Sobreimpressões Críticas a A Semente do Mal, de Gabriel Abrantes

EquipaFevereiro 20, 2024

No seguimento da entrevista a Gabriel Abrantes, que publicámos em Janeiro, três críticos da Tribuna deixam aqui as suas impressões sobre esta primeira ventura do realizador no cinema de terror. Um filme que se revelou algo divisivo, tanto junto da crítica como do público – a Tribuna gostou.

 

A Semente do Mal é a mais recente longa-metragem de Gabriel Abrantes, realizador português com residência norte-americana. Após o delírio visual de Diamantino, obra que lhe concedeu o prémio da Semana da Crítica em Cannes, Gabriel Abrantes envereda pela primeira vez num filme de terror clássico que baila a tempo inteiro com vários tipos de mistérios: as origens familiares, a paternidade, casas antigas e seculares, a dicotomia portuguesa do campo vs. cidade e, sobretudo, com velhas crenças populares sobre feitiçarias e superstições. Na sua primeira incursão pelo terror, Gabriel Abrantes poderá não revelar um domínio total ou até mesmo toda a segurança necessária para trabalhar com o género, porém, nesta obra, evidencia inúmeros desígnios de que poderá continuar a criar projectos neste âmbito. Em primeiro lugar, Anabela Moreira apropria-se do filme com uma caracterização terrivelmente assustadora, num papel extremamente desafiante e monstruoso. A vibe fantasmagórica e misteriosa é concretizada por Gabriel Abrantes e transposta para o espectador, concedendo-nos um ambiente permanente de pavor e aversão. Do início ao fim do filme, denota-se estímulo argumentativo, compasso certo e apropriado aos momentos mais tensos e uma cinematografia claramente estudada e repensada de forma a nada se tornar demasiadamente exagerado.

Rita Cadima de Oliveira

 

O português Gabriel Abrantes faz incursão no cinema de terror, e que bela surpresa foi. Com uma linguagem cinematográfica facilmente internacionalizável (o filme é, aliás, falado em inglês na sua maioria), não será de admirar que A Semente do Mal (Rosemary’s Baby é clara inspiração para Abrantes) encontre o seu caminho além portas. Trata-se de um filme de terror clássico que segue um jovem americano, acompanhado pela sua namorada, que viaja para Portugal em busca do seu irmão gémeo e mãe que nunca conhecera. Temos direito a mansão na floresta, cenários que piscam o olho a Cries and Whispers de Bergman, cave misteriosa e uma Anabela Moreira fabulosamente caracterizada no papel de matriarca idosa, coberta de plásticas e obcecada com a juventude eterna. Tudo em A Semente do Mal é bem executado e consciente do género em que se insere, sendo filme de entretenimento puro e duro, com pequenos apontamentos de comédia aqui e ali que ajudam a aumentar o desconforto com o bizarro que acontece nesta mansão. Com um clímax satisfatório, A Semente do Mal é refeição completa para quem procura um bom filme de género e entra facilmente no pequeno lote dos bons filmes de terror portugueses, ao lado de Coisa Ruim ou Faz-me Companhia.

David Bernardino

 

“A Semente do Mal”, primeira incursão de Gabriel Abrantes pelo reino do terror, não inventa a roda, mas tem os pergaminhos muito bem estudados. Tanto a abordagem narrativa como a estética são bastante clássicas, assentando num mistério familiar, de contornos sobrenaturais, que nos leva de jump scare em jump scare até à revelação e confronto finais. Pelo meio, são utilizados todos os motivos que já vimos em inúmeros filmes do género (a porta que range, os sons assustadores no escuro, o sonho dentro do sonho, a pessoa de fora que percebe tudo e a pessoa que desvaloriza, etc…), mas é inegável a competência e precisão com que Abrantes os emprega. A atmosfera, conseguida através de uma cinematografia de contrastes elevados, uma banda sonora devidamente estridente e o compromisso total dos atores, é irrepreensível. Já o mesmo não se pode dizer da componente mais “diferenciadora” do filme, isto é: a sua camada humorística. Ainda que produza momentos divertidos, o excesso de self awareness nem sempre joga bem com a ambiência de terror. O desequilíbrio tonal gera algumas quebras de ritmo e deixa a sensação, pela insistência em certas piadas, de se tratar sobretudo de uma defesa para as debilidades do guião. Uma prática comum na cultura popular da atualidade – injustificada num filme tão pouco pretensioso. Apesar disso, apraz-nos constatar que a inventividade de “Diamantino” não foi um engano e que Abrantes tem, a par de versatilidade, a capacidade de dar bom uso às suas referências cinematográficas.

Gil Gonçalves