Springsteen: Deliver Me from Nowhere, de Scott Cooper

Hugo DinisOutubro 29, 2025

A febre de Hollywood por conteúdo já conhecido pelo grande público tem-se materializado fundamentalmente em remakes e sequelas de filmes e séries do passado. Mas a retromania também se faz agora sob a égide do biopic. Este Springsteen: Deliver Me From Nowhere assim foi apresentado, mas o filme de Scott Cooper rejeita de forma admirável a estrutura de recontar de vivências do Boss. Ao invés, centra-se na história por detrás da composição de Nebraska, o álbum intensamente pessoal e profundamente disruptivo de Springsteen. A proposta aqui é mais ousada e, por isso, também mais exigente consigo mesmo: procurar entrar no pensamento criativo de um artista a elaborar uma obra com um grau de introspecção muito particular, mas também procurar entender até que ponto é que as suas ansiedades e traumas pessoais desempenham um papel no seu processo de composição.

Cooper inicia-nos com uma imagem relativamente desinspirada, contudo. O contexto familiar, marcado por um pai abusivo (Stephen Graham) e uma mãe sofredora (Gaby Hoffmann), serve para encaixotar a narrativa num padrão habitual. A sua inserção é natural, até pela importância que tem para o desenvolvimento pessoal de Bruce, mas é difícil não nos retrairmos perante a pulsão melodramática reaquecida que aqui é aludida. A sua superficialidade emotiva apenas convoca uma ideia de inautenticidade que, até pelo cuidado que a equipa de Deliver Me From Nowhere tem na absorção do trabalho de Springsteen, não se coaduna com o que se segue. Também por aqui, o espectador é mais tarde infelizmente premiado com a imagem de um Stephen Graham peculiarmente envelhecido, mais absurda que evocativa.

O que se segue, apesar de tudo, é uma performance em concerto no final da tournée para The River que coloca em evidência a dedicação de Jeremy Allen White na adopção dos maneirismos do Boss. O seu encaixe como jovem solteiro em busca de resolver dramas passados faz-nos lembrar a performance que ostenta enquanto chef culinário em The Bear. A inserção musical em Deliver Me From Nowhere não é capaz de recriar a energia inesgotável dos concertos de Springsteen, mas tem o condão de saber colocar no ecrã uma cadência de ritmo apreciável. O Boss não é aqui uma máquina de criar músicas, mas é alguém em quem recaem as expectativas de uma indústria discográfica sedenta de mais êxitos prometidos e entregues.

Essa indústria desemboca em Allen White com a mediação de Jeremy Strong, o seu agente Jon Landau. A dupla concretiza um par de felizes estereótipos de Hollywood: um artista torturado e uma figura estabilizadora professoral. A relação entre os dois é, contudo, um pouco demasiado perfeita para ser verdade, relegando para segundo plano aqueles que os rodeiam. Não deixa de ser estranho ver um filme sobre Springsteen que só marginalmente inclua a E Street Band, mas também Strong apenas parece ter um casamento para poder trocar ideias com a mulher sobre a tortura pessoal do Boss.

Em todo o caso, Cooper parece ter feito um filme que, com toda a ousadia de procurar encontrar a natureza do processo criativo de um dos artistas americanos mais marcantes do século XX, parece apenas encolher os ombos nas respostas que (não) encontra. Somos brindados com um conjunto inusitado de imagens de Springsteen sozinho em salas, quartos e ruas, a meditar com olhares vagos e expressões vazias. A sua incapacidade em encontrar “something real in all the noise”, como diz Allen White, cifra-se também na construção de uma relação amorosa com uma mãe solteira (Odessa Young) na sua cidade natal de Asbury Park. Young representa uma amálgama de relações feitas e desfeitas no precipício da depressão criativa de Allen White, um signo de um jovem em busca de ser homem e simultaneamente em permanente fuga dessa condição. Deliver Me From Nowhere conduz uma viagem pertinente pela interioridade de um homem complexo que sente dificuldade em compreender. É difícil de invejar a tarefa, contudo. Em muitos aspectos, essa compreensão estará para lá do alcance do comum dos mortais. Mas louve-se a tentativa.

 

 

Hugo Dinis