Sobreimpressões Críticas a Furiosa: A Mad Max Saga de George Miller

EquipaJunho 12, 2024

Quase 10 anos depois de Mad Max: Fury Road (2015), chega às salas de cinema mais uma aventura na Wasteland. A notícia de uma nova iteração no universo distópico de Mad Max vinha associada à inevitável expectativa de testemunhar o seguimento daquele que foi, para muitos, o mais importante filme de ação da década passada. Conseguiria Furiosa suplantar o feito? Manteria a qualidade? Ou cairia nas armadilhas típicas destas produções de estúdio, degenerando num produto incapaz de justificar a sua existência? A crítica tem sido maioritariamente favorável, apesar dos números pouco animadores na bilheteira. Quatro tribunos já foram ver e deixam-nos, agora, as suas sobreimpressões críticas a Furiosa: A Mad Max Saga, de George Miller.

 

George Miller podia ter optado pela mesma abordagem narrativa de Mad Max: Fury Road (e dado o sucesso do filme, quem poderia culpá-lo por apostar nesse cavalo?), mas o octogenário cineasta continua a demonstrar que os seus interesses artísticos estão bem para lá da reciclagem de ideias. Assim, Furiosa mantém a tradição de ser um filme que vale por si numa saga que, a nível de género e estrutura, sempre foi versátil. Esta é a primeira entrada que constitui um épico. Uma autêntica ópera dividida em 5 atos, onde a ação atravessa décadas e se dedica a expandir o universo da Wasteland, a narrar a fundo as histórias e motivações das suas personagens, a meditar sobre a natureza perene (e imutável) da guerra e o que nos impele à vingança, ou à esperança, quando somos levados ao limite. Expansivo, onde o anterior era económico, mais palavroso e com um ritmo raramente encontrado no cinema comercial atual – cenas longas, setups demorados, momentos de silêncio (imagine-se!) -, Furiosa diferencia-se, mas não descura o seu lugar enquanto parte de um todo. Pelo contrário, a exploração da personagem central (aqui interpretada por Anya Taylor-Joy), e dos eventos que precederam Fury Road, é de tal forma conseguida, nesta prequela, que alguns momentos do filme de 2015 adquirem mais impacto retroativamente. Neste tomo consideravelmente mais pessimista, todas as personagens são trágicas, mas nenhuma como Dementus. O automitificado vilão, dado a monólogos e ilusões de grandeza, tem tanto de violento como de ridículo, de delirante como de lúcido, de frágil como de niilista. É, numa palavra, a personificação da dor e caos do mundo em que vive. Um homem sem esperança, que erige uma malfadada ideologia de dominação como fuga ao desespero. O perfeito némesis para a sofrida, relutante e igualmente malfadada esperança de Furiosa, numa interpretação surpreendente de Chris Hemsworth. Esta é uma aposta maioritariamente ganha por Miller, pese embora o maior recurso a CGI – que aboneca a desolação de um mundo de violência e desumanidade, retirando-lhe alguma credibilidade e nervo – e o ritmo consideravelmente menos afinado, face ao seu predecessor. Um filme menos coeso, mais disperso e esteticamente frágil do que a iteração anterior, mas provavelmente com o melhor argumento da saga Mad Max, até hoje.

Gil Gonçalves

 

The Seed of the Sacred Peach. O novo filme de George Miller começa com este fruto (proibido) a ser colhido por uma criança. Este será o último dia de Furiosa no paradisíaco “Green Place”, esse lugar de abundância num mundo pós-apocalíptico. O que se segue é um filme em muito semelhante, mas também muito diferente de Mad Max: Fury Road. Por um lado, há uma continuação do que assistimos há 9 anos: o estilo visual, a palete de amarelos torrados e azuis turquesa, a ausência de diálogo, as acrobacias kamikaze, os veículos de guerra. Por oposição, Fury Road narra 2 dias na vida de Max e Furiosa, uma perseguição do início ao fim, com ação constante e velocidade furiosa; já esta prequela percorre toda a vida da heroína antes de conhecer Max. São 5 capítulos que tornam Furiosa demasiado extenso – o título mais longo da franchise Mad Max. Demora uma hora até Anya Taylor-Joy finalmente aparecer e é aí que o filme descola. É um facto que Furiosa peca por falta de originalidade, com cenas muito iterativas de Fury Road, mas na verdade são essas as partes que mais deslumbram. Orquestradas de forma delirante e verdadeiramente única. Com um controlo total da geografia de cada cena. Do you have it in you to make it epic? George Miller provou que sim.

