema!” — “bela senhora…”, e esta, lisonjeada, vai ao quarto pôr-se bonita para lhe abrir a porta.

Está explicado o “dispositivo” de Tartüff (1925). O que o projeccionista ambulante irá exibir na casa do avô, que ocupa grande parte da hora do filme, é uma adaptação de Tartüff, peça de teatro de Molière, do século XVII, a que Murnau retira todas as personagens e tramas secundárias, focando-se no essencial: a história da senhora Elmire, acompanhada da sua criada Dorine, única personagem secundária, que aguarda o seu marido, Senhor Orgon de uma longa viagem.

A apresentação “do filme” e das suas personagens;
Já “no filme”, Orgon chega a casa da sua viagem;

Sucede que Orgon, no decorrer do seu tempo fora, conheceu um religioso de grande austeridade pelo qual se parece ter fascinado de forma profunda. Agora regressado, espera Tartüff, “o seu amigo” e “um homem santo” a quem indicou que viajasse a sua casa. Para o receber, prepara o oposto de uma recepção faustosa: indica aos criados que removam tudo o que é adereços da casa, pois Tartüff não gosta de luxos. Indica-lhes até que apaguem as muitas luzes da casa, porque Tartüff não gosta de extravagâncias. Não beija a sua esposa, Elmire, felicíssima de o ver, pois Tartüff ensinou-lhe que é pecado. Finalmente, despede todos os criados, menos uma pessoa, Dorine, para que esta possa receber o tão aguardado homem. Elmire, personagem de uma extraordinária perspicácia, vê de imediato e com clareza o mal que se abate sobre Orgon: “Já não o reconheço. É uma pura loucura religiosa”.

De manhã, Tartüff recusa-se a comer o pequeno-almoço que Orgon preparou até que antes cumpram as rezas matinais;

Para Elmire e Dorine, isentas deste fascínio inexplicável (uma cegueira), rapidamente se acumulam evidências do abuso por parte de Tartüff em relação ao senhor da casa. A criada encontra recibos na carteira de Orgon de repetidas doações, em valor cada vez maior, de quantias “aos pobres”, por intermédio de Tartüff. Elmire vai encontrar o marido junto de uma cama de rede onde o suposto padre dorme no jardim, a embalar este com uma mão enquanto lê com outra, a afugentar moscas, e a tapá-lo com mantinhas. A figura é lastimável. O livrinho na mão de Orgon não são versos religiosos, mas palavras do seu amigo: “Sobre a vaidade das coisas terrenas: o amor da tua mulher e das outras pessoas tem de se aproximar a nada quando comparado com o amor que me deves. O teu amigo sagrado, Tartüff”.

Como o avô do nosso protagonista, lá fora, no outro filme, não vê a falsidade e a má-intenção da sua cuidadora, que o virou contra o neto e contra os seus interesses-próprios, também Orgon não consegue ver a verdadeira natureza, tão escarrapachada, de Tartüff. A moral apregoada pelo impostor (no original de Molière, “faux devót”, falso devoto, na tradução portuguesa de 1768 “jesuíta hipócrita”, alteração com razões políticas sem o vago e universal de Molière que “permite ultrapassar tempos, modos e mentalidades” [A. Ferreira de Brito]) é uma desculpa para roubar Orgon de tudo o que tem.

É a esta conduta podre e venal, este engano tão desesperante, tanto no caso ficcional como na sala onde decorre a projecção, tão urgente de dissipar — o neto, antes de dar início ao filme, percebeu que a governanta envenena a bebida do avô, tal como Orgon, na história, está quase num ponto de não-retorno — é a esta conduta, dizíamos, que se contrapõe a absoluta força moral dos nossos heróis, e isso é realmente sumptuoso neste filme. Elmire diz a Orgon: “Esta pessoa está-te a enganar. Pensa em quão felizes éramos. Amo-te!”. A sua missão, de acordar o esposo para a realidade das coisas, este único vector da sua personagem, não a torna “unidimensional” nem nada que se assemelhe, mas uma personagem extraordinária, de um poder ético fortíssimo, singular, movida sem hesitações pela tarefa de desmascarar um de dentro do “grande número de hipócritas na Terra (…) que podem estar sentados ao nosso lado”, de que os intertítulos iniciais de Tartüff falam (o filme, afiado até ao fim, termina com as seguintes palavras: “e tu, sabes quem está sentado ao teu lado”?).

