Poucas sensações há mais frustrantes do que sair de uma sala de cinema inundado com a pergunta: “porque é que este filme existe?”. Em Primeira Pessoa do Plural, a mais recente proposta de Sandro Aguilar, tal acontece por desígnio. “[O filme é] uma máquina de produção de ambiguidade (…) Cada espectador terá um entendimento diferente daquilo que vê e isso é propositado”, assumia o cineasta há dias numa entrevista ao Correio da Manhã.
Procuremos pistas. “Mateus Lagoa e a sua esposa Irene preparam-se para celebrar o vigésimo aniversário de casamento num luxuoso resort numa ilha tropical, deixando o filho adolescente perigosamente à deriva”, lê-se na sinopse oficial. “Antes da partida para o paraíso, durante uma noite que têm inesperadamente de passar separados, os efeitos secundários das vacinas fazem-se sentir – febres, desmaios, arrepios, alucinações diversas. Uma melancólica disposição instala-se, e o seu mundo parece de alguma forma fraturado, capaz de insuspeitas e perigosas promessas”.

Um “mundo fraturado” é uma adjetivação apta. De resto, está longe, muito longe, de corresponder ao filme que vi. Porque Primeira Pessoa do Plural é de facto uma “máquina de produção de ambiguidade”, rejeita liminarmente aquilo que é, que costuma ser, o desígnio antagónico a este do cinema ‘convencional’, o de produzir sentido. Não como este objeto: opaco, insondável, fechado sobre os seus próprios segredos.
A questão, como sempre para efeitos de um texto de crítica, é se alcança os desígnios a que se propõe. E aqui chegados, não é claro que o consiga. Habituado a explorar o onirismo latente da condição humana na sua restante obra, Aguilar perde-se, deixa-se perder, por caminhos que, em momentos, roçam o sublime, composições visuais belíssimas e de textura rica, a primazia dada à palavra, não, à sua dimensão superior – a linguagem, e a língua portuguesa – mas que demasiadas vezes se afundam na sua própria ambiguidade, traduzindo-se ao olhar de quem vê como pretensiosismo sem substância.

A dupla central de protagonistas, Albano Jerónimo e Isabel Abreu (Sandro Aguilar, o tal filho adolescente, também existe, mas a sua presença, para lá de certo artifício lacónico e de um par de momentos em que a câmara de Rui Xavier o filma quase como de Tadzio em Morte em Veneza se tratasse) é sintomática deste desequilíbrio. Interpretando o que parecem ser um rol de personagens e dinâmicas diferentes, fantasmas ou espelhos refletidos em todas as coisas como mil versões de si mesmos, acabam traídos pela debilidade-tornada-ambiguidade do argumento. Jerónimo em particular, um dos reconhecidos grandes atores da sua geração, é não bastas vezes reduzido a um bobo e a uma pantomima confrangedora. Outros momentos há em que não se saem tão mal assim – no início do filme, um plano contínuo de proximidade enferma e sensual, ou a longa sequência final e sem diálogos no resort. Mas sempre, a inconstância. Talvez própria dos sonhos, talvez todo o filme seja um sonho, mas inconstante em todo o caso.
A questão com um filme destes é que se torna muito fácil desculpar eventuais lacunas como génio surrealista, com o famoso “é assim porque é suposto ser assim”. Não estou convencido que assim seja. Há aqui elementos que se afiguram relativamente diretos – a vida conjugal na meia-idade, o paraíso perdido da juventude, fragmentos de possibilidade e de outra(s) vida(s) que já não o são, a morte como sombra distante, e também cada vez mais próxima. E há outra admissão do próprio Sandro Aguilar, desta vez ao Ípsilon, onde, em aparente contradição com a abertura, assumia querer fazer um filme mais ‘convencional’ do que a sua œuvre até aqui:
“Estou desta vez a incluir uma série de coisas que imediatamente tornam o filme mais acessível (…) Quero abrir para o espectador, mas quero à mesma propor-lhe uma viagem que me interesse a mim também”.
O que temos, então, é um filme a tentar encontrar-se a si mesmo, a meio caminho entre dois destinos polares. Para uns, resultará numa obra irrepreensível; outros dificilmente farão o esforço de o suportar. Confesso ter estado mais perto da segunda reação do que da primeira num impacto inicial, mas reconheço que um segundo visionamento talvez clarificasse o cerne da obra.

Acima de tudo, o cinema português continua a dar prova da sua singularidade, o que é positivo sem qualquer qualificador. Mas, ultrapassada a tal questão inicial ao sair da sala – o filme é feito para toda a gente e ninguém – outra sobressai: se, no meio da sua incorrigível individualidade e vontade de um cinema universal, de múltiplas cores e múltiplos sentidos, Primeira Pessoa do Plural não acaba, na verdade, a falar sozinho.
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