Sobreimpressões Críticas a A Flor do Buriti, de João Salaviza e Renée Nader Messora

EquipaAbril 10, 2024

A Flor do Buriti é o mais recente trabalho do casal João Salaviza e Renée Nader Messora, e a segunda longa-metragem da dupla sobre a comunidade Krahô (depois de Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, de 2018). Entre a ficção e o documentário, explora os costumes e vivências deste povo originário do Brasil, no contexto de luta secular pela sobrevivência, que vai desde a entrada de fazendeiros no seu território, até à atualidade do extrativismo expansionista do agronegócio, fomentado pelas políticas de Jair Bolsonaro.

Vencedor do Prémio de Elenco, em Cannes (onde se estreou), foi acumulando sucessivos galardões entre a Europa e a América até chegar às salas portuguesas, onde foi visto por dois membros da Tribuna do Cinema. Gil Gonçalves e Pedro Barriga deixam-nos as suas críticas.

 

Realizado por João Salaviza e Renée Nader Messora, A Flor do Buriti cruza o documentário de cariz etnográfico com a ficção. Os costumes, histórias, rituais, dizeres e lutas do povo Krahô são acompanhados ao pormenor, interligando-se, aqui e ali, com elementos esotéricos – como sonhos lúcidos e a comunicação com espíritos. Visualmente, tudo é irrepreensível. A escolha de filmar o território e os corpos em película de 16mm proporciona um experiência quase tátil e contribui para uma sensação de transe, sobretudo nos segmentos noturnos. O mesmo se poderá dizer do som – ouve-se cada pássaro, cada folha ao vento e as suas diluições nas vozes dos Krahô. Infelizmente, essa aura contemplativa e sensorial nem sempre joga com a dimensão mais militante do filme, ou com os seus esporádicos assomos narrativos – como um longo (e historicamente relevante) segmento sobre o massacre deste povo, nos anos 40 do século passado. A progressão do filme, que assenta em três linhas temporais, é paciente e generosa para com a vivência dos nativos,  buscando, ao mesmo tempo, a urgência da sua luta contra a exploração do agronegócio e as políticas extrativistas de Bolsonaro (que culmina em imagens de uma grande manifestação de povos originários, em Brasília). Esta tensão entre ritmos e intenções não é particularmente bem equilibrada e deixa-nos num limbo entre o que cada uma das facetas do filme poderia ter sido. Se, por um lado, sentimos (enquanto forasteiros) não ter todo o conhecimento para acompanhar e retirar maior proveito daquilo a que assistimos nas “cenas da vida tribal”, ficamos também com a ideia de que a parte política deixa os assuntos pela rama, apesar de todo o empenho e compromisso com que procura ilustrá-los. Num projeto tão pertinente e tecnicamente competente, sentimos que o objetivo não chega a ser plenamente cumprido. Em todo o caso, há elementos interessantes a reter: o estético, já mencionado, e a forma como o filme mostra os signos da intromissão do mundo exterior nesta comunidade fechada e resistente. O uso de telemóveis e videochamadas é o mais óbvio, mas há pormenores mais subtis e igualmente impactantes: um rapaz de boxers durante uma dança, junto de outros membros que usam apenas os trajes tradicionais; pessoas a chegar à aldeia de mota e capacete; um dos membros da tribo a lamentar que já pouca gente quer fazer a grande dança (um dos rituais) sem qualquer peça de roupa e (talvez o mais importante de todos) o uso regular de palavras portuguesas, que naturalmente não existiam no dialeto original dos Krahô, no meio de frases… Todos estes elementos carregam um peso simbólico que dirá mais sobre as mutações do Brasil, a nível demográfico, e a dificuldade das lutas dos povos que resistem à impiedosa marcha da assimilação, do que todas as restantes imagens e diálogos captados.

Gil Gonçalves

 

 

A Flor do Buriti retrata a comunidade indígena dos Krahô. Um filme, algures ente o documentário e a ficção, que desmistifica o estereótipo dos povos indígenas como selvagens que habitam nas profundezas da floresta. O retrato é, na verdade, o de uma comunidade que vive numa aldeia como qualquer outra. Alguns moradores até falam português. Mantêm um contacto próximo com a Natureza, algo que a sociedade atual há muito desprezou. Uma vivência baseada no coletivo, também nisso contrária à tendência cada vez mais individualista do século XXI. A ida a Brasília e o protesto contra Bolsonaro situam a história no tempo, e mostram a constante luta desta e de outras comunidades indígenas pela sua sobrevivência. Alvos de violência incessante, desde invasões aos seus territórios para tráfico de animais a autênticas chacinas. É justamente no massacre de 1940 que a dupla de realizadores, Renée Nader Messora e João Salaviza, se foca. Aquela noite em que um grupo de fazendeiros entrou pelas terras adentro e assassinou cerca de 80 pessoas. Homens, mulheres, crianças. “No final, só havia fumo e sangue.” A Flor do Buriti explora também o passar das memórias de geração em geração. Uma passagem feita através de histórias contadas, que servem tanto de homenagem aos antepassados como de alerta para os jovens. Um filme precioso, no qual a beleza dos Krahô é captada de forma igualmente bela pela lente de Messora.

Pedro Barriga