Star Wars: The Mandalorian and Grogu, de Jon Favreau – O Império do Merchandise Contra-Ataca

Francisco SousaJunho 5, 2026

Há filmes que chegam às salas de cinema carregados de expectativa e há filmes que chegam carregados de estratégia. The Mandalorian & Grogu pertence claramente à segunda categoria. O primeiro grande filme de Star Wars em anos não está diretamente relacionado com os Skywalker, não carrega o peso da saga que George Lucas construiu durante décadas e não pretende ser um evento cinematográfico. Pretende ser um produto. E é exactamente isso que é.

O filme situa-se temporalmente após os acontecimentos da série The Mandalorian, num universo ainda a tentar reorganizar-se após a queda do Império (e, de uma forma mais meta, após a catástrofe que foi A Ascensão de Skywalker). É território já amplamente explorado pela Disney+ nos últimos anos e a escolha de o situar aqui diz muito sobre as prioridades criativas em jogo: não há interesse em arriscar novo território narrativo. O conforto do familiar é, como sempre, a aposta mais segura.

 

 

Segura também foi a escolha do realizador, Jon Favreau. Favreau não é um nome qualquer. Foi ele quem, em 2008, com Iron Man, lançou aquilo que viria a ser o maior fenómeno de franchise da história do cinema: o Marvel Cinematic Universe. Foi também ele quem, em 2019, criou The Mandalorian para a Disney+, a série que, durante a sua primeira temporada, devolveu a Star Wars algo que parecia perdido desde o original de 1977: a capacidade de contar uma história pequena num universo grande, sem depender de destinos galácticos nem de heróis escolhidos.

No entanto, a escolha em Favreau veio a provar-se errada. Sentado na sala de cinema, é impossível não ter a sensação de estar a ver um season finale de televisão com um orçamento de blockbuster. The Mandalorian & Grogu não tem a estrutura de um filme, tem a estrutura de quatro episódios colados uns nos outros, com o ritmo irregular que isso implica. Há momentos onde a transição entre momentos narrativos é tão vincada que a maior surpresa é o filme não cortar para anúncios.

Para algo com este orçamento, The Mandalorian & Grogu surpreende pela negativa no que toca aos efeitos visuais. Há escala, sim, mas escala sem presença, sem peso, sem o tipo de detalhe táctil que faz um mundo parecer habitado. O CGI é competente mas frio, e a dependência excessiva nele acaba por trabalhar contra o próprio filme. Curiosamente, os momentos visualmente mais convincentes são os mais analógicos: Favreau trouxe Phil Tippett de volta ao universo que ajudou a construir, com uma sequência inteiramente em stop-motion que transporta de imediato para a textura artesanal do Star Wars original.

 

 

Após o falhanço da trilogia sequel, a Lucasfilm respondeu com quantidade: The Book of Boba Fett, Obi-Wan Kenobi, Ahsoka, Skeleton Crew. Uma avalanche de conteúdo que diluiu a marca até ao ponto em que Star Wars deixou de ser um evento para se tornar em ruído de fundo. No centro desta estratégia está Dave Filoni, o homem por detrás de The Clone Wars e Rebels, colocado ao leme criativo do universo. Filoni conhece o lore de Star Wars melhor do que praticamente qualquer pessoa, e é exactamente esse o problema. O seu Star Wars é um universo fechado sobre si mesmo, obcecado com referências e personagens das séries animadas, que serve o fan service no mais alto dos altares. Um Star Wars que olha para dentro quando devia olhar para fora. O sinal mais revelador desta confusão de prioridades aconteceu ainda durante The Book of Boba Fett, quando a própria série foi parcialmente sequestrada pelo Mandaloriano, com dois episódios centrais dedicados quase inteiramente a Din Djarin e Grogu, deixando Boba Fett como figurante no seu próprio programa.

Na ponta oposta a The Mandalorian está Andor, a série de Tony Gilroy lançada em 2022, foi o maior feito criativo de Star Wars em décadas e, visto à luz deste filme, torna-se numa acusação silenciosa. Sem Jedi, sem a Força, sem nostalgia fácil, Gilroy construiu um thriller político adulto com personagens de uma complexidade raramente vista neste universo, mostrando que Star Wars podia ser muito mais do que aquilo a que nos habituaram. Não há nada de errado com um filme mais leve dentro desta galáxia. O problema é quando essa leveza não tem alma, quando as decisões criativas parecem pensadas não para contar uma história mas para manter um franchise aquecido e as prateleiras das lojas abastecidas. Se Andor tinha algo a dizer. The Mandalorian & Grogu tem algo a vender.

 

Francisco Sousa