Superman, de James Gunn: Ser Humano

Miguel AllenJulho 10, 2025

Enquanto comprava bilhetes para a família assistir à sétima (sétima!) iteração do universo «Jurassic», olhava distraidamente para as estreias anunciadas num escaparate com aspecto escolar. O panorama era o que preenche invariavelmente as propostas de cinema popular contemporâneo: novas versões, mais sequelas e os chamados «spin-offs». Um novo Os Mauzões (de Pierre Perifel) talvez fosse o filme que mais bem justificasse a sua presença por entre aquelas promessas; Freakier Friday (de Nisha Ganatra) será uma das mais improváveis e, necessariamente, imbecis sequelas de sempre; Drácula de regresso meros meses após Nosferatu, de Eggers, para mais uma leitura pessoal da obra de Bram Stoker por outro «autor», desta feita Luc Besson; e, ao centro, inevitavelmente, um novo Superman, primeiro ensaio da transformação da DC pela mão de James Gunn.

A estratégia da DC com este filme é evidente: chamar uma voz reconhecida pela sua abordagem mais fresca, ainda que comercialmente viável, ao género fantástico para relançar um universo que se implodiu comercial e artisticamente. Se a força do DCU se destacara, a dada altura (por volta de 2016), do império da Marvel pela sua noção de «autor» – não indo forçosamente buscar ao hoje gigantesco Christopher Nolan, podemos alegar que era esse o caso de Snyder -, essa distinção (apesar de tudo, qualitativa, num contexto onde qualidade é fruto raro) seria determinadamente anulada pelos seus rivais, que, depois de Endgame (Russo, 2019) tentariam, por seu lado, uma reinvenção (em tudo falhada) através do cunho de “autores” reconhecidos pelo grande público – a improvável Chloé Zhao, o icónico Sam Raimi ou o atrevido (e intragável) Taika Waititi.

Da destruição do magnum opus de Zack Snyder (com Justice League, de 2017) pela mão de Joss Whedon – essa hand for hire, realizador de alguns capítulos bem aborrecidos da MCU – a uma potencial (mas improvável) reinvenção do DCU por James Gunn – a voz mais irreverente do universo Marvel -, a conduta da DC é curiosa, para dizer o mínimo. Se esta mais recente jogada não foi desprovida de sentido, mais dúvidas teremos de que James Gunn (hoje na posição de CEO da DC Studios) tenha verdadeiramente o alcance, ou o talento, para levar o gigante comics a outros níveis criativos e populares. De começo brincava-se que as tendências mais marginais de Gunn o levariam a preferir criaturas menos prováveis da história da DC aos seus repetidos e repetitivos super-heróis mais emblemáticos. Clayface e Swamp Thing encontram-se efectivamente na linha de montagem… mas claro que, em 2025, um novo capítulo se anuncia com a chegada de um velho símbolo, e aqui estamos com Superman.

David Corenswet

É certo e sabido, e voltamos ao princípio deste texto, que o universo ficcional do cinema de massas está determinadamente esgotado. Que poderemos, então, esperar de uma quarta “grande” versão de Superman? Depois de Christopher Reeve por Richard Donner e Richard Lester, depois do “regresso” do herói por Bryan Singer, e depois do implacável Man of Steel (2013) de Snyder (com produção de Nolan), trata-se provavelmente do super-herói mais amplamente cristalizado no imaginário popular – uma figura que já morreu, ressuscitou, se rebelou, e sempre regressou com o mesmo sorriso imperturbável. Uma personagem cuja história e origem já passaram pela mão de inúmeros autores e por inúmeros formatos, uma figura pop inevitavelmente prisioneira da sua própria imagem de marca e simbologia política.

 

Is it gettin’ heavy?
Well I thought it was already as heavy as can be

À chegada, a versão de Gunn assume-se, desde logo, como “um regresso”. Este Superman não será tanto uma sequela, mas sobretudo um filme “novo” que surge e existe na continuidade de uma iconografia hoje gravada no imaginário popular. Como nos explica a introdução, sobre imagens da paisagem branca do Ártico, estamos nisto “há três séculos”, e de pouco nos serve (assume-se…) reencenar uma história que todos conhecemos bem. O filme abre, então, in media res, com um Super-Homem (David Corenswet) não só já herói planetário, como figura ao centro de uma crise política e, sobretudo, a meio de um combate que parece estar a perder. Prontamente se tratará aqui de varrer todos os pontos essenciais da narrativa do filme. Enfraquecido, o nosso herói cai sobre a neve polar e aproveita a ajuda de um Super-Cão (sim… mas em CGI) para aceder à sua secreta e famosa Fortaleza da Solidão (que neste filme não tem nome), onde será tratado por uma turma de robots, enquanto assiste ao vídeo que lhe resta dos seus pais, quando ainda em Krypton. Rapidamente curado por efeito da luz solar, Super-Homem zarpa para levar nova sova de um tal “Martelo da Borávia” – a Borávia, precisemos, quer destruir o nosso meta-humano desde que este lhes impediu (sem vítimas mortais!) a invasão da nação vizinha de Jarhanpur. A inevitável derrota de Super-Homem perante aquele novo vilão de sotaque forçado (uma nova SUPER ameaça) deixará os pobres habitantes de Metropolis algo divididos quanto à gestão de política internacional por parte do seu herói imperial. E segue-se o filme.

