Por esta altura, no ano passado, andava eu por aí a pregar a palavra do Superman de James Gunn. Convenhamos: era um filme divertido, de uma certa inocência e doçura, muito graças ao charme de David Corenswet. Não sendo uma dádiva dos deuses à sétima arte, cumpria o prometido: entretenimento vistoso sem tratar o público como um comício de tontos.
É por isso engraçado como, apenas um ano depois, nos cai no colo esta Supergirl, com direito a voo a solo após um cameo delicioso na aventura do primo Superman. Craig Gillespie assume os comandos na realização, James Gunn recua para a produção, e a verdade é que se nota que não é Gunn a segurar as rédeas. Infelizmente, não pelas melhores razões.
A nível de peso mitológico, a Supergirl nunca jogou na mesma liga que o primo. Kara Zor-El até pode andar a voar pelas páginas da DC desde 1959, mas vive na sombra daquela capa vermelha maior. Isso reflete-se neste novo universo. Enquanto Kal-El continua a ser o farol daquele otimismo quase ingénuo, Kara (não sem os seus motivos) é uma autêntica messy girl que prefere fazer um rally das tascas interplanetário todas as noites a ficar presa na Terra a salvar desconhecidos.

E é aí que a apanhamos. Na companhia do fiel (embora menos adorável do que o ano passado, por alguma razão) Krypto, ela vai saltitando de planeta fatela em planeta fatela a testar os limites da ressaca. O truque é encontrar um planeta com um sol vermelho que lhe anule os poderes e permita que o whisky bata como deve ser. O conceito é jeitoso. Uma super-heroína traumatizada, autodestrutiva, a fugir de si própria tem muito mais potencial do que mais um arquétipo de escuteira impecável.
Se calhar é por isso que este filme sabe a tão pouco. Potencial desperdiçado.
Vamos evitar deitar as culpas em Milly Alcock, porque o erro não está ali. Pelo contrário. Há irreverência e personalidade de sobra para comprarmos esta versão da Kara. O verdadeiro problema é que tudo o resto parece saído de uma linha de montagem industrial de blockbusters. As personagens secundárias são 100% descartáveis e os vilões esquecem-se antes de os créditos terem acabado de rolar. Para ajudar à festa, a insistência numa repetição insuportável de setpieces faz parecer que temos um gato deitado em cima dos botões de rewind e forward do comando.

Para além do mais, visualmente, o filme é feio, lamacento. É certo que teve um orçamento menor do que Superman, mas a diferença não é suficiente para explicar por que razão parece jogar em divisões muito diferentes. Os efeitos visuais não convencem e as cenas de voo (que deviam ser o bê-á-bá de qualquer filme de supers) têm um aspeto tão chunga que fazem lembrar, com amargura de boca, as séries antigas da CW.
Nem a banda sonora se safa do descalabro. As canções isoladas são ótimas, mas os needle drops tornam-se irritantes pela maneira forçada com que aparecem. Nota-se um esforço tremendo para emular a fórmula James Gunn sem se perceber, de facto, o que a faz funcionar. Não basta espetar ali umas musiquinhas catitas e meia dúzia de piadas autoconscientes; é preciso dar ritmo à narrativa e colocar coração nas personagens.

O que mais frustra no meio disto tudo é saber que há aqui um filme decente escondido. Havia potencial para uma boa história sobre trauma e autodestruição, ancorada por uma heroína imperfeita, semi-alcoólica, relutante em vestir a capa. E a verdade é que a Kara mantém essas arestas até ao fim. Pena é que o filme não sabe o que fazer com elas, preferindo deixá-las a flutuar sem rumo enquanto Kara é atirada para uma aventura sem carisma nem criatividade.
Milly Alcock tem tudo para ser uma belíssima Supergirl. Só nos resta esperar que, da próxima vez, lhe deem um filme que esteja à altura dela. Até lá, o melhor mesmo é ir fazer companhia à Kara e pedir mais uma rodada. Paga o Krypto.
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