Poor Things: Uma Golpada Degradante

David BernardinoJaneiro 29, 2024

É difícil entender a forma como uma plateia cheia se ri e regozija com Poor Things, o inexplicável vencedor do Festival de Veneza e nomeado para 11 Óscares (incrível como com alguma habilidade tudo passa por “arte”), mas talvez seja cedo para ter essa conversa. O filme de Lanthimos apresenta-se como carregado de pretensos símbolos e de um feminismo pró-sexo acerca do empoderamento do corpo feminino usando como personagem central uma mulher ressuscitada com o cérebro de uma criança que a pouco e pouco vai descobrindo a realidade do Mundo. Essa é a versão romantizada. A versão real é que observamos Emma Stone a representar um degradante estereótipo de autismo e deficiência mental, em constante evolução como se se tratasse de um pokémon, a ser aprisionada e sucessivamente objectificada por homens que, sem excepção, procuram aproveitar-se sexualmente dela.

A protagonista, sedenta de conhecer o Mundo e as sensações do corpo (afinal trata-se de uma criança), acede, empoderando-se, de uma forma grotesca que, aparentemente, tem imensa “piada”. O humor com que tudo é pintado, um péssimo gosto (haverá alguma “piada” no filme que não inclua genitais ou injúrias?), apenas confirma a pretensiosa provocação que o realizador pretende fazer (de vez em quando lembro-me de The House That Jack Built e dos espectadores que riram com o assassinato e desmembramento de crianças). Tudo poderia ser válido se existisse de facto alguma filosofia ou pensamento além da gratuitidade e do raciocínio masturbatório de auto-validação de valores de libertação, aqui completamente subvertidos com uma ligeireza cartoonesca que se presume inteligente, mas que é fast-food feroz, onde até o criador da protagonista se chama God (percebem? Deus? Ya, porque ele a criou, brutal!).

Não se trata apenas de uma distopia, como já fizera em The Lobster, mas sim de um verdadeiro universo steampunk retro-futurista em péssimo CGI que apenas serve de decoração a um desfilar de uma provocação burguesa e interiores grandiosos à la The Favourite, desta vez ad nauseum, usando e abusando de uma câmara grande angular (o chamado olho de peixe), para efeitos estéticos decorativos. Existe até uma parte do filme passada em Lisboa, irreconhecível e aparentemente totalmente feita a computador, carregada de estereótipos bacocos, como o enfardamento de pastéis de nata e fadistas cantando à janela das suas casinhas. Espantoso como os mais básicos estereótipos e preconceitos conseguem, com alguma habilidade linguística e estética, transformar-se em criatividade e intelectualidade. Poor Things é uma das grandes golpadas do cinema moderno, o pior filme de Lanthimos, e provavelmente um dos piores filmes que terei visto na vida.

 

 

David Bernardino