Silent Friend, de Ildikó Enyedi – Fragmentos de Solitude

Paulo VenturaSetembro 1, 2026

Como um verdadeiro mosaico cronológico, Silent Friend (Stille Freundin, no titulo original, “A Amiga Silenciosa” em português) assume-se monumental, sem medo do seu próprio ritmo e sem pressa para alcançar qualquer tipo de resolução. A sua estrutura, ramificada por entre as épocas de um enredo multidirecional, ergue-se como um reflexo da experiência temporal de uma velha árvore e, tal como a dela, também a presença do espectador se constrói a partir da aproximação a fragmentos vividos pelas personagens que encontra pelo caminho, sem qualquer intenção de acompanhar por completo as suas histórias, numa aceitação esperançosa da efemeridade, da solidão e da distância.

 

 

Apesar de a narrativa se centrar numa série de experiências científicas que procuram compreender e explorar as possibilidades de comunicação entre diferentes formas de vida, Silent Friend adota uma atitude contemplativa e sensível, não propriamente interessada no desenrolar destas experimentações, mas na vivência dos que as concretizam. Aquilo que parece motivar verdadeiramente a realizadora Ildikó Enyedi são as ligações emocionais que se partilham por entre as diferentes épocas diegéticas e as diferentes personagens que as habitam, numa lógica que desvaloriza o desenvolvimento narrativo a favor da conexão. Cada época é apresentada com a sua própria estética, o seu ritmo e o seu tom, tornando cada uma destas personagens tão central quanto as das restantes épocas. A concretização de tal mistura heterogénea revela a mestria de Enyedi e do montador Károly Szalai, que, através de uma construção rítmica exímia e completamente coerente com o espírito cinematográfico pretendido, garantem a maleabilidade da narrativa sem nunca sacrificarem a coesão. Assim, cada grupo de personagens experiencia, de uma forma ou de outra, o seu próprio estado de isolamento – semelhante ao da árvore em questão –, enquanto ao espectador é permitido partilhar dessa mesma solitude. Uma partilha que se espalha por épocas e que explora a vasta amplitude do tempo através de um olhar mais sensorial do que lógico – um retrato sensível da ciência.

 

 

O seu único ponto (quase) negativo encontra-se precisamente nesta dimensão científica, cuja exposição é talvez o elemento mais frágil de todo o filme. Ao tornar mais concreto aquilo que poderia permanecer no domínio da abstração, Silent Friend perde alguma da sua ambiguidade em favor da clareza da sua mensagem. Porém, embora a explicação científica se aproxime por vezes do limite do que seria ideal – o que se justifica dado o cunho científico do enredo – a narrativa nunca se torna autoexplicativa ou excessivamente digerível, preservando, ainda assim, a subtileza com que aborda as questões que propõe.

O ritmo e o estilo conseguidos poderão ser demasiado cansativos para quem espera que as diferentes épocas se encontrem através de grandes revelações ou consequências narrativas, mas Enyedi nunca parece interessada em fazer depender umas histórias das outras. As suas ligações são mais subtis, estabelecendo ecos entre personagens e experiências sem transformar o passado numa chave explicativa do futuro. Mesmo assumindo uma estrutura coral, Silent Friend distancia-se de Magnolia (1999), de Crash (2004) ou de qualquer outra obra focada em fazer convergir as suas personagens num clímax narrativo. Se uma comparação se impusesse, seria justo fazê-la com Perfect Days (2023) e com a sua contemplação meditativa do tempo presente. Se, na obra de Wim Wenders, Hirayama observava as árvores do parque e usava a sua câmara para capturar a luz que atravessava as suas folhas – fenómeno a que a língua japonesa chama komorebi –, Ildikó Enyedi constrói a sua obra a partir de uma perspetiva semelhante, utilizando a sua câmara para capturar metaforicamente as vidas e as experiências humanas que atravessam as folhas de uma ginkgo biloba, como se a luz que compõe este komorebi fôssemos nós, e o nosso breve fulgor.