Sirāt, de Oliver Laxe: a alienação no fim do mundo

Um estrondo vindo do coração da terra. Os primeiros momentos de Sirāt observam o pulsar da montanha, ecos primordiais reverberando numa série de colunas no deserto marroquino. Centenas de corpos lançam-se numa dança ritmada e ritualística, ao som da batida de uma rave no fim do mundo – expressão que, depressa descobrimos, é mais literal do que metafórica. “Não é para escutar, é para sentir”, explica a certa altura uma raver a Luis (Sergi López), um homem comum conduzido pela tragédia àquele mundo a que não pertence.

Luis e o filho pré-adolescente, Esteban (Bruno Núñez Arjona), procuram no deserto Mar, a filha e irmã mais velha que há largos meses deixou de dar sinal de vida. Foi-lhes indicado que ali, naquele lugar e naquela cultura, talvez obtivessem notícias. “Tem um olhar triste”, comenta Jade (Jade Oukid), membro de um grupo que auxilia Luis na jornada, a mesma que a meio do filme lhe diz para apenas sentir. O que de início se configura como uma rescue mission ao coração das trevas (esse arquétipo tão clássico no cinema) cedo acaba por dar lugar a uma travessia muito mais difusa, imperscrutável, por um deserto de perigos e uma natureza inóspita que não se preocupa com o orgulho humano. As consequências serão trágicas, mas nessa tragédia, parece o argumentista/realizador Oliver Laxe querer dizer-nos, há também libertação.

“Não é para escutar” pode aqui ser substituído por “não é para pensar”. Isto é, que não se intelectualizem em demasia as imagens e os sons convocados à tela na mais recente longa-metragem do cineasta franco-galego. Estamos perante um objeto cujo objetivo declarado parece ser o de nos transportar para uma experiência eminentemente visceral, física, subsumir-nos ao seu ritmo e ao seu hipnotismo e fazer-nos interiorizar uma verdade mais profunda, quase espiritual, sobre quem somos e o nosso lugar no mundo.

Será essa, pelo menos, a leitura favorável de Sirāt. Outros, contudo, dirão tratar-se de um objeto meramente estilístico, desprovido de grande profundidade, um exercício niilista e de afetações intelectuais pronto para consumo festivaleiro – leia-se, dos grandes festivais da indústria. Quanto a este último ponto estão certos: o filme foi acolhido em Cannes com estrondo, valendo a Laxe o Prémio do Júri (sucede assim a Emília Pérez; que companhia!) e disparando nas cotações para os Óscares.

Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Sirât é uma proposta interessante, acima da média do cinema europeu. Pela sua ambiguidade e vontade de desafiar, e também, porque não dizê-lo, pelo sucesso comercial que fez no país vizinho, mais de 300 mil espectadores que o elevam a essa condição rara: um filme de autor que é também um êxito de bilheteira.

Se tal pode à partida parecer estranho – estamos, afinal de contas, perante um filme esotérico, de interpretação difícil, um assalto aos sentidos que, mesmo narrativamente, comete riscos pouco comuns no cinema mainstream – a verdade é que a questão se dissipa à medida que nos deixamos levar no seu ritmo. Porque Sirāt é, sobretudo, um exercício de género. Mais intelectual, talvez, mas nas suas entranhas muito mais Mad Max do que Antonioni ou Apichatpong, referências assumidas por Laxe. Aliás, numa recente entrevista à imprensa portuguesa, o próprio realizador assumia-o: “como ajudar o espectador a subir para o cavalo? Através do género cinematográfico. É o que gostamos no cinema, a fusão entre o popular e a alta cultura”.

É, acima de tudo, uma experiência prazerosa, cinema de sala que vale a pena ver em sala. Tal se deve, claro, ao imaculado desenho sonoro da fita, da banda sonora de Kangding Ray à direção de som supervisionada por Laia Casanovas, que faz os próprios assentos da sala reverberarem e nos colocam numa frequência semelhante à da trip colectiva das personagens. Mas também ao trabalho de imagem cuidado, à fotografia do deserto marroquino, território que Laxe conhece bem (já lá filmou vários projetos anteriores) e do qual extrai o máximo potencial estético: evocações da solidão, da dúvida, de algo maior que nós próprios, da morte.

De facto, se se pode dizer que Sirāt tem alguma ideia norteadora, será a de um filme sobre a morte. Sentimo-la sempre à espreita, mesmo fora de campo: na rádio, no horizonte distante das personagens, ficamos a saber de um conflito global que anuncia o fim dos tempos, na rota de um filme pré-apocalíptico (de novo Mad Max). Dentro de campo, o deserto é impiedoso, e o filme prova-o numa série de momentos que nos chegam com genuíno choque, estacas que trespassam a convenção narrativa e reduzem o destino das personagens a uma arbitrariedade cósmica. Alguns têm criticado essas escolhas como gratuitas; não sendo inteiramente possível discordar, é inegável que são, contudo, eficazes.

No final, se há algo que impede Sirāt de atingir toda a sua grandeza, será talvez o facto de que, apesar de toda a sua pretensa vontade em colocar o espectador num lugar incómodo, o filme não está disposto a visitar esses mesmos lugares na sua realidade interna. Ambientar um filme destes num território marcado por um conflito histórico e de raízes coloniais, que se prolonga há décadas, acarreta um peso político que Laxe parece não estar disposto a abordar (talvez porque as personagens não estão para aí viradas. Ou talvez porque o filme é, em parte, financiado pelo estado marroquino). Inventar uma Terceira Guerra Mundial é fácil; é quando se ambienta uma sequência climática do filme no Muro do Saara, um dos maiores campos de minas do mundo, puramente como engenho de tensão dramática e sem qualquer enquadramento histórico, que as coisas se complicam.

Contudo, se esta crítica tem de ser feita, também há que apresentar o seu reverso: o final do filme parece abrir a porta a uma possível interpretação que, de forma subtil, condena a alienação aparente das personagens para com o mundo — e, por conseguinte, o nosso sentimento de apatia generalizada. Planos sucedâneos dos protagonistas do filme, misturados com populações nativas do deserto, culminando numa imagem de uma linha de comboio que leva a parte incerta (a alusão a Shoah será talvez excessiva) sublinha a ideia: o fim do mundo já começou há muito tempo.

 

André Filipe Antunes