When you meet with the young girls early in the spring
You court them in song and rhyme
They answer with words and a clover ring
But if you could examine the goods they bring
They have little to offer but the songs they sing
And a plentiful waste of time of day
A plentiful waste of time
A forma como Sinatra enrola o final de cada verso da September Song num orgulho periclitante, vai embalando em andante feitos passados à medida que troça do tempo. Incisivo, descreve os esforços da paixão, as miudezas de um ou outro arrufo, e ainda uma memória caída reminiscente desse plentiful waste of time. O ano continua. Maio, Setembro e Dezembro. Tenta abrandar, a sua dicção tenta revelar a beleza escondida da palavra: “When the Autumn weather turns the leaves to flame/ One hasn’t got time for the waiting game”. Arrasta, mas o tempo urge. Não pode desaparecer tão cedo. September! November! Só em terras de Vénus é que o dia é mais comprido que o ano diz a astronomia, ri a da mitologia por tornar a contradição, tão sentida cá na Terra e palpável no waste of time de Sinatra, realidade.

Summer of ’42 é um filme que deveria ter sido esquecido. Há o tema musical xaroposo a competir com as marés pelo título de maior intermitência. Há os adolescentes ranhosos à procura de um atalho rápido para o sexo. A câmara lenta nos movimentos de Ela quando se despede do seu G.I., ou os zooms no imberbe pretendente. Tremendo sucesso de bilheteira em 1971, Summer of ’42 é insuportavelmente honesto. Por isso, todos os episódios culminam com um ardor de revelação. Seja na brincadeira entre amigos que foi longe demais, seja na ereção de Hermie ao ajudar a gentil noiva (que nada tem de confuso), ou ainda na violência entre dois corpos despertos às escondidas nas dunas que assustam a ingénua Aggie.
Tem a quadratura de uma nostalgia em tons de carolice e acaba por compor precisamente um manifesto adverso a tal atitude. A voz-off solene do já adulto Herman, no carregado sotaque nova-iorquino do próprio realizador, entrega-nos uns aforismos na abertura e fecho do filme. “And for everything we take with us, there is something that we leave behind.” Amplifica assim o sentimento que é bom ir perdendo algumas pedras do passado, embora fique sempre uma fabricação de espetros. Numa convicção de quem batalhou com o tempo, ficou perdido no limbo dos seus convites. Por isso é interessante verificar como o filme vai do reflexo do pôr-do-sol para o verdadeiro como quem vira uma página de um livro.

Ficou célebre o amor de Kubrick por Summer of ’42, tendo até sido discretamente declarado numa cena de “The Shining”. Revendo-o, não fica difícil perceber a atração do autor de Lolita e Dr. Strangelove. O filme tem momentos de mestria na desconstrução do humor, em que os alicerces do mesmo são enjeitados tornando o propósito outro. Perde-se o gatilho de uma ironia ou de um mal-entendido, ganha-se uma perseguição, uma insistência que faz desabar o tabu.
Vejamos, Hermie prometeu ao amigo Oscy comprar alguns preservativos. Em mais de metade da cena, Hermie desvia o assunto, compra um gelado, empata. Assim que finalmente ganha coragem, seguem-se os detalhes. A marca, o tamanho, o preço… Mulligan podia ter capitalizado na cara de parvo do cliente ou do vendedor, a elasticidade da piada em curso – que o rapaz pouco ou nada sabe sobre contraceptivos – exige não isso, mas um campo contracampo a ritmo nervoso, por vezes mais próximo, por vezes mais afastado. A nebulosidade na afirmação do rapaz e a boa vontade do farmacêutico recortadas pela linha do guichet. Percorremos quase todo o espaço da farmácia, desde a porta ao balcão dos gelados até ao outro canto, o espaço prolonga a piada e o tempo agoniza-a. E o que é mais incrível, é que, humoristicamente falando, os dois ganham e os dois perdem. De um lado, Hermie quer comprá-los, mas dá um intuito apalermado à aquisição, do outro, o farmacêutico não os pode vender a um menor e fica satisfeitíssimo com a convicção do moço na descrição do propósito dos contraceptivos. Isto sim é humor subversivo, em cada troca comercial um engano mútuo.

A arrogância de juventude não é arrogante, é mal-informada. Hermie lá fez o favor de acompanhar Aggie, a amiga do encontro de Oscy, à sessão da noite. Irão ver o agora clássico “Now, Voyager”. Orgulhoso da sua jogada, atingido o patamar da maturidade, Oscy ainda comenta para o par: “I can’t wait for the cartoon”. Entre os relances de Bette Davis e Paul Henreid no ecrã, cigarros e estrelas, os dois rapazes em competição pela corte mais rápida e eficaz. Concentrados nas imagens lá frente, os olhos de Hermie transparecem sobejamente a certeza de uma conquista. Mais velho, Oscy vai apontando para o sítio. Noutro dos diálogos entre a poesia e o humor do filme, assim que Bette Davis dispara “”Oh, Jerry, don’t let’s ask for the moon. We have the stars”, cortamos para o post-match com um Hermie sorridente e Oscy a retirar-lhe a ilusão: “That wasn’t her breast, it was her arm, I was trying to tell you that”.
O cerne do filme jaz, porém, na tragédia de Dorothy. A tal que se despedia do G.I., Ela que se banhava ao sol, Ela que precisou da minha ajuda, Ela que me beijou. O remoinho da recordação de Hermie. O rapaz está à porta, a câmara entra na sala de forma atabalhoada e volta-se para o rapaz que ainda permanece à soleira. Depois, ao descobrir a razão daquele disco riscado, da mesa suja e das beatas mortiças, ele olha e o corpo de Jennifer O’Neill começa a desenhar-se entre as sombras. Como partes de um puzzle que foi juntando entre soluços, Mulligan recorta as mãos, as pernas, o busto, entregando os pedaços de uma nudez edénica ao protagonista. E foi descobrindo-se nus que o mundo caiu sobre eles. Na vontade de uma última entrega, de uma partilha que ficou impossibilitada, os olhos dela em declaração total acima da misericórdia que o tempo quisesse oferecer.
“Always, Dorothy.” Nunca mais sendo, ficou para sempre. Subiria à tona todo daquele entulho, as fabricações, a vontade de regressar, a nostalgia, caso a intermitência que imperou entre olhares e marés (e, sim, também no tema de Michel Legrand) não a levassem também. Só por não ter propósito nem mister é que nos enfeitiçou, aqui o miasma bêbado das recordações de Herman.
And a plentiful waste of time of day
A plentiful waste of time





