Stage Struck (1925), de Allan Dwan – A maior actriz

Miguel AllenMaio 15, 2026

Ela era a maior actriz de sempre, “um nome que ganhava novo brilho a cada triunfo”. Os primeiros intertítulos de Stage Struck (“Este Mundo é um Teatro”), acompanhados por um grande plano de Gloria Swanson vestida de Carmen e por imagens de um público em aclamação entusiástica diante de um palco coberto de flores, são quase um retrato imaginado da própria Swanson. A actriz era, efectivamente, a maior estrela do mundo à data, e a Paramount Pictures preparava-lhe então um contrato absolutamente milionário – que Swanson acabaria por rejeitar.

Com esse mesmo propósito, a sequência de abertura de Stage Struck – o sétimo filme de Allan Dwan com a actriz – é notável pelo uso pioneiro de Technicolor, ainda em fase embrionária, que reveste aqui a película de uma patine lustrosa em tons pastel. O processo era dispendioso, e só uma estrela como Swanson poderia justificar semelhante escolha de produção para aquilo que é, à partida, uma “simples” comédia romântica.

Filme de sonho e desejos, Stage Struck acompanha a inocente e fantasista Jenny Hagan (Swanson), uma empregada de restaurante apaixonada por Orme Wilson (Lawrence Gray), cozinheiro de panquecas (e artista de vitrine!) que vive os seus dias fascinado pelas imagens de actrizes que recobrem as paredes do seu quarto. A sequência inicial do filme é, através do uso da cor, um sonho de Jenny no estado bruto. A “actriz” é aclamada em palco, adorada nas ruas, solicitada pelas mais ilustres cortes europeias. Mas, num banquete faustoso, assistimos ao estranho paradoxo de uma diva enfadada pelas mais refinadas iguarias, que recusa pela simplicidade de umas boas panquecas. A “actriz” transfigura-se, enfim, em Salomé sob o olhar espantado dos seus convivas, e, enquanto exige a cabeça de João Baptista, Dwan revela-nos a natureza ilusória de tudo aquilo.

 

 

Através de um dos cortes mais engenhosos do filme, de Salomé, com a cabeça do santo numa bandeja, passamos para o plano de uma empregada cansada, com um prato de ervilhas nas mãos. Ainda em Technicolor, o embate do prato no chão bastará para sugar a cor da imagem, e é no preto-e-branco da vida quotidiana que a narrativa prossegue. “Day dreaming don’t vait on no customers!“, grita o patrão (Emile Hoch), enquanto Jenny atravessa, ainda atordoada, o restaurante à pinha, fintando clientes esfomeados e apressados, por entre maiores e menores desastres com o serviço. Afinal, Jenny faz tudo para que Orme lhe sorria, mas Orme parece sorrir apenas às raparigas que o observam da rua, encantadas pelas suas difíceis acrobacias com as panquecas. E quanto mais Jenny se esforça pelo ideal romântico que construiu, mais tudo acaba em desastre. Tropeça, deixa cair os pratos. Todos se riem dela, sobretudo Orme. E a Jenny pouco mais resta senão refugiar-se num desarmante “I did it to be funny“.

 

 

 

Se Swanson era, ou não, a “maior actriz do mundo”, a verdade é que pouco ficou associada à comédia. Mas, neste filme extremamente físico, a actriz demonstra uma peculiar capacidade para fazer da suposta “trapalhice” da sua personagem o extraordinário gesto que ritma e anima cada cena. Existe aqui algo de profundamente chaplinesco, o corpo não funcionando como mero instrumento de gag, mas como expressão directa do sentimento, evidência do próprio pathos da personagem – cada gesto falhado revelando a solidão e a inadequação de Jenny. Orme sonha com as suas actrizes, Jenny sonha com o “seu” Orme. Lava-lhe a roupa em segredo como se fosse sua mulher, conversa com Flea, um cão de peluche, seu “confidente”. Imita as poses das suas “rivais”, ensaia reacções diante do espelho, procurando no teatro e na ilusão uma vereda, quase pueril, para o amor.

Desse primeiro acto (a dois movimentos) dominado pelo sonho nasce um segundo, ao longo do rio, com o showboat de Waldo Buck (Ford Sterling), o “Water Queen”, a trazer novas promessas à cidade. Orme aproxima-se da actriz principal, e Jenny fará tudo, sobretudo figuras tristes, para impedir esse encontro. Fruto do acaso, acaba por conhecer Waldo durante o piquenique anual da cidade, encontro que a transportará finalmente ao palco com que sonhara. E tudo culmina com Jenny, completamente deslavada, diante de um público incrédulo, tentando desastradamente terminar a sua deixa. Mais uma vez, procura esconder o embaraço atrás da comicidade, nesse desalegre “I did it to be funny“. Mas, como Orme já lho dissera antes, numa das suas tiradas mais cruéis, Jenny consegue ser, e sobretudo aqui, “about as funny as murder“.

Orme revela-se, afinal, muito menos “o sonhador” que inicialmente se mostrara. Por detrás do fascínio pelas suas efígies em cartão esconde-se uma figura profundamente convencional, roçando o rígido. A personagem permanece talvez o elemento menos conseguido do romance do filme, demasiado artificial para justificar plenamente o encanto que exerce sobre Jenny. Ainda assim, é num simples descascar de ervilhas a dois, Orme e Jenny, que o filme encontra uma inesperada verdade sentimental capaz de sustentar o desenlace desta história.

Afinal, se este é um filme com a cabeça sempre “nas estrelas”, Stage Struck revela-se sobretudo nos seus momentos de intimidade. Dwan filma multidões com a destreza de um maestro, seja no restaurante, seja na sala de espectáculos. Mas é com Swanson, sozinha no quarto, a cortar desastrosamente os sapatos para imitar os modelos usados pelas actrizes; é na confissão a Waldo do seu amor mal disfarçado por Orme; é nos sorrisos constrangidos, nos gestos tímidos, nos relances despercebidos por todos, que o filme enfim se revela.

 

 

Stage Struck será afinal menos sobre essa titular “paixão pelo palco” do que sobre a fragilidade do sonhador embevecido por uma imagem. Um filme que encontra, na delicadeza melancólica dos seus momentos de intimidade e na expressividade física da sua figura principal, o seu mais profundo valor sentimental. A história de uma actriz e seus amores – I should be crying, but I just can’t let it show.

 

 

Stage Struck é apresentado este sábado, dia 16 de Maio, na Cinemateca Portuguesa como parte do ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” – acompanhamento ao piano por João Paulo Esteves da Silva.

 

Miguel Allen