Snow White, de Marc Webb: A Versão que nem a Madrasta merecia

David BernardinoMarço 28, 2025

Esta crítica contém spoilers
Contém spoilers porque é impossível não conter, uma vez que o leitor provavelmente nunca verá este filme e é também para estes momentos de sacrifício que a crítica de cinema serve. Não é surpresa para ninguém a polémica na qual está envolta esta adaptação “live action” do clássico da Disney de 1937. Snow White, ou Branca de Neve (sem “os Sete Anões”, já veremos porquê), não será bem um filme, mas antes um produto. Contaminada até ao pescoço pela chamada agenda woke, que promove o politicamente correcto e confunde a política com moral, a Disney foi adiando o inevitável remake (ou revisionismo feroz) de Branca de Neve, não sabendo muito bem o que fazer com ele. Primeiro a questão da interpretação da protagonista (descrita no original como branca como a neve), por uma actriz hispânica, que nesta nova versão deve o seu nome ao facto de ter nascido numa noite de um grande nevão. Damos de barato esta alteração, de tão comum que é a tantas e tantas produções da Hollywood actual, em especial da Disney – repleta de remorsos por um património histórico “problemático”, injustamente acusado de repressivo (a ponto de quase se esquecer de como foi absolutamente decisivo para o desenvolvimento do cinema de animação), e que agora deve ser olhado a uma nova luz moderna que  contextualize esse passado como “errado”. Urge então, aos olhos dos marketeers tecnocratas da Nova Disney, “corrigir” os erros do seu passado (procurando hipocritamente lucrar uns milhões pelo caminho com estas novas tendências sociais tão populares). Correu mal, e a Disney vê-se agora prisioneira da sua própria moral, delapidando o seu património fílmico por dá cá aquela palha.

Corrigida a questão étnica da protagonista, há que empoderá-la: elimina-se o príncipe e cria-se uma personagem nova que o substitua. Jonathan é uma espécie de Robin dos Bosques líder de uma quadrilha da floresta, que procura combater a rainha má, interpretada por Gal Gadot, e que ajuda Branca de Neve a recuperar o seu reino. A nova história é afinal sobre isso! O filme escapa assim à narrativa do príncipe encantado (visto, aos olhos de hoje, como um stalker) e da protagonista que sonha em encontrar o verdadeiro amor. Ainda assim, o foco de maior polémica é outro: como lidar com os anões e evitar reforçar estereótipos? Entra em campo Peter Dinklage (Game of Thrones), na auto arrogada qualidade de porta-voz dos anões, afirmando que seria vergonhoso fazer uma nova versão de Branca de Neve e os Sete Anões onde actores com nanismo fossem levados a interpretar papéis tão redutores e estereotipados como Zangado, Dunga ou Espirrão. Perante este impasse chega o tiro (de caçadeira) nos pés: gastar milhões recriando as 7 personagens em efeitos digitais computorizados para, agora, os actores anões (que não são o Peter Dinklage) se revoltarem contra a Disney acusando-a de sabotar as suas potenciais carreiras em nome do politicamente correcto.

O resultado é, inevitavelmente, um desastre. Os anões feitos a computador, que na verdade pouco aparecem no filme, são algo de absolutamente diabólico, um pesadelo febril. Algures entre o humanoide e a criatura mágica da floresta com centenas de anos, estes 7 personagens são os únicos seres computorizados (além dos animais da floresta, coitados) num Mundo habitado por humanos de todas as cores, tamanhos e feitios, onde até existe um anão interpretado por um actor de carne e osso. Tudo é absolutamente plástico e forçadamente revisionista: os anões já não têm as mãos sujas depois de trabalhar na mina, a cena da Branca de Neve aterrorizada pelas árvores na floresta resolve-se em 10 segundos, não existe qualquer acto heróico dos anões na defesa da protagonista contra a bruxa, e, revelação, Dunga é mudo por ter sido vítima de bullying de décadas às mãos dos outros anões. Conseguirá Dunga, com a ajuda de Branca de Neve, líder pura do Reino, encontrar a sua voz interior?

Novas músicas pouco memoráveis e desinspiradas, interpretações puramente rotineiras, nas quais se sente que nenhum dos actores envolvidos acredita (a não ser uma Rachel Zegler excitadíssima com esta nova versão do clássico), uma Gal Gadot (drama de bastidores entre a actriz israelita e Zegler, apoiante da causa palestiniana) fora de contexto, e especificamente uma falta de brilho e graça genuínos. Enfim, nada em Snow White funciona. Será esta a machadada final no delírio das adaptações live action dos clássicos Disney? Com o remake de Bambi, Os Aristogatos e Robin Hood já anunciados parece que a linha de produção não tem fim à vista, mas perante o desastre de Branca de Neve junto da crítica e espectadores o futuro da “linha editorial” da Disney é difícil de prever.

David Bernardino