Projecto Global, de Ivo M. Ferreira: Anos de Chumbo e o Fim da Inocência

O cinema português sempre teve uma relação difícil com o género. É de senso comum que existem poucos filmes de ação em Portugal, não por falta de vontade dos criadores, mas porque os orçamentos dificultam a realização deste género de filmes. Mas há outra razão relevante, profundamente cultural. O porte de arma, ao contrário da América, não é generalizado. A maioria dos portugueses não guarda uma arma em casa, nunca viu tal objeto, nem o sabe disparar. Sim, existe violência em Portugal, mas sem a cadência, a intensidade e sobretudo a visibilidade que caracterizam outros países, capazes de alimentar histórias de um entusiasmo epidérmico. Talvez seja por isso que os filmmakers portugueses não consigam produzir histórias de ação, cuja veracidade questionamos constantemente uma vez que habitam uma paisagem social aparentemente pacífica.

Porém, Projecto Global não demonstra este constrangimento. Abordando o grupo terrorista FP-25, o filme reproduz atos violentos que pairam no imaginário português. Assim, o filme carrega consigo um acréscimo de credibilidade ficcional, não só porque as sequências de ação estão tecnicamente bem executadas (armas, perseguições de carro, explosões e assaltos), mas porque estes acontecimentos pairam na memória coletiva. Aliás, podemos ir mais longe: o próprio filme é construído não como uma narrativa clássica, mas como uma rememoração de um tempo. Já lá vamos.

 

A primeira escolha determinante de Ivo Ferreira foi não representar os membros reais das FP-25 como protagonistas. As personagens deste filme resultam de uma ficcionalização total dos membros do grupo, sem qualquer correspondência evidente com quem lhes terá servido de inspiração. Sem ser “baseado em factos verídicos”, a Rosa que aqui vemos não existiu, mas reproduz os sentimentos dessa História. Em segundo lugar, o filme tem como ponto de vista os membros das FP, e nunca as vítimas, uma escolha audaz e perigosa. Contudo, não parece existir um apelo à sensibilização dos perpetuadores da violência, sendo exibidos como jovens imaturos que residem numa atmosfera decadente e asfixiante. Fica a sensação de derrota logo à partida, num ciclo de violência que se auto alimenta da rejeição cega do momento. Talvez seja esse o assunto retratado no filme: o horribilis em ser-se jovem e negar o presente (neste caso, pacificado e democrático).

 

Outro aspecto da obra é a forma como conta a sua história. Pensado inicialmente como uma série de televisão, Projeto Global apresenta uma enormidade de personagens, algo que dificulta a relação do espectador com cada uma delas. Talvez a série, ao estrear, desenvolva mais história, mas fica a sensação que é nos poucos momentos narrativos do filme que reside o seu elo mais fraco, com clichés fáceis de um certo grau de “foleirice” (principalmente, um caso amoroso de um polícia com a protagonista). Porém, o corte presente, perspicazmente construído por Sandro Aguilar, pretende evocar signos e memórias deste Tempo, através da sucessão de fragmentos, excluindo-se de apresentar uma dramaturgia clássica com desenvolvimentos e mudanças de personagens. Aqui, fala-se de um grupo estagnado no tempo e na mente. Existem buracos, diversas elipses. Saltamos de sequência em sequência, das quais ouvimos falar: o assalto ao banco falhado, as barbas longas em rostos jovens, as nuvens de tabaco das salas, atentados à bomba, tiros à queima roupa, reuniões de capuzes negros. Um caldo fervilhante, onde as mortes são secas, duras, e por isso, apáticas lembrando Jean-Pierre Melville. É na junção destes símbolos que se pretende recriar um ambiente de terrorismo tardio que se vivia em Portugal nos anos 80, ele próprio reminiscente dos movimentos políticos violentos da década 70.

 

Foi precisamente na década de 70 que o cinema se tornou mais cru, nomeadamente nos Estados Unidos e a sua Nova Hollywood, onde a violência era um tema constante. E embora o Projecto Global seja (talvez) assumidamente superficial (ao contrário desses filmes carregados de profundidade), é no seu aspecto, pela fotografia, que melhor lembra os anos 70 (ou, da forma como fomos expostos à violência pela primeira vez). Nesse sentido, há que reconhecer a qualidade da fotografia de Vasco Viana, que evoca os melhores filmes deste período: grão, zooms, teleobjetivas, vários planos de foco, mudanças de foco, pouca profundidade de campo, panorâmicas, reenquadramentos e o trabalho das cores intermédias, pouco saturadas e acinzentadas. Num tempo em que a fotografia se tornou pouco estimulante e repetitiva,  é esperançoso ver que o cinema português não abandona a direção de fotografia autoral e singular, contrariamente às imagens genéricas de telemóvel, brilhantes, luminosas e pouco contrastadas propagadas no streaming.