Pedro Barriga

 

Metal, poeira, e entulho, imagens saturadas de uma terra despida de vida. Miller regressa a Fury Road e reverte o filme de 2015 para explanar a história da sua (definitiva) protagonista. Laranja contra azul-petróleo, preto e vermelho, e uma minuciosa atenção ao detalhe – na filmografia do realizador, será provavelmente a Three Thousand Years Of Longing (2022) que devemos ir buscar a principal referência a este Furiosa. Fresco barroco de um mundo em colapso, desordem, folias mecânicas e força bruta. Se Fury Road fora o mais excessivo e deslumbrante dos filmes de, e em, acção, aí ininterrupta e intensa, Furiosa vive de uma longa trama narrativa em cinco partes, complexa e matizada, onde cabem 20 anos de uma vida – ou de uma fuga.

Em Fury Road, Miller experimentara uma certa repetição de diferentes ideias dos capítulos precedentes da “saga” Mad Max (esse seu valor de remake sendo literalmente evocado no antagonista da história, Immortan Joe, então protagonizado por High Keays-Byrne, que fora também Toecutter em Mad Max, de 1979), exponenciando-os através de uma trama singularmente simples. Uma gigantesca perseguição de dois dias (em duas horas) pelo deserto pós-apocalíptico, e nisso, finalmente (que me perdoem os puristas), um filme à escala das ideias loucas do seu autor.

Com Furiosa, Miller arrisca um novo Beyond The Thunderdome (1985). No malogrado terceiro capítulo da saga original, tudo o que se consumara em The Road Warrior (ou Mad Max II, de 1981) parecia perder-se no insistente humanismo pop do filme. Mas com Furiosa, Miller desenha enfim o grande épico narrativo que parecia não saber compor dentro deste seu universo punk. O músculo e o motor, a fuligem e o suor, e uma narração muito mais alargada das suas personagens – por tanto que Miller tenha feito maravilhas a caracterizá-las “ao volante”. Acelerando sempre na beira de um abismo, uma prequela de desfecho certo, é evidente. Mas parece impossível não seguir este filme de “coração na mão” pelo rumo bombástico do destino de Furiosa Jabassa (que da lendária Charlize Theron, passa aqui para uma adequada Anya Taylor-Joy). Um triunfo.

Miguel Allen

 

Enquanto Mad Max: Fury Road foi uma experiência inesquecível e imparável, um dos melhores, senão “o” melhor filme de ação deste século, Furiosa decide enveredar por uma abordagem diferente e, necessariamente, um novo tipo de filme. George Miller poderia arriscar fazer outro Fury Road, mas essa colagem também poderia ser o seu maior fracasso. Em vez disso, ele escolheu complementar o mundo apresentado no filme de 2015 através da história passada de Furiosa, até agora no imaginário do espectador. Isso significa mais narrativa, mais personagens, mais “enciclopédia”. No que diz respeito à ação, Furiosa é consideravelmente mais fraco do que o seu antecessor. O maior uso de CGI é provavelmente o maior pecado do filme em comparação com Estrada da Fúria, onde a maioria das acrobacias foi feita com recurso a efeitos práticos, obtendo aquele resultado mecânico que tão bem identifica o filme. Furiosa ainda tem muitos efeitos práticos, mas o CGI é notável, especialmente no capítulo 3 intitulado Stowaway, onde nos é apresentada uma grande cena de ação reminiscente do que Tom Hardy e Charlize Theron fizeram no filme anterior. O facto de o filme estar dividido em capítulos também não ajuda com o ritmo. No que diz respeito a “falhas” é basicamente isto, porque tudo o resto é soberbo. A construção do mundo é insana, os personagens são carismáticos (Dementus de Hemsworth é uma obra-prima sólida para um vilão e Immortan Joe está de volta), o diálogo varia entre uma delícia de filme B e sátira política e social, nunca parecendo pretensioso ou com medo de arriscar fora dos tópicos hoje em dia considerados seguros. Hoje dificilmente este filme poderia ser produzido nos Estados Unidos, e ainda bem, nem que seja pelo brinde que é ver o deserto australiano filmado desta maneira. As imagens que George Miller captura são impressionantes, cromáticas, imensas.. vastas(?).. A dada altura, estava a comparar isto a Dune II devido às paisagens desérticas e a pensar o quão melhor, puro e descomplexado é Furiosa quando comparado ao filme de Villeneuve. Furiosa é mais uma vitória para o franchise, um filme liminarmente diferente de Fury Road. Agora esperemos não ter que esperar mais 9 anos pelo já anunciado Mad Max: The Wasteland.

David Bernardino