Para poder salvar Orgon, a integridade dele, a sua vida em conjunto, Elmire está disposta a tudo, e é tão forte esta sua entrega, sem reservas, à sua missão. Para expôr rapidamente ao marido a verdadeira natureza de Tartüff, convence o falso padre de que está apaixonada por ele e de que se devem encontrar sozinhos; e mesmo quando o religioso descobre a artimanha, através de um reflexo numa jarra, naquele que é um dos planos mais estupendos do filme, Elmire duplica os seus esforços: “não há outra maneira”, diz à criada, única aliada — “tenho de arriscar tudo para salvar o meu marido”.

Nessa noite, implora ao religioso que vá ter ao quarto com ela, e consegue finalmente que o ogre se revele, arriscando, de facto, tudo: Tartüff, a empanturrar-se de bebida, prepara-se para fazer com Elmire, quieta e fixa em sítio, aquilo que quiser. Do outro lado da porta, em segredo, a criada trouxe Orgon para espreitar pelo buraco da fechadora: “Vede, para que sejais curado!”. Assim que Tartüff se despe, a senhora, confiando em absoluto no amor do marido e na lealdade da criada, sabendo que estão do outro lado da porta, foge para a abrir: “E agora, já acreditas, Orgon!?”

Orgon, convocado, prepara-se para ver;

Tartüff é espancado e foge. Orgon, acordado do seu estupor, ajoelha-se nos braços de Elmire, em comoção. O filme acaba, e o projeccionista volta a acender as velas da sala, iluminando o rosto da governanta que o via. É aquele “Olhe, para que seja curado!” com que a criada exortou Orgon que é repetido aqui: para este outro ogre, “Tartüffina”, como lhe vão chamar as crianças na rua — (“desde esta altura em diante, todos os hipócritas se passaram a chamar Tartüff!”, explicara o projeccionista), que irá perceber que foi apanhada em flagrante, e para o avô, que compreenderá que deixou alguém aproveitar-se dele, roubá-lo, e quase matá-lo: o veneno é revelado, e “Tartüffina” expulsa para as ruas.

A luz da sala acende-se no final da projecção;

Penúltimo plano do filme: “Estava cego? Como é que pude confiar tanto naquela pessoa?”; “Querido avô, contra os hipócritas, nenhum de nós está imune”.

O neto, o actor, ou o projeccionista, esta personagem que encara com seriedade os seus três papéis, é mostrado como um indivíduo de carácter moral tão forte, tão direccionado, tão puro quanto Elmire a tentar despertar o marido, se não mais, pois ao contrário da personagem da história, é real. Há um pormenor maravilhoso no filme, presente num dos primeiros planos, em que vemos a governanta, ao levantar, ainda antes de atender o velho, dar um pontapé nos seus sapatos — precisamente antes sequer de o ver, ou seja, sem ser despoletada por nada além do seu podre interior. Em reverso, quando o neto entra em casa pela primeira vez, ainda sem disfarce, a primeira coisa que faz é endireitar os sapatos do avô, antes sequer, igualmente, de o ver: uma ilustração clara do carácter dos dois. Tartüff é uma obra de verdadeiros heróis, figuras altruístas, connosco aqui na Terra para estarem de guarda contra as pessoas más. Neste belíssimo filme, e muitas vezes na vida, as coisas são tão simples como isso.

O cinema tem cem anos? Como pode ser, se este Murnau é tão moderno — tão necessário, uma palavra tantas vezes usada ao desbarato. São tão de agora estas emoções, estas manhas, as coisas eternas. Jonas Mekas escreve, no filme que a Cinemateca apresenta: “Não, o cinema não tem cem anos, o cinema é jovem, o cinema está sempre a começar, sempre a começar (…) para nós o cinema está a começar com cada mmm zumbido do projector, mmmmmmmmmm, com cada zumbido das nossas câmaras, os nossos corações saltam para a frente, meus amigos!”

Elmire chora sobre uma fotografia de Orgon, no filme projectado em Tartüff (1925);
Espectadores na Serpentine Gallery, em Londres, 2007, a ver Cinema Is Not 100 Years Old (1996) de Jonas Mekas;

Tartüff é apresentado esta sexta, dia 09 de Janeiro, na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” – acompanhamento ao piano por Filipe Raposo 

 

Rafael Fonseca