Sobreimpressões Críticas a The Zone of Interest, de Jonathan Glazer

EquipaJaneiro 24, 2024

Estreado no Festival de Cinema de Cannes 2023, onde conquistou o Grande Prémio do Júri e o Prémio FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema), A Zona de Interesse tem sido muito aclamado por crítica e público. O filme, do britânico Jonathan Glazer, venceu ainda o prémio de melhor filme da Los Angeles Film Critics Association, foi posicionado como um dos cinco melhores filmes internacionais pela National Board of Review e tem cinco nomeações para os Óscares, entre eles o de melhor filme, de melhor filme internacional e de melhor realizador. Não passou ao lado dos críticos da Tribuna do Cinema. Rita Cadima de Oliveira, David Bernardino, Gil Gonçalves e Francisco Sousa analisam este olhar singular sobre o holocausto e deixam-nos as suas notas.

 

Jonathan Glazer regressa, mais de 10 anos depois de Under the Skin, com um dos filmes mais impactantes dos últimos tempos. Utilizando com mestria o espaço negativo e o design sonoro, Zone of Interest é um filme pesado e angustiante mas que não recorre ao choque e à violência gratuita para mostrar não só o horror que nos rodeia como também a apatia e a cumplicidade dos envolvidos. Acompanhado por uma banda sonora assombrosa de Mica Levi e com uma performance fantástica de Sandra Hüller (a segunda este ano), Jonathan Glazer mostra que ainda é possível inovar no que toca a filmes sobre o Holocausto e que a recusa em mostrar a barbaridade pode ter ainda mais impacto do que a alternativa.

Francisco Sousa

 

O mais recente projeto de Jonathan Glazer foca-se no tema do Holocausto, a partir de um ângulo de desinteresse (ironicamente, dado o título). Isto é: mostrando-nos apenas o quotidiano da família de Rudolf Höss, diretor de Auschwitz – que vive apartada do campo de concentração apenas por um muro -, e rejeitando qualquer imagem da violência lá perpetrada. Uma família que, na senda do desinteresse, escolhe ativamente ignorar e nunca mencionar a fonte do seu rendimento, apesar dos constantes sons de fogo, gritos e tiros que vêm do lado de lá. O filme terá o mérito de uma abordagem original, mas a premissa que lhe dá fôlego, do princípio ao fim, também o esgota. O resultado é reiterativo, repetitivo e frio. Mais próximo de uma instalação do que de cinema, em que as tentativas de choque surgem através de fragmentos, evocações óbvias e, portanto, débeis na sua provocação. Uma forma em permanente conflito com o conteúdo – não pode mostrar mais, porque isso iria contra a estrutura proposta, nem pode ir mais fundo, precisamente porque não mostra mais. A preocupação constante em emular o desinteresse a que nós (políticos, povos, seres humanos) nos entregamos, face à barbárie, não o torna mordaz, nem sequer pedagógico, mas alienante. Glazer tenta colmatar esta vacuidade com adornos variados: o rigor assético da cinematografia, para enfatizar a frieza dos seus fantoches; a banda sonora tenebrosa (no melhor dos sentidos) de Mica Levi, tantas vezes encarregue de criar tensão onde ela não existe; filmagens absurdas (no pior dos sentidos) em negativo, a fazer antever um subplot esotérico, que acaba por se revelar banalíssimo; e a acumulação de inconsequentes metáforas e símbolos, para estabelecer ténues paralelismos com outras geografias e tempos históricos (no qual se inclui o nosso, para forçar a nota de uma identificação, de outro modo inexistente, onde deveríamos pensar a nossa relação com a banalidade do mal). Os pontos de maior interesse acabam por surgir nas estórias da própria família. O espectador poderá, em dois ou três diálogos, sentir-se animado a derivar por considerações históricas, de classe, ou mesmo de sátira social. Dependerá de quem vê atribuir-lhes mais ou menos valor, já que o filme, à semelhança do que faz com o seu tema central, pouco desenvolve. Fica o espanto da sequência final. Um ponto de interrogação inusitado, aberto e pesado, que constitui o único momento verdadeiramente incomodativo do filme, ainda que tardio e pouco “merecido”, face ao que se viu antes.

Gil Gonçalves

 

 

Zone of Interest foca-se na vida familiar de Rudolf Hoss, comandante do campo de concentração de Auschwitz, que vive numa moradia idílica do lado de fora do muro do campo. O conceito do filme é muito poderoso, interessante (se é que podemos utilizar essa palavra) e filosoficamente desafiante. No entanto, bastam 10 ou 15 minutos para “percebermos a ideia”. Não há necessidade de observar rotina doméstica e pessoas a caminhar através de corredores durante mais de uma hora, o que compõe na verdade a maioria do que vemos no filme de Glazer, adicionando aos belos travellings abertos do exterior. O filme pouco desenvolve o seu conceito e, não sendo exactamente um filme de passo lento, poderia ter mais energia. A realização é interessante dum ponto de vista autoral e os jogos sonoros desconcertantes funcionam muito bem, atribuindo uma singularidade formal original a Zone of Interest. É definitivamente uma melhoria em relação a Under the Skin para Glazer.

 

David Bernardino

 

Como responder à pergunta “gostaste do filme?”. O que há para gostar na maldade humana? Como dizer que “adorei” sem parecer ser um verme maléfico? Da sonoridade horripilante às entranhas psicológicas do mal e da indiferença, da futilidade ao próprio escárnio infantil, este filme passou por todos os expoentes da atrocidade e da barbárie sem que nenhuma morte ou cadáver se concretizem na tela. Com a distância temporal, a percepção do holocausto sofre mutações, a forma de o retratar também. Nesta obra, a fotografia é sedutora, a cinematografia ainda mais cativante é, o azul do céu diurno contrasta com o tom laranja-fogo nocturno. No entanto, raramente estamos perante os diversos tons de cinzento associados aos filmes deste trágico período. Já não se exige a presença de grafismos fortes, o terror psicológico e sonoro por vezes basta. E acentua-se igualmente o medo relativamente à forma como o espectador recebe este retrato do terror. Uns dias depois de o ver, ainda está a ser de difícil digestão. Isso e a audiência que levou, para dentro da sala, pipocas e coca-cola para ver este filme.

 

Rita Cadima de Oliveira