Sobreimpressões sobre Perfect Days, de Wim Wenders

Já estreou Perfect Days, o novo filme de Wim Wenders, rodado integralmente e produzido no Japão. Três membros da Tribuna foram ver o filme protagonizado por Kôji Yakusho. David Bernardino e Rita Cadima de Oliveira consideraram-no uma obra-prima de 5 estrelas. Já Pedro Barriga considerou o filme mediano.

Foi preciso esperar quase 40 anos para Wim Wenders voltar a realizar uma obra-prima de ficção (excluímos Salt of the Earth e Anselm das contas) depois de Paris, Texas. Produzido no Japão, Wenders filma o dia a dia rotineiro de um técnico de limpeza das casas de banho públicas de Tokyo. Solitário e de poucas palavas Hirayama sorri e observa os detalhes que o rodeiam. A luz por entre as folhas, as pessoas que comem sandes no banco do jardim, os diálogos dentro do bar. Dia após dia a sua rotina é visitada por elementos exteriores que o protagonista abraça com felicidade, desde uma surpreendente planta que rebentou junto a uma árvore à sua sobrinha que visita de surpresa. Observamos pequenas histórias, de forma episódica, daquilo que na verdade compõe a vida, no plano terrestre prático: um pequeno Mundo dentro de outros Mundos. Hirayama não está interessado no futuro. O desenvolvimento de personagem é feito através destes elementos externos. Descortinamos mágoa perante um passado do qual o protagonista prefere fugir, mas o sorriso de Hirayama e a sua paz interior são contagiosos. Wim Wenders está de novo na frente de uma realização de rara beleza. Perfect Days dá mais importância à forma como filma a cidade de Tokyo do que constrói (poucos) diálogos para o seu protagonista. Importam as estradas, o sol, os jardins, os bares, e a imponente Tokyo Skytree, sempre no horizonte, a observar a pequenez do protagonista enquanto se desloca no seu carrinho pela metrópole. Os sons da cidade são capturados na perfeição, aliando-se a uma banda sonora analógica de um certo rock dos anos 70/80 (Lou Reed, Patti Smith…) carregado de nostalgia. Perfect Days é um daqueles raros filmes que consegue, através da imagem e da simplicidade, emocionar o espectador, nunca caindo nas armadilhas do pretensiosismo. O filme não está particularmente interessado em conquistar o espectador, nem usa artifícios nesse sentido. Não se acha sequer inteligente ao ponto de atirar à cara do espectador filosofias baratuchas como Amélie ou Paterson fizeram, por exemplo. Muitos até dirão que este é um daqueles filmes em que “não acontece nada”, e é difícil fazer um desses filmes de forma interessante e humilde. Que lufada de ar fresco. Que bem soube ver Perfect Days.

David Bernardino

 

Esta obra inteiramente passada em Tóquio, apresenta-nos Hirayama, um homem tímido e acanhado, cuja profissão consiste em limpar casas de banho públicas em Tóquio. Ao contrário do esperado, Hirayama demonstra uma enorme alegria de viver, aparentando estar totalmente satisfeito com a sua vida singela e revelando uma enorme apetência para o refúgio e solidão. A sua personalidade introvertida, característica de uma identidade eremita, fazem-no preferir serões com plantas e discos a serões com humanos. Wenders retrata-nos um homem que controla o seu próprio destino, não arriscando qualquer possibilidade de sociabilização. Fora da sua rotina e do seu quotidiano laboral estruturado e milimetricamente coordenado, Hirayama é um apreciador nato de música rock e de livros. Na sua pausa para almoço, tem como hábito fotografar analogicamente árvores e os seus ramos, acabando mais tarde por revelar as fotografias que tira. É nesta rotina e repetição da acção que uma série de encontros e desencontros vão revelando o seu passado, no qual alguns traumas justificam o autocontrolo e a disciplina autoimposta. Raras as vezes ouvimos a voz de Hirayama no filme, o silêncio é uma escolha e uma preferência de forma a não se sobrepor ou elevar ao próximo. Num filme onde a rotina e a simplicidade são transformadas em coisas belas, no qual a harmonia com a natureza basta para arrancar um sorriso a este homem que parece frio mas é, mais do que tudo, um ser humano atento e preocupado com o outro, que abdica de si mesmo em prol daqueles que respeita. Perfect Days consegue trazer-nos simultaneamente a turbulência e o alvoroço de Tóquio e o equilíbrio e a serenidade de Hirayama, fundindo-nos com um espaço físico e geográfico de desordem, mas sempre com toques humanos de placidez e elevada prudência.

Rita Cadima de Oliveira

 

Na primeira meia hora, “Perfect Days”, com a sua ênfase na rotina rigorosa, parece ser uma versão de “Jeanne Dielman” (Chantal Akerman, 1975), mas em vez de uma mãe solteira a limpar a casa temos um homem solteiro a limpar casas de banho públicas. Porém, à medida que progride, o filme aproxima-se mais da poesia quotidiana de “Paterson” (Jim Jarmusch, 2016). Acompanhamos o dia-a-dia de Hirayama, um homem simples, metódico, bem-disposto, exímio a executar a sua profissão, leitor ávido, fã de Lou Reed, Otis Redding e Nina Simone. Vive um dia de cada vez, sem lamentar o passado, sem ansiar pelo futuro. Ima wa ima. Com “Perfect Days”, Wim Wenders foi passear a Tóquio e aproveitou para fazer um filme simpático e acolhedor, ainda que na fronteira entre o querido e o lamechas. Talvez a maior conclusão do filme seja que Tóquio tem as casas de banho públicas mais sofisticadas do mundo.

Pedro Barriga