Sobreimpressões Críticas a Lupin III: O Castelo de Cagliostro, de Hayao Miyazaki

EquipaAbril 16, 2024

Lupin III: O Castelo de Cagliostro, primeira longa metragem de Hayao Miyazaki, de 1979, pega no manga de 1967, de Monkey Punch, adaptando-o ao grande écrã para uma aventura de acção até então rara no cinema de animação. O filme regressa agora às salas em versão 4K, para ser redescoberto pelos fãs de animação num momento em que se acredita que a carreira do realizador tenha encerrado com a chave de The Boy and the Heron. David Bernardino analisa o filme, a propósito do dossier já publicado na Tribuna do Cinema dedicado à obra completa de Miyazaki, e Miguel Allen acrescenta também a sua opinião.

Autor de tantos mundos de fantasia, é curioso observar que Hayao Miyazaki se estreou nas longas metragens com a adaptação de um manga/anime de 1967: Lupin the Third, da autoria do também japonês Monkey Punch. Lupin The Third conta as aventuras do neto do fictício famoso ladrão e mestre do disfarce Arsène Lupin, criado por Maurice Leblanc. Lupin, o terceiro, segue as pisadas do seu avô, tornando-se no ladrão mais procurado do Mundo. Um aventureiro sedutor, sempre acompanhado do seu fiel braço direito e mestre do gatilho Jigen, entre outras personagens, que procura sempre arquitectar o melhor novo golpe para executar.

Na adaptação de Miyazaki o enredo geral não é excepção. Lupin e Jigen descobrem um misterioso castelo, que é ao mesmo tempo Estado independente, que aparentemente produz notas falsificadas. Cruzando-se ao mesmo tempo com uma donzela em busca de ajuda, Lupin não vê outra alternativa que não seja resgatar a donzela e desmascarar os golpistas. No entanto, não é no seu simples plot que está o efeito deste Castle of Cagliostro.

Atentemos à data, 1979, para observar aquilo que até então era raro: um verdadeiro filme de acção animado, com um público alvo não juvenil. Algo entre o estilo de Tarantino e a aventura de Spielberg. Foi o próprio Spielberg que afirmou no passado que Cagliostro seria uma das suas grandes inspirações para o cinema. É graças a ele que personagens como Indiana Jones são o que são hoje, com Spielberg a inspirar-se no carisma de Lupin, bem como a elogiar a famosa cena de perseguição nos momentos iniciais de Castle of Cagliostro que verteram directamente para filmes como Mission Impossible, entre outros. A cinética de Castle of Cagliostro é um feito impressionante, sobretudo tendo em conta que se trata de um filme de animação com quase 45 anos, numa altura em que o género estava longe de atingir um largo público, com excepção da Disney.

Além de todos os estilos e das várias e criativas action set pieces que Miyazaki aqui nos proporciona, é possível ainda observarmos o preâmbulo daquilo que viriam a ser, estilisticamente, imagens de marca do realizador. Falamos da natureza, do vento, da ausência de som. Falamos das máquinas voadoras. Falamos dos castelos. Falamos da constante surpresa e admiração. É esse o principal legado de Castle of Cagliostro antes da fundação do grandioso estúdio Ghibli. E é ainda, por cima de tudo isso, um soberbo filme de acção e aventura por si só. A emboscada e a peripécia são presentes a um ritmo quase perfeito, o carisma abunda entre todas as personagens, e a sensação de entretenimento é algo que, aos dias de hoje, é ainda rara de superar. Um filme que envelheceu como o vinho.

 

David Bernardino

 

Divertido e brincalhão, de uma forma bem mais despreocupada do que Miyazaki alguma vez voltaria a ser. Cagliostro revela inúmeros indícios da obra futura do realizador – o paisagismo, o barulho do vento, a presença constante da água, as máquinas do ar, ou o quarto mágico da princesa… – e o casamento ao centro da trama parece ter servido de curiosa inspiração à união “forçada” de “Castelo no Céu”. É contudo inegável o quanto Lupin, sobretudo, entre todos, não pertence ao universo de personagens de Miyazaki. Um filme cheio de energia e apaixonado pelas suas próprias reviravoltas, que, por tanto que encantador, rima ainda assim mais facilmente com o seuprotagonista do que com o seu realizador.

Miguel Allen