Summer of ’42 (1971) de Robert Mulligan – Da celebração da perda de tempo

Eduardo MagalhãesJunho 19, 2026

 

When you meet with the young girls early in the spring
You court them in song and rhyme
They answer with words and a clover ring
But if you could examine the goods they bring
They have little to offer but the songs they sing
And a plentiful waste of time of day
A plentiful waste of time

 

A forma como Sinatra enrola o final de cada verso da September Song num orgulho periclitante, vai embalando em andante feitos passados à medida que troça do tempo. Incisivo, descreve os esforços da paixão, as miudezas de um ou outro arrufo, e ainda uma memória caída reminiscente desse plentiful waste of time. O ano continua. Maio, Setembro e Dezembro. Tenta abrandar, a sua dicção tenta revelar a beleza escondida da palavra: “When the Autumn weather turns the leaves to flame/ One hasn’t got time for the waiting game”. Arrasta, mas o tempo urge. Não pode desaparecer tão cedo. September! November! Só em terras de Vénus é que o dia é mais comprido que o ano diz a astronomia, ri a da mitologia por tornar a contradição, tão sentida cá na Terra e palpável no waste of time de Sinatra, realidade.

 

 

Summer of ’42 é um filme que deveria ter sido esquecido. Há o tema musical xaroposo a competir com as marés pelo título de maior intermitência. Há os adolescentes ranhosos à procura de um atalho rápido para o sexo. A câmara lenta nos movimentos de Ela quando se despede do seu G.I., ou os zooms no imberbe pretendente. Tremendo sucesso de bilheteira em 1971, Summer of ’42 é insuportavelmente honesto. Por isso, todos os episódios culminam com um ardor de revelação. Seja na brincadeira entre amigos que foi longe demais, seja na ereção de Hermie ao ajudar a gentil noiva (que nada tem de confuso), ou ainda na violência entre dois corpos despertos às escondidas nas dunas que assustam a ingénua Aggie.

Tem a quadratura de uma nostalgia em tons de carolice e acaba por compor precisamente um manifesto adverso a tal atitude. A voz-off solene do já adulto Herman, no carregado sotaque nova-iorquino do próprio realizador, entrega-nos uns aforismos na abertura e fecho do filme. “And for everything we take with us, there is something that we leave behind.” Amplifica assim o sentimento que é bom ir perdendo algumas pedras do passado, embora fique sempre uma fabricação de espetros. Numa convicção de quem batalhou com o tempo, ficou perdido no limbo dos seus convites. Por isso é interessante verificar como o filme vai do reflexo do pôr-do-sol para o verdadeiro como quem vira uma página de um livro.

 

 

Ficou célebre o amor de Kubrick por Summer of ’42, tendo até sido discretamente declarado numa cena de “The Shining”. Revendo-o, não fica difícil perceber a atração do autor de Lolita e Dr. Strangelove. O filme tem momentos de mestria na desconstrução do humor, em que os alicerces do mesmo são enjeitados tornando o propósito outro. Perde-se o gatilho de uma ironia ou de um mal-entendido, ganha-se uma perseguição, uma insistência que faz desabar o tabu.

Vejamos, Hermie prometeu ao amigo Oscy comprar alguns preservativos. Em mais de metade da cena, Hermie desvia o assunto, compra um gelado, empata. Assim que finalmente ganha coragem, seguem-se os detalhes. A marca, o tamanho, o preço… Mulligan podia ter capitalizado na cara de parvo do cliente ou do vendedor, a elasticidade da piada em curso – que o rapaz pouco ou nada sabe sobre contraceptivos – exige não isso, mas um campo contracampo a ritmo nervoso, por vezes mais próximo, por vezes mais afastado. A nebulosidade na afirmação do rapaz e a boa vontade do farmacêutico recortadas pela linha do guichet. Percorremos quase todo o espaço da farmácia, desde a porta ao balcão dos gelados até ao outro canto, o espaço prolonga a piada e o tempo agoniza-a. E o que é mais incrível, é que, humoristicamente falando, os dois ganham e os dois perdem. De um lado, Hermie quer comprá-los, mas dá um intuito apalermado à aquisição, do outro, o farmacêutico não os pode vender a um menor e fica satisfeitíssimo com a convicção do moço na descrição do propósito dos contraceptivos. Isto sim é humor subversivo, em cada troca comercial um engano mútuo.

 

 

A arrogância de juventude não é arrogante, é mal-informada. Hermie lá fez o favor de acompanhar Aggie, a amiga do encontro de Oscy, à sessão da noite. Irão ver o agora clássico “Now, Voyager”. Orgulhoso da sua jogada, atingido o patamar da maturidade, Oscy ainda comenta para o par: “I can’t wait for the cartoon”. Entre os relances de Bette Davis e Paul Henreid no ecrã, cigarros e estrelas, os dois rapazes em competição pela corte mais rápida e eficaz. Concentrados nas imagens lá frente, os olhos de Hermie transparecem sobejamente a certeza de uma conquista. Mais velho, Oscy vai apontando para o sítio. Noutro dos diálogos entre a poesia e o humor do filme, assim que Bette Davis dispara “”Oh, Jerry, don’t let’s ask for the moon. We have the stars”, cortamos para o post-match com um Hermie sorridente e Oscy a retirar-lhe a ilusão: “That wasn’t her breast, it was her arm, I was trying to tell you that”.

 

 

O cerne do filme jaz, porém, na tragédia de Dorothy. A tal que se despedia do G.I., Ela que se banhava ao sol, Ela que precisou da minha ajuda, Ela que me beijou. O remoinho da recordação de Hermie. O rapaz está à porta, a câmara entra na sala de forma atabalhoada e volta-se para o rapaz que ainda permanece à soleira. Depois, ao descobrir a razão daquele disco riscado, da mesa suja e das beatas mortiças, ele olha e o corpo de Jennifer O’Neill começa a desenhar-se entre as sombras. Como partes de um puzzle que foi juntando entre soluços, Mulligan recorta as mãos, as pernas, o busto, entregando os pedaços de uma nudez edénica ao protagonista. E foi descobrindo-se nus que o mundo caiu sobre eles. Na vontade de uma última entrega, de uma partilha que ficou impossibilitada, os olhos dela em declaração total acima da misericórdia que o tempo quisesse oferecer.

Always, Dorothy.” Nunca mais sendo, ficou para sempre. Subiria à tona todo daquele entulho, as fabricações, a vontade de regressar, a nostalgia, caso a intermitência que imperou entre olhares e marés (e, sim, também no tema de Michel Legrand) não a levassem também. Só por não ter propósito nem mister é que nos enfeitiçou, aqui o miasma bêbado das recordações de Herman.

And a plentiful waste of time of day
A plentiful waste of time

 

Eduardo Magalhães