Ready or Not 2: Here I Come, de Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett – Maior, Mais Sangrento, Ainda Divertido

Raquel SampaioAbril 16, 2026

É uma verdade universalmente reconhecida que, quando um filme original vinga em Hollywood, uma sequela virá a seguir. Ready or Not 2: Here I Come não foge à regra e, curiosamente, não tenta fugir. Bettinelli-Olpin e Gillett regressam à sua própria criação com energia e dispostos a expandir o universo em vez de o repetir. O resultado é irregular, mas raramente aborrecido. O primeiro Ready or Not funcionava pela sua brutalidade contida: uma única noite, uma única mansão, uma única mulher contra uma família de lunáticos ritualistas. A premissa era elegante na sua crueldade. A sequela abandona essa economia de meios e faz bem, porque não teria como mimetizá-la sem perder impacto. O que ganha em troca é escala e mitologia. Descobrimos que os Le Domas não eram um caso isolado: existe toda uma rede de famílias capitalisticamente satânicas, gerida à distância por Chester Danforth (David Cronenberg, num cameo que é em si mesmo uma piada sobre poder e decadência). Quando este sai de cena, uma cláusula obscura das regras entra em vigor e Grace (Samara Weaving) volta a ser caçada, desta vez com a irmã Faith (Kathryn Newton) ao lado.

 

 

A primeira metade do filme é deliberadamente generosa na construção deste novo universo. Bettinelli-Olpin e Gillett demoram o seu tempo a instalar peças, apresentar famílias, estabelecer regras. É uma mise-en-place longa, mas tem o seu humor próprio. O problema é que quem gostou da precisão cirúrgica do original (aquela sensação de câmara fechada, de ameaça concentrada num único espaço) pode sentir-se desorientado pela profusão de cenários, personagens e frentes abertas em simultâneo. A sequela é mais larga, mas nem sempre mais funda. Quando a acção finalmente arranca, os realizadores compensam com eficácia: as cenas de confronto são filmadas com clareza e um prazer evidente em fazer explodir, esfaquear e destroçar os seus jogadores. Há um vigor físico nessa segunda metade que alicia o espectador. Samara Weaving continua a ser a força motriz de tudo isto. Não é só o físico do desempenho e a brutalidade gerida com timing cómico perfeito, é também a sua capacidade de tornar Grace exasperante e, simultaneamente, pô-la do nosso lado. Newton e Weaving têm uma química que funciona, ainda que o argumento nunca decida muito bem o que fazer com a personagem irmã, para além de a colocar em perigo.

O elenco de antagonistas é onde o filme brilha com mais consistência. A galeria de aristocratas assassinos é variada e bem calibrada, e o guião aproveita cada um deles para um ou dois momentos de humor negro certeiro. Elijah Wood, como advogado obrigado a supervisionar o jogo sem qualquer interesse real no desfecho, é o melhor: comedido, desconcertante, responsável pelas maiores gargalhadas do filme. Sarah Michelle Gellar, pelo contrário, fica aquém do que se esperaria. Tem presença, mas pouco espaço para a exercer. O ponto alto é uma sequência a meio do filme, num salão de baile, que resume tudo o que a saga tem de melhor: violência coreografada com prazer, absurdo emocional genuíno, Bonnie Tyler em fundo sonoro e uma bazuca. É o tipo de cena que não se descreve sem estragar e que ficará.

 

 

O problema está no terceiro acto. Onde o original atingiu um clímax de catarse pura, a sequela opta por um desfecho mais contido e menos surpreendente. A história entre as irmãs nunca chega a convencer emocionalmente, nunca sentimos verdadeiramente a distância ou a eventual reconciliação. E a expansão mitológica, que parecia prometer, fecha-se antes de atingir o seu potencial. Ainda assim, seria desonesto ignorar o que o filme cumpre. Há qualquer coisa de quase reconfortante em ver uma mulher comum – com cada vez mais hematomas, menos paciência e os mesmos princípios – a desmantelar estruturas de poder que funcionam há séculos. Num ano em que as notícias sobre a impunidade dos milionários abundam, Ready or Not 2: Here I Come oferece uma forma de justiça que o cinema sabe dar melhor do que ninguém: ruidosa, sangrenta e satisfatória. Não é o original. Mas tem o mesmo coração e, nas melhores cenas, a mesma gargalhada.