Confuso? É simples, tudo terá sido orquestrado pelo malvado Lex Luthor (conhecemo-lo bem, claro). Entre um império multi-milionário de produção e venda de armas, a criação de um utópico “pocket-universe” secreto (cuja existência poderá desencadear a destruição do planeta!), e a formação de um exército com o qual pretende substituir os meta-humanos, Luthor fomentou uma obsessão fatal por Super-Homem, ao ponto de saber antecipar todos os seus gestos, enquanto controla, através de uma turma de gamers altamente desenvolvida e altamente desresponsabilizada, os ataques do seu “Martelo” (que afinal se chama Ultraman, mas que afinal é ainda outra coisa, mas isso é segredo).

Não insistamos em subsequentes aspectos narrativos da trama, porque mesmo Gunn parece assumir que esta história é demasiadamente complicada para o filme que imaginou. De facto, Gunn tanto parece recorrer a (mesmo) muito para explicar um qualquer evento menor, quanto insiste em fugir a quaisquer “obrigações” no contar da sua história. O realizador concentra-se então nos valores mais celebrados das suas obras precedentes – “aquele” humor, um espírito relativamente geek, algo insolente, e sobretudo uma importante tendência humanista dentro do género fantástico. Ainda que recorrente e insistente, por vezes em demasia, o humor serve-lhe, afinal, para fazer descer essa figura imperial de um super-ser ao nível daqueles que diz serem os seus pares – vontade essencial desta versão. Em Superman, o nosso herói assume, acima de qualquer outra missão, a proteção de toda a vida humana (e animal) na Terra. Kal-El será aqui, nessa sua intransigência, o “mais Clark Kent” de todas as suas versões – um rapaz simples e honesto, de coração gigante e origens provinciais, tanto um ser perfeito como um jovem profissional, sempre competente, mas algo “uncool“.

A ideia de Gunn em humanizar um meta-humano funciona, mas a tempos. O filme acaba por nos cativar pela aproximação sentimental que oferece entre o espectador e as diferentes figuras fantásticas (não apenas o Super-Homem) das suas imagens. Por outro lado, a nonchalance bem humorada de Gunn entra frequentemente em discórdia com a trama apocalíptica que aqui se trata. Destroem-se cidades, encenam-se novas guerras, executa-se friamente um simples vendedor de cachorros-quentes (Mali, esse soldado desconhecido desta epopeia), mas o realizador encontra sempre um bigode farfalhudo para nos animar a cena… Por outro lado, a personagem de Luthor quis-se de tal forma “desumana” que a sua figura retomba num autêntico baby brat insuportável (mais graça tem, quando em visita ao Pólo Norte, se parece acidentalmente com um dj techno neerlandês). Essencialmente, Luthor é aqui tanto um conceito caricatural (o mal), como uma ideia perfeitamente desprovida de ironia (o mal), e nisso uma presença sempre desagradável em cena – desagrado nosso, para o qual Nicholas Hoult, o actor, em muito contribui.

Caricatural, também, será a leitura sócio-politica que o filme propõe do seu (e nisso nosso) mundo. MAGA, Gaza, big-tech e big-corp, guerras americanas entre países longínquos, o preço do petróleo e, sobretudo, o poder dos media no nosso espaço social. Superman aborda tudo isso sem falar concretamente de nada. A ideia do impacto das redes sociais (não exactamente um tema original) é transversal a todo filme, mas a leitura que se propõe é particularmente naïve e, nisso, insuficiente. Chegamos ao despropósito de conhecer um exército de símios que Luthor prende frente a um computador para encher as redes de contra-informação que manche a imagem de Super-Homem, para de seguida assumirmos e aceitarmos, inocentemente, que “se passou na televisão” é porque é verdade.

Enfim, tudo isto interessará pouco, talvez, ao fã incondicional de cinema fantástico. Mas tudo serve, e muito, para compôr um filme que necessita sempre dos maiores meios do mundo para chegar a conclusões particularmente simples (um abraço paterno, uma memória de infância, um beijo apaixonado). Sim, a imagem daquela figura azul e vermelha que emerge, suspensa, dos escombros, continua a emocionar-nos. O tema de John Williams permanece evocativo de uma certa ideia de heroismo. E o valor familiar (família, amigos, parceiros – o mundo é um grande abraço) que Gunn injecta no filme é particularmente eficaz. Mas fica a impressão de que, não sendo exactamente tarefeiro, se trata aqui de um filme assoberbado de trabalho para as suas mais simples vitórias.

David Corenswet e Rachel Brosnahan

 

Tell everybody
Waitin’ for Superman
That they should try to hold on best they can

Tendo em consideração alguns dos mais recentes desastres em cinema fantástico (notoriamente os filmes da Marvel), Superman não é um filme aborrecido – nem esteticamente abjecto. Mas quando funciona, funciona graças a (mais do que “apesar de”) todos os seus pecados. Enquanto objecto popular integra-se estoicamente nessa tendência tão actual de uma iteração cultural permanente, num contexto onde tanto a “nostalgia” se tornou sistema, como a essência das ideias que evocamos parece ter-se perdido. Repetem-se fórmulas à exaustão, mas, a cada nova versão, perdemos pouco a pouco o sabor daquilo a que queríamos chegar (ou voltar?). Existe uma necessidade sistemática de evocação de um passado (comercialmente mais seguro, é certo, porque culturalmente estagnado) ao qual não conseguimos dar a necessária distância para que possa, efectivamente, passar. Superman tanto pretende responder a esta problemática, como se instala confortavelmente dentro dela. Enquanto “filme” será uma obra bem menos descartável do que inúmeros outros sucessos de bilheteira em cinema (não só fantástico) recente. Mas a sua personalidade acessível e amigável impede-o de voar mais alto. É um Super-Homem divertido, este, mas contrariamente ao que Gunn parece pensar, tudo menos punk.

 

 

Miguel Allen